Apelo

Pois que se eu morresse agora, a imagem que ficaria de mim seria aquela que beiraria a perfeição. Por que, meu Deus, por que então não me conceder esse desejo e me levar para junto de ti, não num momento de desespero – ao contrário. Deixe que o vivido até aqui se traduza como os momentos de sublimação do ser imperfeito que, por não ter sido conhecido em sua totalidade, transmite uma ideia que jamais seria o real. O tempo se encarregaria da saudade, as poucas fotos alimentariam a alma até a hora em que o coração, a seu ritmo, começaria a esquecer. Ao que o Senhor poderia retrucar, “Mas não é você quem diz que a felicidade de alguns segundos compensa a desgraça que espreita cada passo?” Diria que sim, e me surpreenderia por Sua onisciência falsa de não ter entendido ainda que os conselhos que damos para alguém nunca servem para nós mesmos.

Para mim falta a capacidade de. Então, se tiver de condenar, que seja somente a mim. Eu, que jamais acreditei na Sua força superior; que nesse instante em que escrevo duvido da Sua existência; que estou por ter qualquer vestígio de um criador. Veja que a despeito de tudo apelo para o Senhor. Tamanho é o desespero – sim, é de fato desespero, já que me contradigo, minto e me engano descaradamente. Que seja indolor – para mim e aos demais – quase uma extensão do sono para o qual em breve me dirijo.

Ou então que me arranque da cabeça o pouco que sei. Ou acho que sei. Faça de mim um ignorante completo, não parcial. Tire de mim qualquer resquício de raciocínio porque não quero nem devo pensar – e é o pensar que me tem angustiado há anos. Não, faça o que foi solicitado primeiro: me leve para junto de ti e que de mim reste apenas a lembrança boa, pois mentirosa, daquilo que acreditam que fui. Mas como abrir mão de algo tão maravilhoso? A culpa é Sua de a lógica das coisas ser assim?

Pai, não perdoai-nos. Sempre sabemos o que fazemos.

- No envelope em que foi encontrada essa carta se lia: “Único documento autêntico que deixo”

Publicado em:  on Outubro 19, 2009 at 4:07 am Comentários (1)

Aproximação

Quando tudo é dito pelo silêncio, parece que alguma coisa não está acontecendo. As palavras, outrora símbolo da compreensão, não serviam para nada ali – pior: atrapalhavam.

Olhavam-se, entreolhavam através de vultos que passavam sem cessar. Era uma comunhão tácita, calada, portanto não-realizada e ainda a ser cumprida. Dois seres tateantes às escuras sem o toque em si.

“Você sabe que eu estava aqui pensando… O que falar para você agora, como te abordar sem ser ridículo? Se eu falasse, ‘Opa, tudo certo? Já escolheu o que vai fazer?’; ‘Ah, você não é amiga dela? Ela é muito legal’. Sei lá, podia tentar bolar mais alguma coisa, mas tudo seria meio forçado, você não acha? E já anda tudo tão artificial hoje em dia entre as pessoas. Você parece ser alguém bem largada no sentido bom da palavra, desencanada com isso, entende? Meio que sem censura, direta. E mais uma vez eu olhei para você e você olhou para mim. Você sabe que não foi a primeira e não vai ser a última. Não quero perder mais tempo. Então é isso: com um pouco de receio, mas sem medo de ser estranho, idiota ou ridículo, queria te falar apenas ‘oi’. Sim?”

Mas isso só se sonhava. Talvez o valor de tudo esteja contido na travessia em si, sem preocupações de onde se parte e onde se chega.

Continuou a não falar para ela as coisas mais sinceras. Não se sabe como terminou a estória, e o mais provável é que nem tenha começado.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Setembro 20, 2009 at 1:28 am Comentários (1)

Resposta

Pelo menos pra mim há claramente coisas em nós que nos distinguem e que passam longe da conclusão que os outros têm sobre nós (embora o Machado ache que isso é mentira, que nós mais pensamos que somos do que somos realmente – mas eu concordo com ele em absoluto, também!). Não quero apaziguar o desconforto que causa a leitura do Machado, mesmo porque você sabe que eu gosto muito de coisas incômodas, mas acho que o conto, como qualquer teoria (já que ele se subintitula teoria) não abrange o todo e a variedade, ainda mais da “alma humana”.

