Um fragmento

Queria ser como esses que escrevem letras de músicas românticas. Não essas piegas, vazias, cheias de sentimentalismos. Mas aquelas escritas com a despretensão de serem românticas. Aquelas que começam com um outro objetivo e quase que instintivamente terminam falando de amor, pois tudo que importa é motivado por amor. Sim, eu gostaria muito de ser como eles. Pegaria o lápis todos os dias e despejaria ali a mais pura verdade das minhas sensações quando estou com você. Meu olhar, a minha presença deveriam bastar, mas ah! a força da palavra escrita! E ela não domino. E ela não compreendo. Não, não queria ser como eles. Queria, sim, ter a condição de fazer com que você entenda. Que você se entenda. Queria segurar a sua mão e transmitir com o calor da minha o meu desespero e a minha alegria. Queria que meus beijos sussurrassem o encantamento que experimento ao estar do seu lado. Queria que você não apenas abrisse os olhos, mas que enxergasse. Queria que meus braços tivessem a força para selar um pacto, ainda sabendo que ele teria um prazo de validade bem curto.

Na verdade, não. Não queria nada isso. Queria só que você estivesse aqui, pois todo o resto seriam as folhas de uma árvore no outono.

***

Extraído de nenhum livro e de todos.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 13, 2009 at 10:59 pm Deixe um comentário
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Grande

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com a tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
- “Meu amor!…”

Um dos muitos trechos memoráveis de Grande Sertão: Veredas. Terminei de ler há uns dois dias, se não me engano. Não tenho capacidade nem direito de fazer comentários sobre a obra.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Janeiro 5, 2009 at 5:00 pm Deixe um comentário
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Pessoas comuns e os supers

I find the whole mythology surrounding superheroes fascinating. Take my favorite superhero, Superman. Not a great comic book. Not particularly well-drawn. But the mythology… The mythology is not only great, it’s unique. A staple of the superhero mythology is, there’s the superhero and there’s the alter ego. Batman is actually Bruce Wayne, Spider-Man is actually Peter Parker. When that character wakes up in the morning, he’s Peter Parker. He has to put on a costume to become Spider-Man. And it is in that characteristic Superman stands alone. Superman didn’t become Superman. Superman was born Superman. When Superman wakes up in the morning, he’s Superman. His alter ego is Clark Kent. His outfit with the big red “S” – that’s the blanket he was wrapped in as a baby when the Kents found him. Those are his clothes. What Kent wears – the glasses, the business suit – that’s the costume. That’s the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent? He’s weak… He’s unsure of himself… He’s a coward. Clark Kent is Superman’s critique on the whole human race.

Pode não ser um filme fenomenal, apesar de eu achar divertido pra caramba e de as lutas serem muto bacanas. Essa reflexão que o Bill faz em Kill Bill Vol. 2 foi fantástica, uma análise bem coerente que eu jamais havia me dado conta.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Junho 1, 2008 at 2:13 am Deixe um comentário
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O fim antes do fim

No fim das contas o que está claro é que todas as vidas se acabam antes do tempo.

José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Março 22, 2008 at 2:53 pm Deixe um comentário
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Só entende quem é

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.

Clarice Lispector no conto A imitação da rosa

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Fevereiro 17, 2008 at 6:01 pm Deixe um comentário
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Noite Feliz

Há uma última solução: vá jantar num ótimo restaurante, bem cedo, tipo 8 da noite, mesmo que esteja inteiramente só. Quando chegar em casa, ligue a televisão e tome um sonífero – leva só 20 minutos para fazer efeito. Mas providencie a receita já: como se sabe, todos os médicos viajam no Natal. Como cada caixa vem com 20 comprimidos, dê os 19 que vão sobrar a 19 amigos, que vão ficar muito mais felizes do que se recebessem uma carteira de presente. E dia 25 acorde cedo pensando, com alívio: já passou.”

Danuza Leão

Postado por Mariana de Freitas

Publicado em: on Dezembro 25, 2007 at 4:23 am Deixe um comentário

Comum a todos

De repente nem existe tanta distinção assim entre conto e poesia. Evidente que os aspectos estéticos são visíveis, mas não acredito que seria errado afirmar que alguns contos agregam em si versos em prosa, seja pela sua força de sentido, seus significados ou sua sonoridade. Clarice faz isso em “Via Crucis”.

Maria das Dores está grávida. Mas é virgem. Jamais se entregou sequer ao seu marido, velho, “meio impotente” e paciente de mais. Daí não restam dúvidas: o esposo é São José e o menino deverá se chamar Jesus. E o que fazer para que a criança não passe pela Via Crucis?

Jesus deve nascer em um estábulo para que tudo saia perfeito – entretanto, a gestação vai até outubro, e não 25 de dezembro – e então o casal vai para a fazenda da tia Mininha em Minas. Começa aqui a Via Crucis da própria mãe, que de tão consternada para evitar o sofrimento do filho, começa a esquecer que ela também vive por si: ajoelha-se na igreja apesar da barriga, se machuca, passa mal. O nome da criança não será Jesus, e as dores de das Dores parecem indicar-lhe o nome Emmanuel.

Vem então uma poesia. A criança está entre nós, e diz Clarice em parágrafos-versos.

As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.

