Não sei por onde começar quando tudo parece resumir o que é a vida, ou então a morte. Pois passamos anos esperando que algo aconteça na fração de segundo em que estamos aqui. Não nos damos conta de que o tempo em que não existimos e depois de nossa morte é incalculavelmente maior do que o breve excerto quando nos encontramos nessa terra. E, no entanto… Nada.
Sempre acreditei que seria o primeiro a morrer. Vi quando ela foi embora com a minha filha, soube da morte dela e estive com a minha filha antes de ela partir. A peça só foi possível porque eu estava lá. Depois de anos tentando descobrir como terminar, percebi que o fim seria como é para tudo que vive. O fim é um piquenique, é um texto que se lê, uma peça que se escreve. E os personagens que vemos em toda a parte somos nós. Incorporamos as pequenas características de todo mundo e de ninguém.
Queria ter feito aquele piquenique com a minha filha. Mas eu a abandonei. Tudo sempre se resumiu a mim, e nem sequer notei que durante vinte anos alguém me seguia. Só que ele errou, já que eu não pulei. Ou será que pulei e não me lembro? Sim, porque pular ou não pular depende do ponto de vista, da perspectiva. Ela, a que pintava as pequenas coisas, já tinha visto o que viria lá na frente. Porque a ordem das coisas nem sempre é cronológica. É, é isso: está decidido antes mesmo de acontecer.
Como uma escolha afeta milhares de outras minúsculas coisas. Seria possível interpretar a nós próprios? A óbvia confusão gera improviso, engendra uma cena natural e ao mesmo tempo ensaiada, pois é feita a partir da observação de um comportamento anterior que o justifica. Agora você será eu, eu serei ela. No outono, às 7:45 daqui a vários anos, terei em minha mente a imagem do relógio. Pode ser que tudo se resuma à minha cabeça apoiada no ombro de uma estranha.
E onde estariam os leitores dessa carta? Quem vai assistir a mais recente peça que escrevi? Mas os protagonistas somos nós, o que acontece dentro daqueles apartamentos se sustenta em si. Uma casa em chamas, visitas a médicos, relacionamentos, isso não importa num lugar onde tudo e nada acontece. Então, será que devemos de fato esperar que as coisas simplesmente aconteçam? Pois esperar já é fazer algo. A história da estória vai sendo construída à medida que é pensada, e seremos o mais respeitável público que poderemos ter; os leitores mais adequados para decifrar as linhas tecidas ao longo dos anos de espera da morte.
A frase é uma frase em si e se basta. Você recebeu uma massagem. Você está com dor de barriga. Mas não tente agir como se quisesse representar a minha vida. Seja a sua estória, ande dali pra cá como se fosse você mesmo. É tudo a mais pura verdade forjada. Se tivesse que resumir, usaria as palavras que ouvi dela quando lhe perguntei se a tinha decepcionado de alguma forma: “Quando mais a gente conhece alguém a fundo, mais a gente se decepciona”.
Agora sei como vou terminar a carta. E se todos… morressem?
Gustavo,
ojalá este libro se quede en tu corazón y te susurre algo de vez en vez,
un abrazo,
Guillermo Arriaga
Devia ter postado isso há muito tempo, na verdade. Mas tudo bem. Foi no dia 15 de agosto de 2008, se não me engano, que vivi um dos momentos mais memoráveis da minha vida. Consegui conversar com o escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga, que vinha ao Brasil para promover o lançamento de seu livro “Esquadrão guilhotina”. Foi numa sexta-feira que ele esteve presente na Fnac paulista, um dia antes de participar de uma palestra na Bienal do Livro à qual também fui.
Depois de falar sobre a sua nova obra, Arriaga abriu espaço para algumas perguntas. Dias antes, eu tinha terminado de ler “O Búfalo da Noite” e de assistir ao filme homônimo. Indaguei Arriaga acerca do fato de livro e filme serem tão díspares, especialmente na porção final. Queria saber se aquilo tinha sido fruto de uma liberdade que ele concedeu ao diretor (já que Arriaga participou da adaptação) ou se ele optara deliberadamente por criar um final alternativo. Na sinceridade, Arriaga falou que, depois do que foi feito com o filme, acreditava que não permitiria mais que suas obras impressas migrassem para as telonas, mostrando-se bem decepcionado com o resultado.