Um exemplo prático do que eu quero dizer é o fato de termos sorte o suficiente para conseguirmos escrever. A nossa produção é uma prova do que temos por dentro e que quase sempre (e por isso escrevemos) é um despejo, um grito que confronta o que é pensado ou dito por aí, ou mesmo que não se oponha frontalmente, contrasta de leve. E nesse sentido acho, sinceramente, que podemos sim ser “individualmente”, embora não só. Por isso é bom que pensemos sempre no conjunto, ainda que no momento estudando só o Machado. É bom lembrar dos outros escritores e o acúmulo de impressões diversas sobre o mundo que as leituras sugerem. Pois afinal é a graça da literatura, aquelas opiniões que nos convencem, mas que, se comparadas umas às outras, se sobrepõem, se desmentem, tornam-se contraditórias e se mostram insuficientes se isoladas, mas, mesmo depois de tudo isso, continuam com sua força inicial e nos convencendo como no início… Porque nós mesmos somos muito contraditórios e oscilantes, uma bagunça interior que convive junto o tempo todo.

***

Como disse Juca Kfouri em um programa na TV dias atrás, há coisas que são ditas e escritas no particular que merecem ser postas no público para que os demais possam apreciá-las e aprender com elas. Não cito o nome da pessoa pois sequer lhe pedi autorização para isso, mas o trecho acima é parte editada de uma resposta que recebi de um e-mail sobre o desconforto causado após a leitura do conto “O espelho”, de Machado de Assis. O texto trata da opressão da alma interior pela alma exterior, ou seja, a absoluta potência da imagem que os demais têm de nós a partir do cargo e função social que exercemos contra a praticamente inexistente qualidade interior. Achei as palavras tão fortes, significativas e verdadeiras que decidi colocá-las aqui no blog. Se a pessoa estiver de acordo, revelo a identidade em breve. Basta saber que é de autoria de alguém que prezo como poucos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Agosto 31, 2009 at 4:54 am Comentários (1)
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Sintonia do descompasso

Ela estava sentada em um banco olhando o céu encoberto. Parecia querer que a força dos olhos dissipasse as nuvens que insistiam em se reunir ali. A expectativa não era de chuva. Vendo-a de longe, ele se aproximou sem pressa, a conversa ainda uma incógnita. Percebendo a sombra chegando, ela não deixou que sua contemplação fosse interrompida.

- Falou com ela?

Uma pausa. Ela não gostava de responder imediatamente. Não como forma de irritar o interlocutor, mas simplesmente porque fazia parte de sua natureza organizar o pensamento antes de se expressar.

- Já. Ficou tudo bem, respondeu sem voltar a cabeça.

- Ah, que bom. Fico feliz, você sabe disso.

Silêncio. A introdução se deu quando ele ainda estava de pé. Agora, ele se sentava ao lado dela curvado para frente e com os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos fitavam o chão. Um carro passou em alta velocidade produzindo um ruído que certamente chamaria a atenção dos dois. Não houve mudança de comportamento.

- E você…? Ela já foi?

- Ainda faltam alguns meses. O que eu vou fazer?

- É… acho que não tem o que fazer.

- Então é isso?

- É isso.

Pela primeira vez, ela saiu do céu e regressou para a terra, o olhar na direção dele, porém não exatamente nele. De sua parte, ele retribui o quase olhar. Penetrando-lhe enfim os olhos, ela recomeçou.

- É isso, sim. Mas a culpa é sua principalmente. Você não tem um foco definido. Sei que na semana que vem você vai vir com outra estória. E logo vai esquecer.

- Você tem razão. Talvez. Não sei.

Ele não tardava em responder. Era como uma reação espontânea a um estímulo, um instinto, uma provocação que contava pouco com a cabeça.

Silêncio.

- Por que… por que você é tão volúvel?

- Eu? E ela?

