Os extremos de O Búfalo da Noite

Foi no ano passado que me interessei pelo trabalho de Guillermo Arriaga. Assisti a uma entrevista sua transmitida pela TV Cultura direto da Flip 2007, a festa literária de Parati. Gostei muita das coisas que ele disse e me chamou a atenção em especial um trecho sobre o livro “O Búfalo da Noite”.

Arriaga contou que, em uma prisão aqui no Brasil (não me lembro qual), o livro supracitado era o mais lido do local. Ele recebera uma carta de um dos internos, que pedia ao escritor alguns exemplares do romance, já que, ao passar por muitas mãos, teve o estado deteriorado. Arriaga lhes mandou 50. Fiquei curioso, e também queria conhecer a história que fascinara a tantas pessoas. Mais tarde, soube que ele é responsável pelos roteiros de três filmes que gosto muito: Amores Brutos, 21 gramas e Babel.

O Búfalo da Noite conta a história de Manuel, cujo melhor amigo, Gregorio, comete suicídio dias depois de regressar de mais uma internação no hospital psiquiátrico. Os dois eram muito próximos, a ponto até de formar um triângulo amoroso em que o vértice principal é Tania.

Gregorio, de aluno tímido a um rapaz que desenvolve surtos de loucura, sonha com o tal búfalo, que vem lhe respirar perto da nuca quando dorme. Além disso, ele jura que pequenas lacraias lhe penetram a pele e o transtornam mais ainda. O búfalo não aparece apenas nos devaneios - tanto ele quanto Manuel o tem tatuado no bíceps esquerdo.

Tudo leva a crer que Manuel também terá o mesmo fim do amigo. Ele começa a receber a visita do búfalo nos sonhos e ainda carrega consigo muitas das características de Gregorio. Ao mesmo tempo que tenta se livrar dele, pois se sente perseguido mesmo depois do suicídio, Manuel claramente manifesta opiniões que notamos não ser dele - a homofobia, por exemplo. A tatuagem do búfalo ainda está lá, embora Manuel tenha tentado retirá-la cortando a própria pele. Como se afastar do falecido se Manuel freqüentava sua casa constantemente em encontros com a irmã Margarita? O fato de Manuel namorar Tania também colabora para que a figura de Gregorio esteja sempre presente. Felizmente, a obviedade não se comprova.

A narrativa é altamente visual e envolvente, regada em alguns momentos com reflexões de Manuel, o narrador. Queremos saber o que vai lhe acontecer, e acreditamos que o caminho traçado por Manuel será o mesmo de Gregorio. Pelo menos eu cheguei a pensar que o narrador seria derrotado pela loucura. Não que ele a vença, porém o desenlace é menos lógico - e empolgante - do que imaginei.

Após terminar a leitura, assisti ao filme - e agora penso que poderia muito bem ter acabado o livro e parado por aí. A película é um resumo tosco e distorcido da obra escrita, mas o que me assusta não é isso. Guillermo Arriaga ajudou na adaptação, e fica difícil acreditar que ele tenha permitido o assassinato de uma bela composição. A partir do momento em que Manuel é preso até o final, não há nenhuma relação entre livro e filme, o que é lamentável e sem sentido. Sei que não há como fazer uma transcrição exata de uma mídia para outra - e talvez nem se deva tentar - porém acho que no caso de O Búfalo da Noite, houve um exagero.

Quem assistiu somente ao filme não terá a menor vontade de ler. Triste, por se trata de uma leitura interessante, incômoda no tocante a despertar sentimentos e inflexões por parte do leitor, já que se trata de uma crônica perfeitamente possível na Cidade do México ou qualquer outro lugar.

Abaixo, segue trecho da entrevista do Arriaga na Flip 2007. Não encontrei a íntegra da conversa, que deve ter tido quase duas horas, então saiba que o bate-papo está muito reduzido. Também não está no vídeo a parte em que ele conta a história sobre o presidiário brasileiro. (E agora parando para pensar, nem tenho certeza de que era uma carta de alguém daqui. Perdoe a minha memória.)

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 22, 2008 at 12:58 am Comentários (0)

Algumas coisas não deveriam ter ponto final. Só reticências…

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 18, 2008 at 5:59 am Comentários (0)

Todos nós

o pouco que me consola
é saber que não sou o único
pois toda a humanidade é patética.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 7, 2008 at 6:41 pm Comentários (0)

England meets Japan

They forgive our faults
and also the selfishness,
but they should not forgive who we are.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Junho 28, 2008 at 3:46 am Comentários (0)

Pessoas comuns e os supers

I find the whole mythology surrounding superheroes fascinating. Take my favorite superhero, Superman. Not a great comic book. Not particularly well-drawn. But the mythology… The mythology is not only great, it’s unique. A staple of the superhero mythology is, there’s the superhero and there’s the alter ego. Batman is actually Bruce Wayne, Spider-Man is actually Peter Parker. When that character wakes up in the morning, he’s Peter Parker. He has to put on a costume to become Spider-Man. And it is in that characteristic Superman stands alone. Superman didn’t become Superman. Superman was born Superman. When Superman wakes up in the morning, he’s Superman. His alter ego is Clark Kent. His outfit with the big red “S” - that’s the blanket he was wrapped in as a baby when the Kents found him. Those are his clothes. What Kent wears - the glasses, the business suit - that’s the costume. That’s the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent? He’s weak… He’s unsure of himself… He’s a coward. Clark Kent is Superman’s critique on the whole human race.