No final, Arriaga pacientemente atendeu as pessoas que estavam lá. Eu, groupie que sou, fui até ele e lhe pedi que assinasse meu livro. Fique triplamente feliz quando ele elogiou meu espanhol, escreveu a dedicatória que abre esse post e ainda permitiu uma foto. É impressionante como a gente passa a admirar ainda mais uma pessoa não somente pelo talento que ela tem, mas quando nota que é alguém extremamente simpático e humilde. Queria muito encontrá-lo nem que fosse para agradecer a ela novamente. Guillermo Arriaga é mestre em todos os sentidos.
Agradecimentos eternos a Monique Prevedel, que me avisou sobre a ida de Arriaga à Fnac. Com certeza não teria conseguido conversar com ele se o visse apenas na Bienal. Na Fnac, havia no máximo 15 pessoas; na Bienal, centenas. E os dois eventos aconteceram em menos de 24 horas de diferença. Parece difícil de acreditar.
A música é a mais abstrata da arte. Como interpretar sons harmônicos que dentro de si não trazem um conteúdo explicável e prático? Ainda assim, é impressionante como somos atraídos por aquilo que não conseguimos compreender. E a música se torna algo cada vez mais apaixonante e contagiante.
Honeydripping: Do Blues ao Rock, tem esse poder. O de seduzir com uma estória simples permeada por canções no estado de Alabama, em 1950. O bar Honeydripping, à beira da falência por conta de dívidas com fornecedores, companhia elétrica e tantas outras, precisa de uma atração para não morrer. O dono Ty, interpretado pelo consagrado Danny Glover, não admite guitarristas no local, e assim sua casa perde espaço para a concorrência, que se encontra bem em frente. Um dia ele será salvo por Guitar Sam, uma lenda de Nova Orleans. Ou não exatamente.
Os jovens negros do estado, um dos mais racistas dos Estados Unidos até hoje, se dividem entre a colheita de algodão, o exército e a música par encontrar o que fazer. Há também a porção religiosa, com seus cultos banhados também por canções. Fato é que o ritmo está presente em qualquer que seja a atividade. Confesso que me arrepiei em praticamente todos os momentos em que alguma música começava, não apenas por gostar bastante de rocks antigos e um pouco de blues, mas principalmente pela interpretação das personagens.
Curioso acompanhar um momento no tempo em que as coisas mudam. Ty, perseguido por um incidente do passado, impede que algo parecido aconteça em seu bar. Sua esposa parece hesitar na tentativa de trocar de igreja. A guitarra elétrica, com amplificador, entra em cena e muda para sempre os sons produzidos. É um filme também sobre essa passagem de tempo, evolução, seguir em frente. A cena inicial e final dialogam e exibem duas crianças que brincam com música. Isso sim permanece.
O resultado inevitável é que estou baixando a trilha. Veria o longa sem cessar porque tenho certeza de que não ia me cansar. Agora que estou tendo aulas de piano, dá vontade de aprender tudo rápido para poder também tocar tudo que ouvi. E quem sabe um dia não consiga? E quem sabe um dia não tenha forças para continuar os estudos na guitarra, gaita, sax…
Deixe-me apenas registrar um diálogo interessante. Quando China Doll, a filha de Ty, está sendo seduzida por Sonny, o que vai se passar por Guitar Sam, ela diz para o rapaz algo mais ou menos assim:
- Tive uma doença quando era pequena e agora meu coração está meio estranho. [como quem diz que não é afetado por galanteios].
- É, o meu está meio esquisito também… Desde que te conheci.
Ouçam a música chamada “China Doll”. Ouçam todas. Façam música. Dancem, vivam, balancem.
“A troca” há de ser um dos filmes mais belos que vi recentemente. Se houvesse alguma premiação que coroasse o conjunto de atores, o elenco desse filme mereceria com louvor. Não há nenhuma atuação ruim, desde Christine Collins, a personagem de Angelina Jolie, até os primos do cruel rancho (atente para a atuação de gente grande do garotinho) e os funcionários da polícia, passando pelo médico do manicômio. Isso sem falar no sempre impecável John Malkovich, o indefectível. Acredito que o filme deixa bem claro que a polícia jamais pôde ser confiável, desde os tempos mais distantes. Uma pena que o longa não teve tanta exposição quanto outros que disputaram várias categorias do Oscar, mas Eastwood mostrou mais uma vez do que é capaz.