- Ela não me interessa, eu estou perguntando de você. Não foi ela quem te disse que você exagerava os sentimentos e que, na verdade, não sentia tudo isso? Acho que é por aí mesmo.

- Não tente entender, desconversou ele.

Um barulho quase imperceptível veio tirar-lhes a sintonia. Um pássaro, que fizera um ninho em uma árvore próxima, cantava o anúncio do fim das nuvens, que se despediam de modo sorrateiro, escapando pela porta dos fundos. O azul foi se mostrando mais intenso, mais total. Era como um mundo de mentira, pois as coisas jamais seriam tão harmoniosas quanto aquele cenário desenhado à mão por um talentoso artista.

Ele se levantou e se recostou na árvore do passarinho. Ela voltou a contemplar o céu.

- Você sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, não?

Silêncio.

- Vai chegar o dia em que isso não será mais possível. Vai chegar o dia em que a gente não vai mais poder conversar como agora. Você estará em um lugar, eu em outro.

Ela suspirou. Não como um sinal de enfado, mas como se, naquele momento, se desse conta de uma fatalidade que era óbvia há muito tempo.

- Eu sei, rebateu em voz baixa enquanto olhava para ele. Quando estiver sozinha vou me lembrar das suas palavras. Vou me lembrar da época em que a gente vinha até aqui pra conversar. Vou olhar para o lado e você não estará lá.

- E aí você vai fazer o quê?

- Vou olhar para o céu.

- Mas ele não vai poder te falar nada e nele você não vai encontrar o que procura.

- E você, tem alguma ideia do que procura?

- Não.

- Então olhe mais para cima.

Em vez disso, ele baixou os olhos. A garganta estava seca, sentindo calafrios e repentinamente um mal-estar o invadiu. Ela continuou a fixá-lo com seus olhos sempre doces e puros que contrastavam com seu discurso. Ergueu-se e foi ao encontro dele, tomando-o pela mão e fazendo com que se sentasse vagarosamente no banco.

- Isso, agora fique aqui comigo. E não se preocupe. Ela vai embora, eu vou embora e você um dia também vai embora. Todos vão, ninguém nunca fica. Sabe o que vai sobrar?

Agora foi ele que respondeu sem palavras.

- Nem o céu vai sobrar. Lá em cima é só um reflexo daqui. No final, são olhos fechados, algumas vozes e uns poucos pensamentos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Agosto 18, 2009 at 4:35 am Comentários (1)
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Visita familiar

O interfone soa. É o gongo que anuncia a chegada nada triunfal de uma trupe composta por tios, primos, namorados, sobrinhos e o que mais couber. No carro e na sala.

A campainha tem a função de tornar conhecido o início da encenação que em breve vai começar. As cortinas, estas sim de forma gloriosa, indicam o começo de um longo ato que provavelmente irá tomar toda a tarde fria e triste daquele dia. A falsidade escondida no mais profundo, porém essencial, recôndito da alma abre caminho, sempre ligeira, como se despertada de súbito por um sino de emergência avisando a iminência do perigo. Seu cheiro é tão fétido que é impossível que não notem a sua presença. Disfarçam bem.

O primeiro contato geralmente se dá por meio de elogios rasgados e sorrisinhos cretinos. Logo se abundam no sofá enquanto a anfitriã prepara um bolo ou traz algum doce comprado na padaria. De barriga cheia é melhor, a ilusão de que está tudo bem e a felicidade advinda do alimento faz com que aquele cenário seja mais suportável.

As conversas são sempre sobre tudo e coisa nenhuma. É o marido que perdeu o emprego, a filha que começa a sair com rapazes e experimentar os prazeres da puberdade, o tempo horrível dos últimos dias, o acidente inimaginável que aconteceu logo ali, enfim. Estes, os adultos, claro, pois as crianças estão a correr pelos exíguos cômodos e o tímido corredor que lhes parece ideal para apostar uma corrida. Os gritos, braços e pernas atirados ao ar, a rede inesgotável de ruídos e inconveniências que cercam os mais novos não parece tirar a atenção dos mais velhos, mergulhados em assuntos de importância sem igual para o funcionamento da máquina a qual se denomina família.

