Apelo

Pois que se eu morresse agora, a imagem que ficaria de mim seria aquela que beiraria a perfeição. Por que, meu Deus, por que então não me conceder esse desejo e me levar para junto de ti, não num momento de desespero – ao contrário. Deixe que o vivido até aqui se traduza como os momentos de sublimação do ser imperfeito que, por não ter sido conhecido em sua totalidade, transmite uma ideia que jamais seria o real. O tempo se encarregaria da saudade, as poucas fotos alimentariam a alma até a hora em que o coração, a seu ritmo, começaria a esquecer. Ao que o Senhor poderia retrucar, “Mas não é você quem diz que a felicidade de alguns segundos compensa a desgraça que espreita cada passo?” Diria que sim, e me surpreenderia por Sua onisciência falsa de não ter entendido ainda que os conselhos que damos para alguém nunca servem para nós mesmos.

Para mim falta a capacidade de. Então, se tiver de condenar, que seja somente a mim. Eu, que jamais acreditei na Sua força superior; que nesse instante em que escrevo duvido da Sua existência; que estou por ter qualquer vestígio de um criador. Veja que a despeito de tudo apelo para o Senhor. Tamanho é o desespero – sim, é de fato desespero, já que me contradigo, minto e me engano descaradamente. Que seja indolor – para mim e aos demais – quase uma extensão do sono para o qual em breve me dirijo.

Ou então que me arranque da cabeça o pouco que sei. Ou acho que sei. Faça de mim um ignorante completo, não parcial. Tire de mim qualquer resquício de raciocínio porque não quero nem devo pensar – e é o pensar que me tem angustiado há anos. Não, faça o que foi solicitado primeiro: me leve para junto de ti e que de mim reste apenas a lembrança boa, pois mentirosa, daquilo que acreditam que fui. Mas como abrir mão de algo tão maravilhoso? A culpa é Sua de a lógica das coisas ser assim?

Pai, não perdoai-nos. Sempre sabemos o que fazemos.

- No envelope em que foi encontrada essa carta se lia: “Único documento autêntico que deixo”

Publicado em: on Outubro 19, 2009 at 4:07 am Comentários (1)

Instantes

Queria tirar uma foto
para congelar a alma
de um momento que gostei.
Mas o espírito não reside na imagem
e sim nas sensações.
Vou me lembrar de como me senti?

Queria parar o mutável
para interromper o fluxo da água
de um rio que não vejo na cidade.
Mas os carros à frente se adiantam
e o pelotão invisível marcha.
Por que não se deter às vezes?

O filme vai sempre para um fim
que as pessoas acompanham, mesmo
de cabeça baixa.
A lógica deve ser fixa?

Vai chegar o dia
quando enfim vão perceber:
sim, há mesmo um reflexo no espelho.
Vão ver que nem sempre
é preciso andar para evoluir.

Estou parado.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Outubro 16, 2009 at 2:19 am Comentários (1)

Desfazendo

*Para Mary e seu aniversário

Todos os anos uma vela se acende
só para ser consumida em seguida
em um ritual sem senso.
Ela nos lembra que o tempo
é marcado e dominado pelo fogo
símbolo da despedida e da
pequena morte.
Pois a grande despedida já vem
e não será definitiva.

Hoje, dia em que as circustâncias te levam
mais um pouco de vida, fecha os olhos;
preenche com a fumaça da chama recém-extinta
o vazio do peito.
O ar carregado com acenos de mãos.

Vai, e volta se quiser.
Aqui vai ter sempre um lar.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Setembro 25, 2009 at 8:05 pm Comentários (3)
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Aproximação

Quando tudo é dito pelo silêncio, parece que alguma coisa não está acontecendo. As palavras, outrora símbolo da compreensão, não serviam para nada ali – pior: atrapalhavam.

Olhavam-se, entreolhavam através de vultos que passavam sem cessar. Era uma comunhão tácita, calada, portanto não-realizada e ainda a ser cumprida. Dois seres tateantes às escuras sem o toque em si.

