Todos os anos uma vela se acende
só para ser consumida em seguida
em um ritual sem senso.
Ela nos lembra que o tempo
é marcado e dominado pelo fogo
símbolo da despedida e da
pequena morte.
Pois a grande despedida já vem
e não será definitiva.
Hoje, dia em que as circustâncias te levam
mais um pouco de vida, fecha os olhos;
preenche com a fumaça da chama recém-extinta
o vazio do peito.
O ar carregado com acenos de mãos.
Vai, e volta se quiser.
Aqui vai ter sempre um lar.
Pelo menos pra mim há claramente coisas em nós que nos distinguem e que passam longe da conclusão que os outros têm sobre nós (embora o Machado ache que isso é mentira, que nós mais pensamos que somos do que somos realmente – mas eu concordo com ele em absoluto, também!). Não quero apaziguar o desconforto que causa a leitura do Machado, mesmo porque você sabe que eu gosto muito de coisas incômodas, mas acho que o conto, como qualquer teoria (já que ele se subintitula teoria) não abrange o todo e a variedade, ainda mais da “alma humana”.
Um exemplo prático do que eu quero dizer é o fato de termos sorte o suficiente para conseguirmos escrever. A nossa produção é uma prova do que temos por dentro e que quase sempre (e por isso escrevemos) é um despejo, um grito que confronta o que é pensado ou dito por aí, ou mesmo que não se oponha frontalmente, contrasta de leve. E nesse sentido acho, sinceramente, que podemos sim ser “individualmente”, embora não só. Por isso é bom que pensemos sempre no conjunto, ainda que no momento estudando só o Machado. É bom lembrar dos outros escritores e o acúmulo de impressões diversas sobre o mundo que as leituras sugerem. Pois afinal é a graça da literatura, aquelas opiniões que nos convencem, mas que, se comparadas umas às outras, se sobrepõem, se desmentem, tornam-se contraditórias e se mostram insuficientes se isoladas, mas, mesmo depois de tudo isso, continuam com sua força inicial e nos convencendo como no início… Porque nós mesmos somos muito contraditórios e oscilantes, uma bagunça interior que convive junto o tempo todo.
***
Como disse Juca Kfouri em um programa na TV dias atrás, há coisas que são ditas e escritas no particular que merecem ser postas no público para que os demais possam apreciá-las e aprender com elas. Não cito o nome da pessoa pois sequer lhe pedi autorização para isso, mas o trecho acima é parte editada de uma resposta que recebi de um e-mail sobre o desconforto causado após a leitura do conto “O espelho”, de Machado de Assis. O texto trata da opressão da alma interior pela alma exterior, ou seja, a absoluta potência da imagem que os demais têm de nós a partir do cargo e função social que exercemos contra a praticamente inexistente qualidade interior. Achei as palavras tão fortes, significativas e verdadeiras que decidi colocá-las aqui no blog. Se a pessoa estiver de acordo, revelo a identidade em breve. Basta saber que é de autoria de alguém que prezo como poucos.
Aquilo que não se explica porque não há necessidade.
Em um mundo no qual as palavras por vezes não ajudam
prefiro tentar compreender com olhares.
No meio de quatrocentos nos achamos.
Quando me deparo com meu reflexo já não sei quem vejo.
Sinto que você mora no cenário dentro
do meu espelho, apesar de a distância física me desmentir.
Sentir é melhor do que ver;
maravilhar-se com prosa e poesia confusas
vale mais que demonstrar e provar pela matemática.
Os nossos pensares são um – entendemo-nos
e não conseguimos no entanto traduzir aos demais
o que acontece. Poucos falam nossa língua.
E um dia eu sei – você, o violão; eu, o piano.
Funcionamos porque há o desinteresse
a troca de favores não faz parte dessa
relação que quase não é humana.
O prazer que temos ao falar é o mesmo
que experimentamos ao ouvir.
Procuro algo para crer, mas é difícil.
Porém, por mais que me tente, a ideia
do acaso não pode ser o bastante nesse caso.
É a metafísica, o trascendental. Destino?
Não me agrada o termo, e sim o que ele denota.
Você é raridade.