Porém, sempre tem aquele tipo quieto, isolado e entretido em leituras ou algum pormenor que sente que vai implodir depois que a paz foi quebrada. Ele ainda não viu os demais, permaneceu no quarto tentando ignorar o infalível encontro com aquelas pessoas. Quando sai, encontra as crianças a fitá-lo com olhinhos virgens que, todavia, já têm destino definido, pelo menos em alguns aspectos. Elas também irão crescer para, inevitavelmente, receber intrusos e passar pelos mesmos momentos que, outrora, ignoravam por não entender o que se passava.

E daí o rapaz aparece, cumprimenta a patota e marcha pelo caminho que veio. Durante estes segundos, resignado e relutante, participa da encenação. Cumpre com o seu dever e encerra a participação. A um dado instante, depois que a retaguarda principia por tomar as formas do sofá, é hora de levantar. As mulheres se dirigem ao quarto porque a anfitriã comprou uma calça maravilhosa em promoção e precisa mostrar aos parentes que devem devorá-la com a inveja, e mais uma vez as palavras benevolentes infestam o ambiente. Por pior que seja o índice de gordura concentrada na região abdominal, ninguém irá se atrever a denunciá-la e dizer que o modelo cairia melhor em quem tem metade de sua idade. “Nossa, que coisa mais linda, se eu pudesse compraria para mim também”. Ficam nessa, eu finjo que gosto e você finge que acredita. Um transbordar de mentiras que jorra pela boca e que causaria náuseas a um observador mais atento.

Enquanto isso, a porção masculina repousa na sala na companhia da TV. Não prestam atenção, somente aguardam as suas senhoras e, vez ou outra, soltam um pitaco sobre política. Nada melhor do que romper o tédio e o silêncio com um comentário contra o governo atual, este sim “o mais corrupto da história”, como um deles defende com voracidade. Para não contrariá-lo ou então por concordar, o resto cala. Se tem futebol e cerveja para acompanhar, perfeito, o que mais se poderia querer da vida?

Daí ao final, é possível que aconteça outro lanchinho, mas mais nada que seja digno de nota. Despedem-se, nova troca de afagos e sorrisos. “Ainda é cedo, fiquem mais um pouco”. Seria mais conveniente se gravassem e frase e a tocassem em cada despedida a ter que repeti-la sempre. O convite é recusado, e sobram os agradecimentos. Vão embora tranquilos, porque sabem que não foi a primeira e não será a última ocasião em que a visita acontece. Como se tivessem esquecido o que passou, a próxima oportunidade seguirá à risca o famigerado roteiro, tal qual o grupo teatral que se apresenta de quinta a domingo. No dia seguinte, o sol certamente voltaria a nascer.

***

Esse texto já esteve no blog antes, mas foi apagado por motivo de força maior. Participei de um concurso da Off-Flip no qual se podiam mandar textos (contos e poesias) para tentar faturar uma grana e tê-los publicados em um livro. E os escritos deviam ser inéditos, por isso tirei daqui. Mas aqui está “Visita familiar” de volta. Depois posto novamente a poesia, que também não foi contemplada.

Publicado em:  on Julho 16, 2009 at 6:28 pm Comentários (2)

Benjamin Button na literatura e no cinema

Nós perdemos as pessoas que amamos porque assim descobrimos que elas são importantes
- O curioso caso de Benjamin Button (filme)

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O filme “O curioso caso de Benjamin Button” não deveria se chamar assim. Inspirado livremente no conto homônimo do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, a produção dirigida por David Fincher (Zodíaco, Clube da Luta) praticamente não contém uma linha daquilo que foi escrito em 1921 pelo autor. Além disso, a película tem qualidade o suficiente para ser tão brilhante quanto o conto, porém de uma maneira bem diversa. Fica difícil entender por que a opção de usar o mesmo nome – acredito que seja quase impossível acreditar que a escolha tenha sido tomada por uma questão de marketing, ou seja, a fim de atrair o público, pois atualmente não creio que uma obra literária seja motivo para levar as pessoas ao cinema.

