O tempo – definição

Tempo: recorte de fragmentos imaginários ou reais no qual convergem presente, passado e futuro para formar aquilo que foi ou o que se gostaria que fosse; convenção criada na tentativa de organização e inserção da vida em determinado espaço que só consegue confundir ainda mais o que se tenta em vão explicar; substância que existe para sempre, paradoxalmente finita e breve; nuvem que nasceu branca e era cinza quando se desfez, e todo o processo que a cria e a consome; água que escorre pelo telhado, deita no solo e faz crescer a flor; um sorriso, um abraço, um beijo; mãos dadas.

- do Dicionário de Coisas Belas Indefiníveis

Por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 28, 2009 at 3:52 pm Comentários (1)
Tags: ,

Tornar-se Rocha

Há pessoas que simplesmente não conseguem dizer à outra quando algo lhe incomoda, precisa ser mudado ou que não gostaria de certas atitudes tomadas por ela. Essas pessoas talvez tenham medo de machucar a outra ou então, de certa forma, não querem que a atitude parta delas mesmas, mas sim seja atribuída ao outro. Não querem ser responsáveis pela detonação da bomba, pelo apertar do gatilho ou do simples abrir de uma gaiola. Uma atitude como essa, muito mais do que ferir a outra pessoa, a tornaria culpada pela possível reação em cadeia, pelo relar dos átomos capaz de gerar grande explosão.

Mas ao contrário do que pode-se pensar, pessoas que escolhem isso não são covardes ou possuem falta de alguma característica positiva na personalidade; não é o caso de despojar-se de ter dedos apontados na cara ou querer dormir tranqüilas em sua condição de inércia. No papel de acusadoras, tomando iniciativas para um possível estopim da mudança de coisas, a hesitação em acender o pavil, em derrubar a primeira peça de uma fila de dominós a torna livre da talvez pior coisa que pode acontecer com uma pessoa. Essas, na verdade, querem evitar a iminente e terrível possibilidade que todos nós, experiência após experiência ao lado de alguéns cujo valor de afeto seja enorme, corremos: o de virarmos rochas. Dura, fria e estéril. Barrocos. Mas às vezes, indo completamente contra a lógica do viver, é preciso tornar-se, estar ou até mesmo permanecer como rochas. Elas também perecem logo menos.

Anuncio a quem interessa que Mariana Rocha de Freitas virou rocha no instante em que algumas coisas não fazem mais sentido serem mostradas, produzidas ou compartilhadas, mas que talvez Marina ainda continue acompanhando a trajetória deste blog. O Sobre virou Para. Bom ao menos ter despertado algo de positivo para quem fica; esta pessoa então poderá continuar a tocar o moinho.

Publicado em: on Julho 22, 2009 at 1:17 am Deixe um comentário

Um fragmento

Queria ser como esses que escrevem letras de músicas românticas. Não essas piegas, vazias, cheias de sentimentalismos. Mas aquelas escritas com a despretensão de serem românticas. Aquelas que começam com um outro objetivo e quase que instintivamente terminam falando de amor, pois tudo que importa é motivado por amor. Sim, eu gostaria muito de ser como eles. Pegaria o lápis todos os dias e despejaria ali a mais pura verdade das minhas sensações quando estou com você. Meu olhar, a minha presença deveriam bastar, mas ah! a força da palavra escrita! E ela não domino. E ela não compreendo. Não, não queria ser como eles. Queria, sim, ter a condição de fazer com que você entenda. Que você se entenda. Queria segurar a sua mão e transmitir com o calor da minha o meu desespero e a minha alegria. Queria que meus beijos sussurrassem o encantamento que experimento ao estar do seu lado. Queria que você não apenas abrisse os olhos, mas que enxergasse. Queria que meus braços tivessem a força para selar um pacto, ainda sabendo que ele teria um prazo de validade bem curto.

Na verdade, não. Não queria nada isso. Queria só que você estivesse aqui, pois todo o resto seriam as folhas de uma árvore no outono.