“Nós perdemos as pessoas que amamos porque assim descobrimos que elas são importantes“
- O curioso caso de Benjamin Button (filme)
O filme “O curioso caso de Benjamin Button” não deveria se chamar assim. Inspirado livremente no conto homônimo do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, a produção dirigida por David Fincher (Zodíaco, Clube da Luta) praticamente não contém uma linha daquilo que foi escrito em 1921 pelo autor. Além disso, a película tem qualidade o suficiente para ser tão brilhante quanto o conto, porém de uma maneira bem diversa. Fica difícil entender por que a opção de usar o mesmo nome – acredito que seja quase impossível acreditar que a escolha tenha sido tomada por uma questão de marketing, ou seja, a fim de atrair o público, pois atualmente não creio que uma obra literária seja motivo para levar as pessoas ao cinema.
Minha relação com Benjamin Button começou na semana da premiação do Globo de Ouro. Até então, nunca tinha ouvido falar nele (filme ou conto) e quando me interei sobre o enredo, tive a certeza naquela hora de que não se tratava de uma estória original – tinha um viés literário, um homem que nasce velho e segue na direção contrária dos demais, rejuvenescendo com o passar dos anos. Uma busca rápida na internet me levou a F. Scott Fitzgerald, autor o qual nunca havia lido, apesar de uma tentativa frustrada anos atrás com “O grande Gatsby”. Naquele momento já me interessei pela obra, e consegui baixar o conto na rede. Dias depois, li a obra escrita e, antes mesmo de começar a leitura, já havia assistido a alguns trailers do filme. Logo notei que, aparentemente, as referências do cinema passariam longe da outra estória. Fui com dois pés atrás para ver o longa, e me surpreendi positivamente.
Desde as primeiras cenas já percebemos as discrepâncias. No filme, uma mulher à beira da morte pede para a filha ler um diário deixado por Benjamin Button a fim de distrair-se no crepúsculo da vida. Estamos em Nova Orleans, e a iminência do furacão Katrina deixa todos no hospital em estado de alerta. A filha lê e a ação passa para o passado, quando um homem constrói um relógio para a recém-inaugurada estação da cidade. É o final da Primeira Guerra Mundial, e muitas famílias perderam os filhos nos combates. Como uma tentativa simbólica de trazer seu garoto de volta à vida, o responsável pelo relógio faz com que sua criação ande para trás, almejando uma volta no tempo, o que, obviamente, não acontece. Depois, vemos outro homem correr para uma casa e encontrar a esposa agonizando logo depois de parir. O garoto nasceu velho, enrugado, e o pai foge com ele para abandoná-lo na entrada de um asilo. Nada disso acontece no conto.
Só para não me estender em cada cena de ambos e traçar as diferenças, relato agora o que acontece no início do conto. O senhor Roger Button corre para o hospital para assistir à chegada de seu primogênito. Estamos na cidade de Baltimore em 1860 e as pessoas costumavam nascer em casa – mas tudo tinha que ser distinto em se tratando de Benjamin, até seu nascimento. Nas escadas da entrada do hospital, Roger encontra o médico da família enfurecido e este lhe pede para que nunca mais volte a vê-lo. O pai corre para saber o que acontece e encontra o filho já envelhecido, um pouco maior que uma criança de colo, e falando com desenvoltura. A mãe não morre, e a família tampouco o abandona.
Como disse no começo, não acredito que essas diferenças importem – de novo, a única coisa que me incomodou de verdade é o uso do mesmo nome para o filme. Cada um se destaca de modo único – o filme com sua estória longa e algumas frases altamente poéticas; o conto conciso, pontual e não menos lírico, pelo menos nos excertos finais. Não há o relógio que anda para trás no conto; Benjamin conhece a sua amada ainda na infância no filme, ao passo que no conto isso acontece em uma festa à qual pai e filho vão juntos, e mais para frente o casal acaba por separar-se – aliás, a relação entre os dois se mantém bem próxima na obra de Fitzgerald, o que não ocorre no longa.