Pode não ser um filme fenomenal, apesar de eu achar divertido pra caramba e de as lutas serem muto bacanas. Essa reflexão que o Bill faz em Kill Bill Vol. 2 foi fantástica, uma análise bem coerente que eu jamais havia me dado conta.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Junho 1, 2008 at 2:13 am Comentários (0)

Liberdade, liberdade

Colocar um pássaro em uma gaiola é querer torná-lo humano.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Maio 31, 2008 at 6:22 pm Comentários (0)

Para um herói

E lá se vai mais um manezinho…
Não aquele bailarino de pernas tortas,
mas um cavalheiro, um guerreiro, um brasileiro.

As madeixas cacheadas saltitantes
e o grito indefectível iniciavam a sinfonia.
Que podia durar horas, e ninguém se importava.
A orquestra tinha como palco a França, principalmente.
Porém o coração esteve sempre do lado de cá.

A arma machucava com o golpe esquerdo.
Mas todos aplaudiam aquela barbaridade.
O inimigo morria com um sorriso nos lábios.
Não se podia crer.
Não se podia crer como alguém tão magro,
esquálido até,
tivesse uma potência tão assustadora.
E ele respondia com carisma.

Era uma humildade honesta.
Era um caráter irretocável.
Era um guerreiro incansável.
Era alguém que ria da adversidade.
Era o representante de todas as nações.
Era um campeão com qualidades quase infinitas.
Era a personificação daquilo que se espera de uma lenda.
É…

E acabou.

Sai o lutador, entra o ser humano.
Que agora deve ficar longe das arenas.
A memória, entretanto, não há de falhar.
Falaremos sobre ele, escrevemos em sua homenagem.
E mesmo assim, retribuir à altura será impossível.

As lágrimas que vertemos vêm involuntárias
embaçam e transbordam a garganta.

Você veio e se foi tão rápido.
Mas o que fez… Sem igual.

Em uma palavra,
obrigado.

***

Gustavo Kuerton encerrou hoje (ontem), 25 de maio de 2008, sua carreira como tenista profissional. Ele conquistou 20 títulos de simples e deixa as quadras com 31 anos de idade. Isso é o mínimo que acho que posso fazer por um cara que me fez querer ser como ele, sendo que até fiz aulas de tênis durante alguns anos. Valeu, Guga!

Abaixo, a despedida de Guga dos torneios oficiais aqui no Brasil.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Maio 26, 2008 at 4:18 am Comentários (0)

Um

Pelo menos agora o 16 de maio não será conhecido apenas como o dia do aniversário deste que escreve. Foi neste momento que surgiu o blog “O Fazer Escrito”, que hoje completa o primeiro ciclo do que se convencionou chamar “ano”. Em vez de um texto de minha autoria, passo a palavra hoje àquele que realmente entende do assunto. Vi este poema de manhã na aula do genial José Miguel Wisnik, que já compõe a relação de professores memoráveis da Universidade.

Consolo na praia - Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Publicado em: on Maio 16, 2008 at 6:25 pm Comentários (0)

Marcianos

Sempre um disco voador
Aparece na janela e vem buscar
Algumas informações
Sobre a vida aqui na Terra
Digo: Tudo está em paz!
Os terráqueos já não erram tanto
Vivendo em harmonia, não existem guerras mais.
Os marcianos não se deixam enganar!
Os marcianos não se deixam enganar!
E do disco voador
Dão um show de raios, luzes, fantasias…
Mostram como vivem lá
O universo é uma grande família
Penso: - Nada vai mudar!
Cada um… é uma pequena ilha
Não podemos nos juntar
E os visitantes voltam tristes pro seu lar.

Música “Marcianos”, da Relespública

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Maio 10, 2008 at 8:02 pm Comentários (0)

Um poema ridículo dentre os vários

Não consigo colocar significado em cada fonema
Envergonharia os meus mestres que não conheci
Não penso ao pontuar, não escolho exclamações
Que se aparecem porventura são para enganar a mim
A mediocridade de cada linha parida me pede
Constantemente para parar.

Mas não posso e nem quero e nem vou e continuo
Com a certeza de que sou ridículo em cada verso
Pois tudo o que havia para ser escrito já o foi
E de forma muito mais elegante e elaborada que esta
Porque me falta estilo, conhecimento, vivência
Falta o algo mais.

Duas estrofes, seis frases, não importa.
Não há nada mais humano do que tecer
Mesmo que o bordado não cai bem sobre o corpo
Quem quiser explicar algo a alguém que use a matemática.
Nem sei aonde estou indo porque improviso.
Esta é a arte do preguiçoso.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Abril 22, 2008 at 12:43 am Comentários (0)