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A Bru é o tipo de pessoa que merece um texto desse por dia. Ela é dessas raras que nos mostram que a vida pode valer a pena. É minha irmã.
E lá se vai mais um manezinho…
Não aquele bailarino de pernas tortas,
mas um cavalheiro, um guerreiro, um brasileiro.
As madeixas cacheadas saltitantes
e o grito indefectível iniciavam a sinfonia.
Que podia durar horas, e ninguém se importava.
A orquestra tinha como palco a França, principalmente.
Porém o coração esteve sempre do lado de cá.
A arma machucava com o golpe esquerdo.
Mas todos aplaudiam aquela barbaridade.
O inimigo morria com um sorriso nos lábios.
Não se podia crer.
Não se podia crer como alguém tão magro,
esquálido até,
tivesse uma potência tão assustadora.
E ele respondia com carisma.
Era uma humildade honesta.
Era um caráter irretocável.
Era um guerreiro incansável.
Era alguém que ria da adversidade.
Era o representante de todas as nações.
Era um campeão com qualidades quase infinitas.
Era a personificação daquilo que se espera de uma lenda.
É…
E acabou.
Sai o lutador, entra o ser humano.
Que agora deve ficar longe das arenas.
A memória, entretanto, não há de falhar.
Falaremos sobre ele, escrevemos em sua homenagem.
E mesmo assim, retribuir à altura será impossível.
As lágrimas que vertemos vêm involuntárias
embaçam e transbordam a garganta.
Você veio e se foi tão rápido.
Mas o que fez… Sem igual.
Em uma palavra,
obrigado.
***
Gustavo Kuerton encerrou hoje (ontem), 25 de maio de 2008, sua carreira como tenista profissional. Ele conquistou 20 títulos de simples e deixa as quadras com 31 anos de idade. Isso é o mínimo que acho que posso fazer por um cara que me fez querer ser como ele, sendo que até fiz aulas de tênis durante alguns anos. Valeu, Guga!
Abaixo, a despedida de Guga dos torneios oficiais aqui no Brasil.
A pretensão, Rúbia, daqueles que me precederam
terei jamais. Minha obra,
se tais rabiscos merecem qual denominação,
servir-te-ão para primavera perenizar.
Tu, que dos céus infortúnios e tormentas
recebeste tal dilúvio divino e desditoso,
já, em vida, tua parte sofreste.
Que o papel dure, assim, tanto quanto
os deuses ainda te dão no mundo;
que pereça, tão logo te despedes.
22/08 – 6:20 p.m.
***
Impossível não assistir a uma aula de Clássicos e não se inspirar com Catulo, Horácio e outros grandes nomes. Simples assim.
El maestro silencioso y triste
que nunca sonríe.
Para coordinar los instrumentos
es necesario ritmo, gracia.
Los tiene.
Violín y piano en compaso.
La orquestra no tiembla.
Pulsa.
A pesar de los movimientos delicados
está en una guerra.
Maestro y general a la vez.
El uniforme azul no teme
la multitud verde.
Hoy tampoco teme su propio color.
En la batalla no mata desordenadamente.
Se queda en un rincón esperando
calmo y paciente como la nota
El momento de brillar llega.
Noble, solo
sólo se ve magia en el caminar.
El correr para la muerte no lo asusta.
De esta forma
tiene el mundo a sus pies.
Fuera de sus dominios
el ejército azul sigue grande.
El que carga la diez derrotó
a más de cuarenta mil:
Alrededor, el llanto del público.
Los enemigos murieron.
La sinfonía quedó bella.
Ahora saben que en la tierra
no hay inmortales.
Sonrió.
Y volvió.
21/06/07 – 1:34 p.m.
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Não entendo quase nada de futebol, mas ontem assisti à final da Libertadores entre Grêmio e Boca Juniors. No primeiro confronto, semana passada, deu Boca: 3 a 0 na Bombonera. Novamente, a equipe argentina venceu os brasileiros com expressivos 2 a 0 e conquistaram pela sexta vez a América. O responsável: Juan Román Riquelme, o 10 que, em decisões, quase sempre merece a nota da camisa que ostenta. Estava emprestado ao Boca, agora regressa ao Villarreal da Espanha. Foi-se.