O Benjamin Button de Fincher parece abraçar mais a vida do que o do conto em grande parte de cada produção. O Button de Fitzgerald é alguém que já nasce com certa experiência, pois sabe o que falar desde que vem ao mundo e exige que seu pai lhe compre roupas. Ele se comporta da maneira que a sociedade espera de um menino de seis, sete anos. Passagem emblemática que comprova isso se dá quando o pequeno velho Benjamin acidentalmente quebra uma vidraça. Seu pai o repreende, mas o filho logo nota o sorriso dele, que finalmente parecia criar uma criança tida como normal. Ao notar isso, Benjamin faz questão de deliberadamente espatifar alguma coisa com frequência ao brincar, pois é exatamente esse tipo de coisa que um infante realiza. Mais para frente, quando está entediado com a vida, Benjamin se alista no exército para ter um pouco de emoção, já que a existência estava sendo sem graça. O Benjamin de Fincher também vai para a guerra, porém motivado muito mais por uma vontade de aprender e fazer tudo que lhe era proibido por uma criação religiosa e afetiva – até o momento em que sua mãe de criação engravida e passa a dar-lhe menos atenção. Ele cresce na companhia de velhos, achando que é um deles e que vai morrer a qualquer momento, sem ter liberdade para ver o que há na esquina. Essa falta de vivência, experiência, ou melhor, esse desconhecimento e ignorância sobre a vida fazem com que o Benjamin de Fincher seja mais apaixonado que o seu par literário.
Pensava que o rejuvenescimento de Brad Pitt seria abrupto no filme, como se de repente ele passasse de um senhor a um homem de 30 e poucos, mas me enganei. O ritmo do longa é sensivelmente mais compassado que o conto, e o processo inverso que acontece com Pitt é gradual, demorado, lento. Em termos de maquiagem, não consigo imaginar algo com maior denodo do que acontece neste caso. É um trabalho memorável e digno de louvor.
Dois elementos em especial chamaram muito a minha atenção no longa. O primeiro é o já mencionado relógio. Há algo de muito bonito nele, algo que faz pensar não sei exatamente em quê. Um relógio que volta, uma pessoa que volta ao ponto inicial. Outra coisa que me chamou a atenção é o beija-flor. A estória é contada por um marinheiro que trabalha em um rebocador junto com Benjamin. Em um bar, ele diz a outros marujos que a asa de um beija-flor bate dezenas de vezes por segundo, e que se ele ficar dez segundos sem movimentá-la, morre. Além disso, ele conta que estudos mostraram o formato da extremidade da asa de um beija-flor quando está batendo. É o número oito deitado. “E o que significa isso na matemática?”, ele pergunta. “O infinito”, responde Benjamin para si mesmo. Uma asa que precisa bater para ter sentido, um relógio que não para nem mesmo em uma adversidade, como vemos no final do filme. E acaba sendo o que Benjamin fala nos momentos derradeiros. Algumas pessoas nasceram para dançar, outras para declamar Shakespeare, outras para serem atingidas por raios. Acho que tudo fica mais fácil quando descobrimos para que nascemos. O importante, e isso nos mostra com clareza “O curioso caso de Benjamin Button” (conto e filme), é que não terminemos como começamos, uma página em branco, um rascunho que ainda está por ser preenchido. Vamos escrever, desenhar e pintar nossa folha.
Leiam o conto, assistam ao filme.
P.S. – João Pereira Coutinho escreveu na Ilustrada da Folha em 27 de janeiro de 2009 um texto sobre Benjamin Button. Recomendo a leitura, apesar de não concordar com alguns argumentos, especialmente aquele em que o colunista diz que certos diálogos do conto são hilários. Na verdade, acho que adjetivos mais compatíveis seriam “bizarro”, “nonsense”, “esdrúxulo”. Mas é sempre bom tentar entrar em contato com opiniões distintas da nossa. Tanto que até hoje guardo o caderno dessa data.
P.S. 2 – Ele não ganhou o Oscar, mas a atuação de Brad Pitt está absolutamente sensacional no filme. Nunca o achei ridículo, mas estava longe de ser um dos melhores. Por esse filme, terá meu respeito eterno.