***

Extraído de nenhum livro e de todos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 13, 2009 at 10:59 pm Deixe um comentário
Tags:

Mestre sob qualquer aspecto

Gustavo,
ojalá este libro se quede en tu corazón y te susurre algo de vez en vez,
un abrazo,
Guillermo Arriaga

Devia ter postado isso há muito tempo, na verdade. Mas tudo bem. Foi no dia 15 de agosto de 2008, se não me engano, que vivi um dos momentos mais memoráveis da minha vida. Consegui conversar com o escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga, que vinha ao Brasil para promover o lançamento de seu livro “Esquadrão guilhotina”. Foi numa sexta-feira que ele esteve presente na Fnac paulista, um dia antes de participar de uma palestra na Bienal do Livro à qual também fui.

Depois de falar sobre a sua nova obra, Arriaga abriu espaço para algumas perguntas. Dias antes, eu tinha terminado de ler “O Búfalo da Noite” e de assistir ao filme homônimo. Indaguei Arriaga acerca do fato de livro e filme serem tão díspares, especialmente na porção final. Queria saber se aquilo tinha sido fruto de uma liberdade que ele concedeu ao diretor (já que Arriaga participou da adaptação) ou se ele optara deliberadamente por criar um final alternativo. Na sinceridade, Arriaga falou que, depois do que foi feito com o filme, acreditava que não permitiria mais que suas obras impressas migrassem para as telonas, mostrando-se bem decepcionado com o resultado.

No final, Arriaga pacientemente atendeu as pessoas que estavam lá. Eu, groupie que sou, fui até ele e lhe pedi que assinasse meu livro. Fique triplamente feliz quando ele elogiou meu espanhol, escreveu a dedicatória que abre esse post e ainda permitiu uma foto. É impressionante como a gente passa a admirar ainda mais uma pessoa não somente pelo talento que ela tem, mas quando nota que é alguém extremamente simpático e humilde. Queria muito encontrá-lo nem que fosse para agradecer a ela novamente. Guillermo Arriaga é mestre em todos os sentidos.

Agradecimentos eternos a Monique Prevedel, que me avisou sobre a ida de Arriaga à Fnac. Com certeza não teria conseguido conversar com ele se o visse apenas na Bienal. Na Fnac, havia no máximo 15 pessoas; na Bienal, centenas. E os dois eventos aconteceram em menos de 24 horas de diferença. Parece difícil de acreditar.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Maio 3, 2009 at 5:30 am Comentários (2)
Tags: ,

A cegueira nossa de cada dia

Deixar de existir e, paradoxalmente, seguir com a vida. Enxergar nada mais do que uma tela branca, antes sinônimo de paz, tranqüilidade, e hoje pânico, desespero e trevas. Os cegos não existem para ninguém a não ser para eles mesmos, sendo obrigados a olhar para dentro de suas almas e tentar encontrar ainda algum resquício de humanidade quando o restante dela se calou. Uma coisa é a população composta por alguns representantes deste grupo, outra bem distinta é quando toda uma cidade foi afetada pela cegueira.

Mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

Saramago, no seu ritmo sem pressa e ao mesmo tempo fluido, conta uma história e apresenta uma sucessão de acontecimentos que parecem não deixar dúvida: se o conto tivesse mesmo veracidade (e o tem em vários aspectos), o leitor sente que a fala de determinado personagem seria exatamente aquela, a desgraça, a alegria e a tristeza experimentadas aconteceria daquela mesmíssima forma que o português ali relata.

Não há motivos para sorrir. E chorar, quase sempre, faz bem. É certo que por vezes é a melhor forma de transmitir uma idéia, um sentimento.

Cala-te, [...] calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida.

Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos.

Uma única personagem, a mulher do médico, não foi acometida pelo mal branco. Vive todos os dias a angústia de ser a próxima afetada, uma sensação que se estende até a última página do livro. O escritor português invalida por completo o ditado que afirma que é rei aquele que tem olho em terra de cego. O porquê fica evidente e a própria personagem resume com maestria a explicação.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o.

Talvez o ser humano tenha de cegar para ver. Vemos mas não enxergamos. A cegueira torna as coisas mais claras e definidas, a extinção de um sentido apura os demais, e pode ser que desta forma conheçamos a real essência do homem. Também é verdade que ele deixa de ser o que foi para renascer em uma massa que vai sendo moldada do início, é como apagar o que havia na folha e torná-la branca novamente.