“Você sabe que eu estava aqui pensando… O que falar para você agora, como te abordar sem ser ridículo? Se eu falasse, ‘Opa, tudo certo? Já escolheu o que vai fazer?’; ‘Ah, você não é amiga dela? Ela é muito legal’. Sei lá, podia tentar bolar mais alguma coisa, mas tudo seria meio forçado, você não acha? E já anda tudo tão artificial hoje em dia entre as pessoas. Você parece ser alguém bem largada no sentido bom da palavra, desencanada com isso, entende? Meio que sem censura, direta. E mais uma vez eu olhei para você e você olhou para mim. Você sabe que não foi a primeira e não vai ser a última. Não quero perder mais tempo. Então é isso: com um pouco de receio, mas sem medo de ser estranho, idiota ou ridículo, queria te falar apenas ‘oi’. Sim?”

Mas isso só se sonhava. Talvez o valor de tudo esteja contido na travessia em si, sem preocupações de onde se parte e onde se chega.

Continuou a não falar para ela as coisas mais sinceras. Não se sabe como terminou a estória, e o mais provável é que nem tenha começado.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Setembro 20, 2009 at 1:28 am Comentários (1)

Sinédoque

synecdoche-new-york-02-100Não sei por onde começar quando tudo parece resumir o que é a vida, ou então a morte. Pois passamos anos esperando que algo aconteça na fração de segundo em que estamos aqui. Não nos damos conta de que o tempo em que não existimos e depois de nossa morte é incalculavelmente maior do que o breve excerto quando nos encontramos nessa terra. E, no entanto… Nada.

Sempre acreditei que seria o primeiro a morrer. Vi quando ela foi embora com a minha filha, soube da morte dela e estive com a minha filha antes de ela partir. A peça só foi possível porque eu estava lá. Depois de anos tentando descobrir como terminar, percebi que o fim seria como é para tudo que vive. O fim é um piquenique, é um texto que se lê, uma peça que se escreve. E os personagens que vemos em toda a parte somos nós. Incorporamos as pequenas características de todo mundo e de ninguém.

Queria ter feito aquele piquenique com a minha filha. Mas eu a abandonei. Tudo sempre se resumiu a mim, e nem sequer notei que durante vinte anos alguém me seguia. Só que ele errou, já que eu não pulei. Ou será que pulei e não me lembro? Sim, porque pular ou não pular depende do ponto de vista, da perspectiva. Ela, a que pintava as pequenas coisas, já tinha visto o que viria lá na frente. Porque a ordem das coisas nem sempre é cronológica. É, é isso: está decidido antes mesmo de acontecer.

Como uma escolha afeta milhares de outras minúsculas coisas. Seria possível interpretar a nós próprios? A óbvia confusão gera improviso, engendra uma cena natural e ao mesmo tempo ensaiada, pois é feita a partir da observação de um comportamento anterior que o justifica. Agora você será eu, eu serei ela. No outono, às 7:45 daqui a vários anos, terei em minha mente a imagem do relógio. Pode ser que tudo se resuma à minha cabeça apoiada no ombro de uma estranha.

E onde estariam os leitores dessa carta? Quem vai assistir a mais recente peça que escrevi? Mas os protagonistas somos nós, o que acontece dentro daqueles apartamentos se sustenta em si. Uma casa em chamas, visitas a médicos, relacionamentos, isso não importa num lugar onde tudo e nada acontece. Então, será que devemos de fato esperar que as coisas simplesmente aconteçam? Pois esperar já é fazer algo. A história da estória vai sendo construída à medida que é pensada, e seremos o mais respeitável público que poderemos ter; os leitores mais adequados para decifrar as linhas tecidas ao longo dos anos de espera da morte.

A frase é uma frase em si e se basta. Você recebeu uma massagem. Você está com dor de barriga. Mas não tente agir como se quisesse representar a minha vida. Seja a sua estória, ande dali pra cá como se fosse você mesmo. É tudo a mais pura verdade forjada. Se tivesse que resumir, usaria as palavras que ouvi dela quando lhe perguntei se a tinha decepcionado de alguma forma: “Quando mais a gente conhece alguém a fundo, mais a gente se decepciona”.

Agora sei como vou terminar a carta. E se todos… morressem?

Publicado em: on Setembro 9, 2009 at 4:55 am Comentários (1)
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Resposta

Pelo menos pra mim há claramente coisas em nós que nos distinguem e que passam longe da conclusão que os outros têm sobre nós (embora o Machado ache que isso é mentira, que nós mais pensamos que somos do que somos realmente – mas eu concordo com ele em absoluto, também!). Não quero apaziguar o desconforto que causa a leitura do Machado, mesmo porque você sabe que eu gosto muito de coisas incômodas, mas acho que o conto, como qualquer teoria (já que ele se subintitula teoria) não abrange o todo e a variedade, ainda mais da “alma humana”.