Minha relação com Benjamin Button começou na semana da premiação do Globo de Ouro. Até então, nunca tinha ouvido falar nele (filme ou conto) e quando me interei sobre o enredo, tive a certeza naquela hora de que não se tratava de uma estória original – tinha um viés literário, um homem que nasce velho e segue na direção contrária dos demais, rejuvenescendo com o passar dos anos. Uma busca rápida na internet me levou a F. Scott Fitzgerald, autor o qual nunca havia lido, apesar de uma tentativa frustrada anos atrás com “O grande Gatsby”. Naquele momento já me interessei pela obra, e consegui baixar o conto na rede. Dias depois, li a obra escrita e, antes mesmo de começar a leitura, já havia assistido a alguns trailers do filme. Logo notei que, aparentemente, as referências do cinema passariam longe da outra estória. Fui com dois pés atrás para ver o longa, e me surpreendi positivamente.

Desde as primeiras cenas já percebemos as discrepâncias. No filme, uma mulher à beira da morte pede para a filha ler um diário deixado por Benjamin Button a fim de distrair-se no crepúsculo da vida. Estamos em Nova Orleans, e a iminência do furacão Katrina deixa todos no hospital em estado de alerta. A filha lê e a ação passa para o passado, quando um homem constrói um relógio para a recém-inaugurada estação da cidade. É o final da Primeira Guerra Mundial, e muitas famílias perderam os filhos nos combates. Como uma tentativa simbólica de trazer seu garoto de volta à vida, o responsável pelo relógio faz com que sua criação ande para trás, almejando uma volta no tempo, o que, obviamente, não acontece. Depois, vemos outro homem correr para uma casa e encontrar a esposa agonizando logo depois de parir. O garoto nasceu velho, enrugado, e o pai foge com ele para abandoná-lo na entrada de um asilo. Nada disso acontece no conto.

Só para não me estender em cada cena de ambos e traçar as diferenças, relato agora o que acontece no início do conto. O senhor Roger Button corre para o hospital para assistir à chegada de seu primogênito. Estamos na cidade de Baltimore em 1860 e as pessoas costumavam nascer em casa – mas tudo tinha que ser distinto em se tratando de Benjamin, até seu nascimento. Nas escadas da entrada do hospital, Roger encontra o médico da família enfurecido e este lhe pede para que nunca mais volte a vê-lo. O pai corre para saber o que acontece e encontra o filho já envelhecido, um pouco maior que uma criança de colo, e falando com desenvoltura. A mãe não morre, e a família tampouco o abandona.

Como disse no começo, não acredito que essas diferenças importem – de novo, a única coisa que me incomodou de verdade é o uso do mesmo nome para o filme. Cada um se destaca de modo único – o filme com sua estória longa e algumas frases altamente poéticas; o conto conciso, pontual e não menos lírico, pelo menos nos excertos finais. Não há o relógio que anda para trás no conto; Benjamin conhece a sua amada ainda na infância no filme, ao passo que no conto isso acontece em uma festa à qual pai e filho vão juntos, e mais para frente o casal acaba por separar-se – aliás, a relação entre os dois se mantém bem próxima na obra de Fitzgerald, o que não ocorre no longa.

O Benjamin Button de Fincher parece abraçar mais a vida do que o do conto em grande parte de cada produção. O Button de Fitzgerald é alguém que já nasce com certa experiência, pois sabe o que falar desde que vem ao mundo e exige que seu pai lhe compre roupas. Ele se comporta da maneira que a sociedade espera de um menino de seis, sete anos. Passagem emblemática que comprova isso se dá quando o pequeno velho Benjamin acidentalmente quebra uma vidraça. Seu pai o repreende, mas o filho logo nota o sorriso dele, que finalmente parecia criar uma criança tida como normal. Ao notar isso, Benjamin faz questão de deliberadamente espatifar alguma coisa com frequência ao brincar, pois é exatamente esse tipo de coisa que um infante realiza. Mais para frente, quando está entediado com a vida, Benjamin se alista no exército para ter um pouco de emoção, já que a existência estava sendo sem graça. O Benjamin de Fincher também vai para a guerra, porém motivado muito mais por uma vontade de aprender e fazer tudo que lhe era proibido por uma criação religiosa e afetiva – até o momento em que sua mãe de criação engravida e passa a dar-lhe menos atenção. Ele cresce na companhia de velhos, achando que é um deles e que vai morrer a qualquer momento, sem ter liberdade para ver o que há na esquina. Essa falta de vivência, experiência, ou melhor, esse desconhecimento e ignorância sobre a vida fazem com que o Benjamin de Fincher seja mais apaixonado que o seu par literário.