Branco é tudo o que se vê. E as linhas que Saramago vai desenhando e traçando são repletas de poesia, uma poesia que vem em texto corrido e que é retratada em falas, pensamentos e em um cão, cuja função primeira é enxugar as lágrimas da mulher do médico. Uma poesia fina tecida dentro de em um manicômio que fede a vômito e uma cidade às escuras, cuja escuridão, para os habitantes, não é preta. Cenários desolados que não inspiram quaisquer belezas, e nem por isso se vêem livres de passagens belas, tristes, humanas enfim.

Não enxergamos mais. Os lugares pelos quais passamos, as pessoas com quem temos contato, isso tudo apenas se vê. E a imagem refletida no espelho também não está livre da nossa indiferença de cada dia. Cegar é uma bênção. Uma bênção para que não percebamos o que nos tornamos, aonde chegamos e para onde vamos.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Postado por Mateus Campos

Nossas angústias

Existem alguns livros que acabam lendo meus pensamentos e emoções do momento. É assustador e reconfortante. Uma dor agradável de massagem nos pés; mas nunca angustiante, com o perdão do suposto trocadilho:

“Tenho me esforçado por tornar-me criança – e em conseqüência misturo coisas atuais a antigas.”

“Tentei chorar, mas não tinha vontade de chorar. Estava espantado, imaginando a vida que ia suportar, sozinho neste mundo. Sentia frio e pena de mim mesmo.”

“Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar.”

(Angústia, de Graciliano Ramos)

Postado por Monique Souza

Publicado em: on Agosto 3, 2007 at 4:48 am Deixe um comentário

Suassuna, sua sina

O paraibano Ariano Suassuna completou 80 anos no dia 16 de junho deste ano, e nada mais justo do que mencioná-lo e destacar um trecho da sua obra mais conhecida, o Auto da Compadecida.

Ao contrário da maioria, pelo menos assim acredito, o primeiro contato que tive com a obra foi por meio do livro, e não da minissérie ou do filme. Qualquer que seja o caminho pelo qual se conheça a obra, a qualidade é indiscutível. Com muita crítica e bom humor, Suassuna traça o perfil do sofrido povo do sertão do nordeste e contribui para a formação de uma literatura brasileira com suas dezenas de peças para o teatro.

No trecho que segue, o personagem João Grilo acabara de morrer, e o fiel escudeiro Chicó lamenta a perda do amigo. Um dos raros momentos em que os risos dão lugar à reflexão pelas palavras de Chicó, a saber:

João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 26, 2007 at 10:00 pm Deixe um comentário
Tags: ,

O nascer de uma metáfora

Você quer um copo d’água?

Eu quero. Traz meio vazio para mim.

Não, vou trazer um pequeno completamente cheio, então.

 

 

 

Disse, mas naquele momento nem me dei conta. Ela, prontamente, rebateu sobre a metáfora contida nas palavras. Fiz bem em anotar, apesar de a reprodução não me parecer tão exata como gostaríamos.

Preencher os espaços com algum sentimento, seja ele da natureza que for. Entre nós jamais poderá ser frio, e ela sabe. A plenitude do copo cheio, transbordando com o que representa vida. Faltar, sobrar, jamais – quero que seja intenso, vívido, completo, total. E, acima e antes de tudo, quero ser o seu eterno fornecedor – de alegrias, preferencialmente.

Postado por Mateus Campos & Mariana Rocha de Freitas

Publicado em: on Julho 12, 2007 at 7:33 pm Comentários (1)

Há tempos

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

***

Há alguns meses mal sabia eu até onde ia chegar, mal sabia o que ia presenciar, viver, ao que teria que me adaptar. Incrível é essa capacidade do ser humano de se adequar e ir submetendo-se a situações inimagináveis, digna de riso quando se pensa sobre isso olhando no espelho e vendo suas olheiras tornarem-se permanentes, puxando todo o seu rosto em direção ao sorriso que não existe mais.

Postado por Monique Souza

Publicado em: on Junho 26, 2007 at 9:30 pm Deixe um comentário

Saber?

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

Clarice Lispector

 

Postado por Mariana Rocha de Freitas

Publicado em: on Junho 21, 2007 at 9:28 pm Deixe um comentário