Respiro

Nem sei se tenho condições de falar a esse respeito pois ainda mal aprendi a viver. Entretanto, se as coisas estão difíceis e há pouco o que fazer, respire. É o que tenho feito todos os dias ao sair de casa e vir para o trabalho. Respiro porque sei que nessa maré eternamente mutável, as águas que passam ainda são gentis e se renovam, e o mar pode me trazer o inesperado.

Nem sempre o inesperado é bom. E se não é, eu sorrio. Se é, também. Disso não me esqueço, e peço para os demais também não se esquecerem. Quando toda a esperança parece perdida, quando pensamos em nos entregar aos ventos do mundo e nos deixar levar, é então que acontece. Sabe a história de que se encontra quando não se procura? É isso.

Não desista. Do ser humano, de você mesmo. Ninguém vai lutar por nós. Admito que falar sempre foi mais fácil do que fazer e às vezes tenho que escutar as minhas próprias palavras. Por isso escrevo. Para que, quando você leia, me lembre daquilo que um dia seus olhos contemplaram. Não me deixe desistir. Este será o meu único pedido.

And that’s when this feeling came over me like a warm blanket. I knew, somehow, that I had to stay alive. Somehow. I had to keep breathing. Even though there was no reason to hope. And all my logic said that I would never see this place again. So that’s what I did. I stayed alive. I kept breathing. And one day my logic was proven all wrong because the tide came in, and gave me a sail. And now, here I am. I’m back. In Memphis, talking to you. I have ice in my glass… And I’ve lost her all over again. I’m so sad that I don’t have Kelly. But I’m so grateful that she was with me on that island. And I know what I have to do now. I gotta keep breathing. Because tomorrow the sun will rise. Who knows what the tide could bring?

Tom Hanks, Cast Away (Náufrago)

Postado Por Mateus Campos

Uma sinfonia

Para os dias em que não há mais o que fazer. Quando ninguém consegue resolver um problema e, mesmo que você não acredite, você quer que uma força superior tenha controle sobre o destino. Aquelas promessas que, evidentemente, só vêm na hora da dificuldade. E mesmo assim você não as cumpre.

Para os momentos nos quais não há a quem apelar. Pelo menos não é alguém que se encontre aqui fisicamente. Estes são aqueles segundos em que a sua fé passa a existir porque o desespero se torna imensurável. Afinal, nessas ocasiões temos que nos prender a algo mais poderoso, sábio. A crença depende de tempo e contexto. Muitos se sentem assim.

Well I never pray but tonight I’m on my knees, yeah.

Bittersweet Symphony, The Verve

Postado por Mateus Campos

Versão humilde do que é poesia

Há alguns dias postei a definição de Paul Valéry sobre a poesia e agora escrevo a minha. Nem preciso dizer que não tem comparação, pois o que segue é uma visão muito fechada sobre a poesia quando, na verdade, ela é infinitamente maior do que isso. Mesmo assim, lá vai.

Poesia é a arte da qual se valem os românticos e os covardes para exprimir tudo o que sentem à pessoa amada. Ora se está de um lado, ora do outro.

Postado por Mateus Campos

Segue girando

É verdade que sou suspeito para falar, mas fico irritado quando as pessoas vêem os videogames como algo fútil. Tudo bem, reconheço que há jogos que não têm propósito e se resumem a tiroteios desenfreados, mas generalizações serão sempre perigosas. Se todos pudessem jogar até o final um game da série Final Fantasy, por exemplo, elas saberiam que ali se encontram dramas, comédias, medos, inseguranças, alegrias, glórias e fracassos.

Abaixo, uma frase da personagem Lulu, justamente de Final Fantasy X. Gosto de encarar tais palavras como uma esperança viva de um futuro que não se mostra promissor por causa de um presente conturbado.

No matter how dark the night, morning always comes.

Postado por Mateus Campos

No fim

A lua sai do céu;
sobram as estrelas,
mas elas não se sustentam
sem orientação.