Ela tem a capacidade de nos falar sobre o cotidiano de uma maneira simples, clara, quase óbvia. E acho que o problema está aí, de tão verdadeiro, de tão certeiro, parece que não nos damos conta daquilo que está a nossa frente. Coisas inerentes ao seres humanos e que demoramos anos para descobrir, quando o fazemos. Algo comum a todos, mas tamanha é a impotência dos homens que precisamos de alguém para nos dizer o que nos é inevitável, sem importar nome, sexo, credo, idade. A via crucis é questão de tempo. Assim, chega-se ao final do conto.

Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Novembro 30, 2007 at 10:10 pm Deixe um comentário
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A cegueira nossa de cada dia

Deixar de existir e, paradoxalmente, seguir com a vida. Enxergar nada mais do que uma tela branca, antes sinônimo de paz, tranqüilidade, e hoje pânico, desespero e trevas. Os cegos não existem para ninguém a não ser para eles mesmos, sendo obrigados a olhar para dentro de suas almas e tentar encontrar ainda algum resquício de humanidade quando o restante dela se calou. Uma coisa é a população composta por alguns representantes deste grupo, outra bem distinta é quando toda uma cidade foi afetada pela cegueira.

Mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

Saramago, no seu ritmo sem pressa e ao mesmo tempo fluido, conta uma história e apresenta uma sucessão de acontecimentos que parecem não deixar dúvida: se o conto tivesse mesmo veracidade (e o tem em vários aspectos), o leitor sente que a fala de determinado personagem seria exatamente aquela, a desgraça, a alegria e a tristeza experimentadas aconteceria daquela mesmíssima forma que o português ali relata.

Não há motivos para sorrir. E chorar, quase sempre, faz bem. É certo que por vezes é a melhor forma de transmitir uma idéia, um sentimento.

Cala-te, [...] calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida.

Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos.

Uma única personagem, a mulher do médico, não foi acometida pelo mal branco. Vive todos os dias a angústia de ser a próxima afetada, uma sensação que se estende até a última página do livro. O escritor português invalida por completo o ditado que afirma que é rei aquele que tem olho em terra de cego. O porquê fica evidente e a própria personagem resume com maestria a explicação.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o.

Talvez o ser humano tenha de cegar para ver. Vemos mas não enxergamos. A cegueira torna as coisas mais claras e definidas, a extinção de um sentido apura os demais, e pode ser que desta forma conheçamos a real essência do homem. Também é verdade que ele deixa de ser o que foi para renascer em uma massa que vai sendo moldada do início, é como apagar o que havia na folha e torná-la branca novamente.

Branco é tudo o que se vê. E as linhas que Saramago vai desenhando e traçando são repletas de poesia, uma poesia que vem em texto corrido e que é retratada em falas, pensamentos e em um cão, cuja função primeira é enxugar as lágrimas da mulher do médico. Uma poesia fina tecida dentro de em um manicômio que fede a vômito e uma cidade às escuras, cuja escuridão, para os habitantes, não é preta. Cenários desolados que não inspiram quaisquer belezas, e nem por isso se vêem livres de passagens belas, tristes, humanas enfim.

Não enxergamos mais. Os lugares pelos quais passamos, as pessoas com quem temos contato, isso tudo apenas se vê. E a imagem refletida no espelho também não está livre da nossa indiferença de cada dia. Cegar é uma bênção. Uma bênção para que não percebamos o que nos tornamos, aonde chegamos e para onde vamos.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Postado por Mateus Campos

Suassuna, sua sina

O paraibano Ariano Suassuna completou 80 anos no dia 16 de junho deste ano, e nada mais justo do que mencioná-lo e destacar um trecho da sua obra mais conhecida, o Auto da Compadecida.

Ao contrário da maioria, pelo menos assim acredito, o primeiro contato que tive com a obra foi por meio do livro, e não da minissérie ou do filme. Qualquer que seja o caminho pelo qual se conheça a obra, a qualidade é indiscutível. Com muita crítica e bom humor, Suassuna traça o perfil do sofrido povo do sertão do nordeste e contribui para a formação de uma literatura brasileira com suas dezenas de peças para o teatro.

No trecho que segue, o personagem João Grilo acabara de morrer, e o fiel escudeiro Chicó lamenta a perda do amigo. Um dos raros momentos em que os risos dão lugar à reflexão pelas palavras de Chicó, a saber:

João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.

Postado por Mateus Campos

Publicado em: on Julho 26, 2007 at 10:00 pm Deixe um comentário
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El Zorro

Filme de clichês, entretanto apaixonante.

 Don Rafael Montero mostra sua ‘visão’ a Alejandro Murietta, Capitão Love e alguns aristocratas da época. Querem comprar a Califórnia do general Santa Anna com o ouro extraído do próprio território. Crianças e idosos são usados como escravos. Surgem de uma mina Jack Três Dedos, lendário bandido, capturado por Capitão Love:

Jack Três Dedos: -Ora, ora, corja! Vocês com suas roupas limpas, cheirosos, não deixam de fazer parte de uma corja!

Capitão Love: – Nem liguem pra ele. Não passa de um ladrãzinho.

Jack: -Sou ladrão. Roubo ouro e dinheiro, e vocês que roubam a alma das pessoas.

 Postado por Mariana Rocha de Freitas

Publicado em: on Junho 22, 2007 at 10:28 pm Deixe um comentário