Arquivos do Autor:Gustavo Hitzschky

Graveto verde

Um dos irmãos de Tolstói, Nikolai, dizia a ele quando eram pequenos que possuía um segredo que faria a humanidade viver uma nova era de ouro e que havia gravado tal segredo num graveto na floresta de Zakaz. Dois anos antes de morrer, Tolstói ditou o seguinte:

Embora seja um assunto desimportante, quero dizer algo que eu gostaria que fosse observado após a minha morte. Mesmo sendo a desimportância da desimportância: que nenhuma cerimônia seja realizada na hora em que meu corpo for enterrado. Um caixão de madeira, e quem quiser que o carregue, ou o remova, a Zakaz, em frente a uma ravina, no lugar do “graveto verde”. Ao menos, há uma razão para escolher aquele e não qualquer outro lugar.


Ordem e dedicatória ao Campos

*Por Juliana Almeida

Os teus poemas
não os despreze jamais.
As almas carecem
do sentimento de tuas palavras
que elas próprias não puderam expressar.

Os teus poemas
não os despreze jamais.
Os teus poemas
não aprisione.

Dedico, então,
o meu poema
aos de Campos.
Mesmo que ainda nem tenham nascido
agradecerão as almas que os descobrirem.

***

Agradecimentos à querida escritora Juliana Almeida pelo poema.


Cinco

Mais um (ou menos um, como diria Rubem Alves?). Vamos adiante.


Uma aventura terrível

“Adorei a sua camiseta”
e depois disso eu não
consegui ouvir mais nada,
pois tudo aquilo que
podia ser dito ou ouvido
por você ou por mim
ficou suspenso no ar.

Foi o primeiro presente que você me deu.

E depois eu te vi
tantas outras vezes
e conversamos sobre coisas pequenas
(não há nada maior do que elas.)
Foi então que você sorriu
e eu vi como era encantador
aquele detalhe: o seu narizinho
enrugado, que também
me fez sorrir.

Esse é o presente que você me dá até hoje.


Princípio de algo (ou nada)

E então você fica com uma vontade de fazer alguma coisa que não sabe o que é. Quando percebe, o processo já começou, está acontecendo. É uma ansiedade boa, e ao mesmo tempo angustiante porque a história, que nem começou e talvez nem comece, é incerta, perigosa, desconhecida. Você dorme pouco, e uma vez que acorda, não tem como voltar a dormir. A conversa é intensa, pode ter durado apenas algumas horas, e é ao mesmo tempo fria, de certa forma, porque acontece através de uma tela. Pode até ter acontecido um contato pessoal antes – e foi certamente ali que o encantamento teve início. O que torna tudo mais excitante são os impedimentos, os obstáculos. Não fossem por eles e possivelmente não haveria tanta graça. E viver é mesmo muito perigoso.


Londres, a despedida

Existem povos de diferentes origens e religiões morando em Londres. Talvez eles não se gostem – isso é algo que nunca vou conseguir saber -, mas pelo menos eles se respeitam. As pessoas lá pedem perdão quando eu esbarro nelas. A culpa pode ter sido minha, mas não importa: elas é que se desculpam. Quando preciso de uma informação, ela vem até mim acompanhada de um sorriso.

Há também muitas coisas para se fazer em Londres. Dá para andar de bicicleta no Hyde Park, observar dinossauros e ver como funciona um terremoto no Museu de História Natural, andar pelas ruas da Oxford Street, ir a espetáculos em Piccadilly Circus e visitar tantos outros lugares como Trafalgar Square, British Museum e Library, National Gallery, Palácio de Buckingham… Até andar de metrô e ônibus por Londres é uma experiência agradável: o transporte é caro, mas o preço elevado é justificado por conta da eficiência.

Londres tem apenas um defeito: o clima. Chove muito, venta demais. Porém, ainda que eu não goste disso, esse cenário todo me deixa feliz porque me faz lembrar Sherlock Holmes e ter saudade de algo que nunca tive.

Por tudo isso, Londres, embora você tenha essa pequena falha, não importa o que você faça agora que eu te conheço… Eu te perdoo sempre.


Londres 3

Ainda faltava me despedir de Glauber. Ele me acompanha ao aeroporto e quando chega a hora, diz:

- A gente faz amizade por duas razões diferentes: convivência e afinidade. Mas com você foi pelos dois motivos. A gente se vê.


Londres 2

Eu ando pelas ruas de Londres pela última vez. Meio bêbado. E me dá uma vontade de chorar. Ando bem devagar, não querendo que a caminhada termine. Mas ela vai terminar. Me despeço de Priscila e lhe digo: “Não sei quando vou te ver de novo”. Depois me despeço de Paulo, “Pevê, não sei nem como vou fazer para te agradecer o suficiente um dia”. A despedida de Glauber é mais amena porque ele ainda vai me acompanhar ao aeroporto.

É uma noite muio fria. Choveu o dia todo. Há um vento que às vezes sopra mais forte, mas tudo é muito agradável. Estou andando pela Tooley Street e ali na frente está a Tower Bridge. Não vou mais precisar fazer compras no Tesco. Ou pegar ônibus de dois andares. Nunca andei tão devagar quanto agora. Estou com vontade de ligar para todos os meus amigos daqui. Uma raposa passa na minha frente pelo segundo dia seguido. Encontro um balão azul na rua, esses de festa. Não há nada para comemorar. A minha vontade é simplesmente sentar em um banco e ficar ali.

Recebo uma mensagem de Priscila. “Se não conseguir pegar o metrô, avisa!” Essas palavras tão banais me comovem. Estou chorando sozinho no meio da rua e ninguém pode ver essa cena patética.

A minha Londres.


Londres 1

Há uma chuvinha constante, fina e triste em Londres. É como se a cidade soubesse o que vai acontecer.


Mentira

Uma das coisas mais difíceis para mim é fingir felicidade. Mas não quando me encontro diante de alguém – nessas situações, me considero bem hábil para mentir. O problema é escrever simulando um estado de espírito positivo. Meu texto é muito mais transparente que a minha expressão. Não sei mentir quando escrevo. Só quando falo.


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