Pensava que o rejuvenescimento de Brad Pitt seria abrupto no filme, como se de repente ele passasse de um senhor a um homem de 30 e poucos, mas me enganei. O ritmo do longa é sensivelmente mais compassado que o conto, e o processo inverso que acontece com Pitt é gradual, demorado, lento. Em termos de maquiagem, não consigo imaginar algo com maior denodo do que acontece neste caso. É um trabalho memorável e digno de louvor.

Dois elementos em especial chamaram muito a minha atenção no longa. O primeiro é o já mencionado relógio. Há algo de muito bonito nele, algo que faz pensar não sei exatamente em quê. Um relógio que volta, uma pessoa que volta ao ponto inicial. Outra coisa que me chamou a atenção é o beija-flor. A estória é contada por um marinheiro que trabalha em um rebocador junto com Benjamin. Em um bar, ele diz a outros marujos que a asa de um beija-flor bate dezenas de vezes por segundo, e que se ele ficar dez segundos sem movimentá-la, morre. Além disso, ele conta que estudos mostraram o formato da extremidade da asa de um beija-flor quando está batendo. É o número oito deitado. “E o que significa isso na matemática?”, ele pergunta. “O infinito”, responde Benjamin para si mesmo. Uma asa que precisa bater para ter sentido, um relógio que não para nem mesmo em uma adversidade, como vemos no final do filme. E acaba sendo o que Benjamin fala nos momentos derradeiros. Algumas pessoas nasceram para dançar, outras para declamar Shakespeare, outras para serem atingidas por raios. Acho que tudo fica mais fácil quando descobrimos para que nascemos. O importante, e isso nos mostra com clareza “O curioso caso de Benjamin Button” (conto e filme), é que não terminemos como começamos, uma página em branco, um rascunho que ainda está por ser preenchido. Vamos escrever, desenhar e pintar nossa folha.

Leiam o conto, assistam ao filme.

P.S. – João Pereira Coutinho escreveu na Ilustrada da Folha em 27 de janeiro de 2009 um texto sobre Benjamin Button. Recomendo a leitura, apesar de não concordar com alguns argumentos, especialmente aquele em que o colunista diz que certos diálogos do conto são hilários. Na verdade, acho que adjetivos mais compatíveis seriam “bizarro”, “nonsense”, “esdrúxulo”. Mas é sempre bom tentar entrar em contato com opiniões distintas da nossa. Tanto que até hoje guardo o caderno dessa data.

P.S. 2 – Ele não ganhou o Oscar, mas a atuação de Brad Pitt está absolutamente sensacional no filme. Nunca o achei ridículo, mas estava longe de ser um dos melhores. Por esse filme, terá meu respeito eterno.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Fevereiro 24, 2009 at 5:14 am Comentários (1)
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Tempestades

A água que caía do céu tão absoluta parecia ter se cansado. E já há alguns minutos aguardava a saída dele para que, como se estivessem participando de uma brincadeira, voltasse a despencar sobre aquele corpo desprotegido, magro e vertical. A falta de roupa adequada para a ocasião era justificada por uma tarde abafada de verão tropical. E mesmo assim, sair às ruas usando calças e tênis e até uma camiseta poderia ser pior, já que a água, quando feroz e infinita, abraça as pessoas desconfortavelmente, e lá permanece até que se livrem dos trajes.