Vão matar a poesia.
Enterrar versos que outrora
fizeram rir e chorar.
Emoções e sentimentos
cessam por completo.

Silêncio
a casa está vazia agora
assim como o palco.
Toda luz que um dia
refletiu sorrisos e lágrimas
se extinguiu.

Antes do fim
os homens começam a cair.
Nada parece funcionar
e agora só resta voltar pra casa.

De que valeram todas as canções
se hoje a vitrola está quebrada?
Tempo que não volta;
aproveitar o que ainda falta
Já tanto faz…

O som se esvai até que morre.
A nota é errada, trêmula.
A música não respira mais.
Então ficamos assim:
o último já está apagando a luz.

10/04/2007 – 08:15 p.m.

 

***

 

Escrevi o texto depois que um amigo me disse que uma das bandas nacionais que mais gosto iria acabar. Na verdade, não seria o fim deles, mas o vocalista, o cara que compõe as músicas e é o poeta da banda, estaria abandonando o barco. O caso é que a situação parece ter mudado, e nem mesmo um dos integrantes do grupo, depois que conversei com ele, sabe o que vai acontecer. Prefiro não revelar quem são, mas é provável que algumas pessoas identifiquem, já que alguns versos não são de minha autoria.

É, este foi um perído triste pra mim. Primeiro, anunciaram que o Giovani, baixista e vocalista da banda curitibana Faichecleres, estava de saída. Depois, vieram os Los Hermanos e divulgaram uma pausa indeterminada. E ainda tinha mais essa. Vamos ver onde tudo vai parar.

A impressão é de que tudo está ruindo e me abandonando. E não é que, no final, só nós é que sobramos? Descontruídos, mutilados e vazios. Mas sobramos.

Postado por Mateus Campos

O silêncio à palavra

Melhor do que as aulas que tive na faculdade sobre o dramaturgo, novelista e poeta irlandês Samuel Beckett é ler a sua obra. Infelizmente, até hoje só li uma de suas peças, Fim de Partida, um livro enxuto e permeado por pausas e silêncios – fico imagindando como seria assistir a um espetáculo assim em que predomina a ausência de sons.

Eram as aulas nas quais eu mais tinha atenção, já que o professor sempre escolhia bons livros e falava sobre aquilo de maneira apaixonada e cativante. Ainda tenho as anotações, e com certeza falarei mais de Beckett sempre que possível aqui no blog.

Ele retrata a sociedade pós-moderna horrorizada por duas guerras mundiais, mutilada e sem perspectivas para o futuro. Apesar disso, a destruição de um reino sempre traz em si uma semente para a construção de algo novo, por mais adversa que a situação possa se apresentar. Como explicar os diálogos rápidos, secos e, à primeira vista, sem significado? Beckett achava que a palavra não poderia exprimir a verdade, e destaco abaixo uma das intervenções que meu professor teve durante as aulas.

A verdade está no silêncio, além do mundo das palavras.

Postarei trechos maiores do livro num futuro próximo, mas por enquanto deixo apenas uma das falas que me marcaram em Fim de Partida.

A gente chora, chora por nada, para não rir, e aos poucos vai se sentindo triste de verdade.

Postado por Mateus Campos

Definindo a poesia

Recentemente, li um texto muito bom de Manuel Bandeira em que o poeta falava sobre as distintas definições de poesia. Gostaria de compartilhar aqui a frase de Paul Valéry presente neste ensaio, que, como bem define Bandeira, já se trata de um pequeno poema.

Poesia é a tentativa de representar ou de restituir por meio da linguagem articulada aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir.

Logo menos postarei a minha visão sobre a poesia que formulei após a leitura do texto. Possivelmente escreverei ainda mais frases de autores diferentes que tentam definir essa arte da qual somos todos aprendizes e mestres a uma só vez e voz.

Postado por Mateus Campos