You’re part-time lover and a full time friend,
The monkey on the back is the latest trend,
Don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
Here is a church and here is a steeple,
We sure are cute for two ugly people,
Don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
We both have shiny happy fits of rage,
I want more fans, you want more stage,
Don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
I’m always trying to keep it real,
Now I’m in love with how you feel,
I don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
I kiss you on the brain in the shadow of the train,
I kiss you all starry-eyed my body swings from side to side,
I don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
The pebbles forgive me, the trees forgive me,
So why can’t you forgive me?
I don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
Doo doo doo doo doo doo doodoo
Doo doo doo doo doo doo doodoo
I don’t see what anyone can see in anyone else,
But you
***
Música do final do filme Juno.
Não sei cantar. Não sei tocar violão. Mas sei o que sinto.
É para você.
Querer ser um outro. Pelo menos uma vez alguém há de ter pensando na possibilidade. E isso por uma série de motivos: há os que têm vergonha daquilo que são, os que queriam ter uma vida supostamente melhor, aquela que o outro leva, os que queriam ter menos problemas. Mas, acima de tudo, acho que ser o que não se é daria conta da pergunta mais difícil com a qual se pode deparar: Quem é você? Sou o outro. Em não havendo a opção de ser o outro, a questão fica sem resposta.
Quero Ser John Malkovich. Engraçado, reflexivo, inteligente, diferente. Personagens que desesperadamente buscam uma alternativa para a vida que levam, nem que seja por 15 minutos. O titereiro, o que controla bonecos e que consegue dotar um ser humano com os mesmos fios que os brinquedos sobre as costas – fios que, aliás, todos temos invisíveis sobre nós, e também seguimos um roteiro (de filme, teatro, ou do nosso titereiro) definido por uma lógica que é tudo, menos lógica. O mais assustador é que, quanto mais os personagens são John Malkovich, mais entram em contato com aquilo que eles próprios são em essência, e isso é bem perigoso.
Querer fugir de si, oferecer sentido àquilo que não tem, entender o grande enigma. Queria eu também encontrar uma portinha no andar sete e meio, feito para os anjos tortos que não têm lugar. como cameron Diaz, que se afunda e afoga em casa com o seu zoológico particular, sua vontade de ser transexual, e descobrir que, de humano, seus bichos possuem mais do que o marido titereiro. O egoísmo do titereiro, o desdém da companheira de firma que o ajuda no aluguel de 200 dólares por 15 minutos dentro do cérebro de Malkovich. E o senhor que quer se perpetuar na vida. Todos personagens com algum tipo de bizarrice que, juntos na minoria estranha, formam a massa de todos. Então esse lugar não é para nós? Provavelmente. E aí, de que adiantaria ser o outro, se se trocariam apenas as extravagâncias?
Diante da parede (não da encruzilhada), o que fazer? Nada. Ir levando. Sem se acomodar ou querer ser quem não se é, mas se esforçar minimamente para ver os poucos lados positivos de existir. Também deve ser um certo exagero da minha parte, afinal a vida não é tão ruim assim. É que, se eu fosse outro, com certeza iria apreciar mais.
Foi no ano passado que me interessei pelo trabalho de Guillermo Arriaga. Assisti a uma entrevista sua transmitida pela TV Cultura direto da Flip 2007, a festa literária de Parati. Gostei muita das coisas que ele disse e me chamou a atenção em especial um trecho sobre o livro “O Búfalo da Noite”.
Arriaga contou que, em uma prisão aqui no Brasil (não me lembro qual), o livro supracitado era o mais lido do local. Ele recebera uma carta de um dos internos, que pedia ao escritor alguns exemplares do romance, já que, ao passar por muitas mãos, teve o estado deteriorado. Arriaga lhes mandou 50. Fiquei curioso, e também queria conhecer a história que fascinara a tantas pessoas. Mais tarde, soube que ele é responsável pelos roteiros de três filmes que gosto muito: Amores Brutos, 21 gramas e Babel.
O Búfalo da Noite conta a história de Manuel, cujo melhor amigo, Gregorio, comete suicídio dias depois de regressar de mais uma internação no hospital psiquiátrico. Os dois eram muito próximos, a ponto até de formar um triângulo amoroso em que o vértice principal é Tania.
Gregorio, de aluno tímido a um rapaz que desenvolve surtos de loucura, sonha com o tal búfalo, que vem lhe respirar perto da nuca quando dorme. Além disso, ele jura que pequenas lacraias lhe penetram a pele e o transtornam mais ainda. O búfalo não aparece apenas nos devaneios – tanto ele quanto Manuel o tem tatuado no bíceps esquerdo.