O guarda-chuva não poderia ser mais infeliz e solitário – ninguém o tem em alta estima. Porém, naquele momento, ele dava motivos para que fosse odiado. Não conseguira manter a promessa de abrir a asa protetora e evitar o que se queria; em vez disso, deixou-se levar pela ventania que fazia companhia a uma chuva irritada. Não havia mais como seguir em frente, apesar de a farmácia estar a aproximados cem metros de onde se encontrava. O primeiro reflexo que teve foi o de se abrigar sob o toldo de uma pizzaria enquanto o guarda-chuva infeliz e solitário, e agora agonizante, se entregava e nem se esforçava por lutar.

- Apóia ele do lado contrário, força ele no chão, alguém disse de dentro da pizzaria.

Não havia mesas dispostas e talheres trabalhando ali, pois o espaço era muito pequeno para receber convidados que porventura quisessem jantar ao som da cachoeira natural. De qualquer modo, assim o fez ao conselho do senhor, e o guarda-chuva voltou a respirar. Não agradeceu, o dono do guarda-chuva hesitou em entrar lá e preferiu repousar embaixo do toldo verde, vermelho e branco, ele próprio tendo criado uma cascata com aquelas lágrimas derramadas sem o menor pudor. Não tinha sido convidado a entrar, mas tampouco o impediram de ficar ali, possivelmente solidários pela imagem de alguém injustamente castigado. A partir daí, a relação entre aqueles que estavam na pizzaria e o rapaz foram como são todas as relações entre as pessoas – indiferente, calada e tensa. “Já vai passar, já vai passar”, pensou.

- Olha que legal que tá caindo essa água, falava o senhor, não exatamente esperando uma resposta, pontuando suas intervenções retóricas com a mesma frase, como se marcasse os minutos. À esquerda do rapaz, um motoqueiro aguardava a hora de sair em mais uma jornada, que se não era longa, seria sem dúvida tortuosa. Perto dele, um cano denunciava a potência da chuva ao cuspir a água no chão já encharcado na entrada da pizzaria, com um tapete de cor escura completamente à mercê da força natural. De dentro daquele lugar, misto de ambiente receptivo e gelado, saiu um senhor de bigodes grisalhos preocupado com a casa do lado. É que uma vez a calha estava entupida e a água subiu e entrou aqui, ele disse, curiosamente olhando para o rapaz, que não sabia se devolvia o ato ou se fingia que não era com ele. Já vai passar.

O céu exibia um espetáculo de flashes. Incansável, autoritário, único. Olha que legal que tá caindo essa água. Sem se dar conta, o rapaz havia recuado um pouco mais em direção à pizzaria, como a área abaixo do toldo não era poupada pelo desconforto de início de noite. Experimentava sensações adversas, tendo as costas aquecidas pela chama do forno à lenha e tendo a frente agredida por sopros e esguichos. A sinfonia local era composta pela TV, algumas poucas vozes e o fenômeno. De resto, o silêncio, parecia que quem presenciava aquilo nunca falara antes e respondia tudo com os olhos.

Aparentemente haviam desligado o registro lá em cima. A trégua momentânea podia ser comprovada pelo cano, que não mais conduzia litros e mais litros até o ralo. Mas a um segundo, a chuva voltou da sua pausa, porém sem a mesma arrogância e má educação de outrora. Todos cansamos, e desta vez não teria razão de ser diferente. Dali a pouco seria a hora de abandonar o ócio e a contemplação e rumar enfim ao banal destino. O que se esqueceu, entretanto, é que a chuva não acaba quando termina.