Um exemplo prático do que eu quero dizer é o fato de termos sorte o suficiente para conseguirmos escrever. A nossa produção é uma prova do que temos por dentro e que quase sempre (e por isso escrevemos) é um despejo, um grito que confronta o que é pensado ou dito por aí, ou mesmo que não se oponha frontalmente, contrasta de leve. E nesse sentido acho, sinceramente, que podemos sim ser “individualmente”, embora não só. Por isso é bom que pensemos sempre no conjunto, ainda que no momento estudando só o Machado. É bom lembrar dos outros escritores e o acúmulo de impressões diversas sobre o mundo que as leituras sugerem. Pois afinal é a graça da literatura, aquelas opiniões que nos convencem, mas que, se comparadas umas às outras, se sobrepõem, se desmentem, tornam-se contraditórias e se mostram insuficientes se isoladas, mas, mesmo depois de tudo isso, continuam com sua força inicial e nos convencendo como no início… Porque nós mesmos somos muito contraditórios e oscilantes, uma bagunça interior que convive junto o tempo todo.

***

Como disse Juca Kfouri em um programa na TV dias atrás, há coisas que são ditas e escritas no particular que merecem ser postas no público para que os demais possam apreciá-las e aprender com elas. Não cito o nome da pessoa pois sequer lhe pedi autorização para isso, mas o trecho acima é parte editada de uma resposta que recebi de um e-mail sobre o desconforto causado após a leitura do conto “O espelho”, de Machado de Assis. O texto trata da opressão da alma interior pela alma exterior, ou seja, a absoluta potência da imagem que os demais têm de nós a partir do cargo e função social que exercemos contra a praticamente inexistente qualidade interior. Achei as palavras tão fortes, significativas e verdadeiras que decidi colocá-las aqui no blog. Se a pessoa estiver de acordo, revelo a identidade em breve. Basta saber que é de autoria de alguém que prezo como poucos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Agosto 31, 2009 at 4:54 am Comentários (1)
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Quintal de Quental

Como são os que querem comover?
Como ver os que querem comoção?
Como sim como não
como vêm como veem
comover comoção.
Como? Veem o que são?
Sim, e como comovem!

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Agosto 26, 2009 at 3:43 pm Comentários (1)
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Sintonia do descompasso

Ela estava sentada em um banco olhando o céu encoberto. Parecia querer que a força dos olhos dissipasse as nuvens que insistiam em se reunir ali. A expectativa não era de chuva. Vendo-a de longe, ele se aproximou sem pressa, a conversa ainda uma incógnita. Percebendo a sombra chegando, ela não deixou que sua contemplação fosse interrompida.

- Falou com ela?

Uma pausa. Ela não gostava de responder imediatamente. Não como forma de irritar o interlocutor, mas simplesmente porque fazia parte de sua natureza organizar o pensamento antes de se expressar.

- Já. Ficou tudo bem, respondeu sem voltar a cabeça.

- Ah, que bom. Fico feliz, você sabe disso.

Silêncio. A introdução se deu quando ele ainda estava de pé. Agora, ele se sentava ao lado dela curvado para frente e com os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos fitavam o chão. Um carro passou em alta velocidade produzindo um ruído que certamente chamaria a atenção dos dois. Não houve mudança de comportamento.

- E você…? Ela já foi?

- Ainda faltam alguns meses. O que eu vou fazer?

- É… acho que não tem o que fazer.

- Então é isso?

- É isso.

Pela primeira vez, ela saiu do céu e regressou para a terra, o olhar na direção dele, porém não exatamente nele. De sua parte, ele retribui o quase olhar. Penetrando-lhe enfim os olhos, ela recomeçou.

- É isso, sim. Mas a culpa é sua principalmente. Você não tem um foco definido. Sei que na semana que vem você vai vir com outra estória. E logo vai esquecer.

- Você tem razão. Talvez. Não sei.

Ele não tardava em responder. Era como uma reação espontânea a um estímulo, um instinto, uma provocação que contava pouco com a cabeça.

Silêncio.

- Por que… por que você é tão volúvel?

- Eu? E ela?

- Ela não me interessa, eu estou perguntando de você. Não foi ela quem te disse que você exagerava os sentimentos e que, na verdade, não sentia tudo isso? Acho que é por aí mesmo.

- Não tente entender, desconversou ele.