Tudo leva a crer que Manuel também terá o mesmo fim do amigo. Ele começa a receber a visita do búfalo nos sonhos e ainda carrega consigo muitas das características de Gregorio. Ao mesmo tempo que tenta se livrar dele, pois se sente perseguido mesmo depois do suicídio, Manuel claramente manifesta opiniões que notamos não ser dele – a homofobia, por exemplo. A tatuagem do búfalo ainda está lá, embora Manuel tenha tentado retirá-la cortando a própria pele. Como se afastar do falecido se Manuel freqüentava sua casa constantemente em encontros com a irmã Margarita? O fato de Manuel namorar Tania também colabora para que a figura de Gregorio esteja sempre presente. Felizmente, a obviedade não se comprova.
A narrativa é altamente visual e envolvente, regada em alguns momentos com reflexões de Manuel, o narrador. Queremos saber o que vai lhe acontecer, e acreditamos que o caminho traçado por Manuel será o mesmo de Gregorio. Pelo menos eu cheguei a pensar que o narrador seria derrotado pela loucura. Não que ele a vença, porém o desenlace é menos lógico – e empolgante – do que imaginei.
Após terminar a leitura, assisti ao filme – e agora penso que poderia muito bem ter acabado o livro e parado por aí. A película é um resumo tosco e distorcido da obra escrita, mas o que me assusta não é isso. Guillermo Arriaga ajudou na adaptação, e fica difícil acreditar que ele tenha permitido o assassinato de uma bela composição. A partir do momento em que Manuel é preso até o final, não há nenhuma relação entre livro e filme, o que é lamentável e sem sentido. Sei que não há como fazer uma transcrição exata de uma mídia para outra – e talvez nem se deva tentar – porém acho que no caso de O Búfalo da Noite, houve um exagero.
Quem assistiu somente ao filme não terá a menor vontade de ler. Triste, por se trata de uma leitura interessante, incômoda no tocante a despertar sentimentos e inflexões por parte do leitor, já que se trata de uma crônica perfeitamente possível na Cidade do México ou qualquer outro lugar.
Abaixo, segue trecho da entrevista do Arriaga na Flip 2007. Não encontrei a íntegra da conversa, que deve ter tido quase duas horas, então saiba que o bate-papo está muito reduzido. Também não está no vídeo a parte em que ele conta a história sobre o presidiário brasileiro. (E agora parando para pensar, nem tenho certeza de que era uma carta de alguém daqui. Perdoe a minha memória.)
I find the whole mythology surrounding superheroes fascinating. Take my favorite superhero, Superman. Not a great comic book. Not particularly well-drawn. But the mythology… The mythology is not only great, it’s unique. A staple of the superhero mythology is, there’s the superhero and there’s the alter ego. Batman is actually Bruce Wayne, Spider-Man is actually Peter Parker. When that character wakes up in the morning, he’s Peter Parker. He has to put on a costume to become Spider-Man. And it is in that characteristic Superman stands alone. Superman didn’t become Superman. Superman was born Superman. When Superman wakes up in the morning, he’s Superman. His alter ego is Clark Kent. His outfit with the big red “S” – that’s the blanket he was wrapped in as a baby when the Kents found him. Those are his clothes. What Kent wears – the glasses, the business suit – that’s the costume. That’s the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent? He’s weak… He’s unsure of himself… He’s a coward. Clark Kent is Superman’s critique on the whole human race.
Pode não ser um filme fenomenal, apesar de eu achar divertido pra caramba e de as lutas serem muto bacanas. Essa reflexão que o Bill faz em Kill Bill Vol. 2 foi fantástica, uma análise bem coerente que eu jamais havia me dado conta.
The little things. There’s nothing bigger, is there?
Frase presente no filme Vanilla Sky. Num dia qualquer, quando alguém parar para refletir e pensar sobre o que valeu a pena pela passagem por aqui, o que terá ficado? Para mim, um abraço, um sorriso, uma tarde com quem se gosta, uma piada que só você entende, um beijo.
Respondo a uma pergunta do filme com a frase ali de cima. O que é felicidade para você?