O caminho pela rua que levava à avenida foi rápido e cheio de cautela. A rua parcialmente alagada exigia dele certa habilidade para traçar a melhor rota e evitar ainda mais estragos. Chegando à esquina, viu a correnteza que fora sido forjada a mãos porcas, que carrega consigo lixo e água podre frutos do descaso e egoísmo. Mas logo se iria constatar o seu próprio egoísmo, pois acima de tudo desejava ir à farmácia e regressar à casa com urgência. Então, contornou e enveredou pela direita para escapar à correnteza, que facilmente lançaria em sua direção uma onda ao simples passar dos carros. Já podia vislumbrar a farmácia à frente, bastaria cruzar o riacho para atingi-la. Refletindo e analisando o caminho ideal, escutou de súbito um ruído seco. À esquerda, um carro devagar, e perto dele, um cobertor possivelmente abandonado no meio da via descia empurrado pela pressa da correnteza. Estranhamente, no entanto, quando o cobertor se aproximou do rapaz, o que tinha feições de uma manta passou a ter braços e pernas estirados, imóveis, boiando, sem qualquer pretensão de vencer um adversário que se sabia superior em quaisquer aspectos. O carro acelerou e logo estacou, atrás dele cinco ou seis desciam e corriam horrorizados. E o rapaz estático, paralisado, como se a chuva não mais tivesse a característica de molhar os homens, e sim de anestesiá-los e fixá-los onde estivessem.

Mas a farmácia estava tão perto. Olha que legal que tá caindo essa água, lembrou-se confuso. Atravessou, ainda olhou na direção do carro e dos homens quando chegou ao outro lado, mas já não se via mais nada. Os empregados lhe encobriam parcialmente a visão, e a verdade é que ele não empregava forças para se esgueirar e ver o que acontecia. Também não parecia que, dali a cinco minutos, a avenida estaria tão calma que ninguém poderia imaginar o que sucedera.

Na farmácia aconteceu o que deveria acontecer. A volta foi sem surpresas.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Fevereiro 20, 2008 at 8:31 pm Deixe um comentário

Só entende quem é

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.

Clarice Lispector no conto A imitação da rosa

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Fevereiro 17, 2008 at 6:01 pm Deixe um comentário
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Comum a todos

De repente nem existe tanta distinção assim entre conto e poesia. Evidente que os aspectos estéticos são visíveis, mas não acredito que seria errado afirmar que alguns contos agregam em si versos em prosa, seja pela sua força de sentido, seus significados ou sua sonoridade. Clarice faz isso em “Via Crucis”.

Maria das Dores está grávida. Mas é virgem. Jamais se entregou sequer ao seu marido, velho, “meio impotente” e paciente de mais. Daí não restam dúvidas: o esposo é São José e o menino deverá se chamar Jesus. E o que fazer para que a criança não passe pela Via Crucis?

Jesus deve nascer em um estábulo para que tudo saia perfeito – entretanto, a gestação vai até outubro, e não 25 de dezembro – e então o casal vai para a fazenda da tia Mininha em Minas. Começa aqui a Via Crucis da própria mãe, que de tão consternada para evitar o sofrimento do filho, começa a esquecer que ela também vive por si: ajoelha-se na igreja apesar da barriga, se machuca, passa mal. O nome da criança não será Jesus, e as dores de das Dores parecem indicar-lhe o nome Emmanuel.

Vem então uma poesia. A criança está entre nós, e diz Clarice em parágrafos-versos.

As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.

Ela tem a capacidade de nos falar sobre o cotidiano de uma maneira simples, clara, quase óbvia. E acho que o problema está aí, de tão verdadeiro, de tão certeiro, parece que não nos damos conta daquilo que está a nossa frente. Coisas inerentes ao seres humanos e que demoramos anos para descobrir, quando o fazemos. Algo comum a todos, mas tamanha é a impotência dos homens que precisamos de alguém para nos dizer o que nos é inevitável, sem importar nome, sexo, credo, idade. A via crucis é questão de tempo. Assim, chega-se ao final do conto.

Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Novembro 30, 2007 at 10:10 pm Deixe um comentário
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Vingança

Nemo me impune lacessit.

Citação em latim que li no conto “O Barril de Amontillado”, de Edgar Allan Poe. Traduzindo ao português, temos algo do tipo “ninguém me machuca sem ser punido”. No texto, o narrador defende que a vingança, para ser plena, deve ser feita sem que o vingador seja punido e o paciente da ação precisa ter consciência de que foi você quem causou seu mal.

Então, que sejamos a mão punidora de quem quer que esteja lá em cima.

Postado por Mateus Campos

Publicado em:  on Outubro 1, 2007 at 5:58 pm Deixe um comentário
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