Um barulho quase imperceptível veio tirar-lhes a sintonia. Um pássaro, que fizera um ninho em uma árvore próxima, cantava o anúncio do fim das nuvens, que se despediam de modo sorrateiro, escapando pela porta dos fundos. O azul foi se mostrando mais intenso, mais total. Era como um mundo de mentira, pois as coisas jamais seriam tão harmoniosas quanto aquele cenário desenhado à mão por um talentoso artista.

Ele se levantou e se recostou na árvore do passarinho. Ela voltou a contemplar o céu.

- Você sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, não?

Silêncio.

- Vai chegar o dia em que isso não será mais possível. Vai chegar o dia em que a gente não vai mais poder conversar como agora. Você estará em um lugar, eu em outro.

Ela suspirou. Não como um sinal de enfado, mas como se, naquele momento, se desse conta de uma fatalidade que era óbvia há muito tempo.

- Eu sei, rebateu em voz baixa enquanto olhava para ele. Quando estiver sozinha vou me lembrar das suas palavras. Vou me lembrar da época em que a gente vinha até aqui pra conversar. Vou olhar para o lado e você não estará lá.

- E aí você vai fazer o quê?

- Vou olhar para o céu.

- Mas ele não vai poder te falar nada e nele você não vai encontrar o que procura.

- E você, tem alguma ideia do que procura?

- Não.

- Então olhe mais para cima.

Em vez disso, ele baixou os olhos. A garganta estava seca, sentindo calafrios e repentinamente um mal-estar o invadiu. Ela continuou a fixá-lo com seus olhos sempre doces e puros que contrastavam com seu discurso. Ergueu-se e foi ao encontro dele, tomando-o pela mão e fazendo com que se sentasse vagarosamente no banco.

- Isso, agora fique aqui comigo. E não se preocupe. Ela vai embora, eu vou embora e você um dia também vai embora. Todos vão, ninguém nunca fica. Sabe o que vai sobrar?

Agora foi ele que respondeu sem palavras.

- Nem o céu vai sobrar. Lá em cima é só um reflexo daqui. No final, são olhos fechados, algumas vozes e uns poucos pensamentos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Agosto 18, 2009 at 4:35 am Comentários (1)
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Davi Arrigucci Jr. na Flip 2009

É uma pena que os vídeos mostrem somente uma parte ínfima do grandioso discurso do professor Davi Arrigucci Jr. sobre Manuel Bandeira. Para mim, foi a melhor mesa da Flip, mesmo contando apenas com uma pessoa e sem qualquer intermediador – na verdade, acho que esse último fato até contribuiu para a beleza e fluência da coisa. Subi esses vídeos ontem à noite no Vimeo e peço desculpas por dois motivos: a demora em publicá-los e as imagens um tanto tremidas. Isso aconteceu porque, ao mesmo tempo que registrava a conferência com a câmera do meu celular, anotava o que o professor falava. Aliás, dia desses posto também as anotações que fiz ao longo da mesa.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Agosto 14, 2009 at 7:43 pm Comentários (1)
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À parte

O Menino comeu um pedaço de pão
e deixou cair algumas migalhas na toalha
quis saber o que tinha debaixo delas.
Perto das migalhas estava uma xícara
de café com um golinho só e a colherzinha.
Os cristais de açúcar pareciam queimados.

O Menino percebeu que a migalha mais perto
do seu braço era duas vezes maior que aquela
ao lado da xícara.
Achou interessante, fascinante até, o coração
cheio de uma coisa que não conhecia
mas sabia que era boa.

O Menino notou na mesa uma formiga
abrindo um caminho para o doce que ele
segurava na mão esquerda.
E no caminho da formiga ela precisava desviar
das migalhas que ele havia deixado cair
e a formiga nem tomava conhecimento
dos obstáculos daquele lugar imenso para ela.
Queria chegar ao doce como fosse, o Menino pensou.

Mas ninguém viu nada disso.
Ninguém viu o menino, o pão que ele comeu
as migalhas, a xícara, a colher, o açúcar
a formiga.
Ninguém quis saber o que tinha debaixo das migalhas.
Só o Menino.

***

A exemplo do que aconteceu com o conto, tinha escrito essa poesia em um concurso na Flip. Mas precisava ser inédita, então apaguei do blog. Enfim, aqui está ela de volta.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Agosto 9, 2009 at 1:04 am Comentários (1)
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