Suassuna, sua sina

O paraibano Ariano Suassuna completou 80 anos no dia 16 de junho deste ano, e nada mais justo do que mencioná-lo e destacar um trecho da sua obra mais conhecida, o Auto da Compadecida.

Ao contrário da maioria, pelo menos assim acredito, o primeiro contato que tive com a obra foi por meio do livro, e não da minissérie ou do filme. Qualquer que seja o caminho pelo qual se conheça a obra, a qualidade é indiscutível. Com muita crítica e bom humor, Suassuna traça o perfil do sofrido povo do sertão do nordeste e contribui para a formação de uma literatura brasileira com suas dezenas de peças para o teatro.

No trecho que segue, o personagem João Grilo acabara de morrer, e o fiel escudeiro Chicó lamenta a perda do amigo. Um dos raros momentos em que os risos dão lugar à reflexão pelas palavras de Chicó, a saber:

João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.

Postado por Mateus Campos

O nascer de uma metáfora

Você quer um copo d’água?

Eu quero. Traz meio vazio para mim.

Não, vou trazer um pequeno completamente cheio, então.

 

 

 

Disse, mas naquele momento nem me dei conta. Ela, prontamente, rebateu sobre a metáfora contida nas palavras. Fiz bem em anotar, apesar de a reprodução não me parecer tão exata como gostaríamos.

Preencher os espaços com algum sentimento, seja ele da natureza que for. Entre nós jamais poderá ser frio, e ela sabe. A plenitude do copo cheio, transbordando com o que representa vida. Faltar, sobrar, jamais – quero que seja intenso, vívido, completo, total. E, acima e antes de tudo, quero ser o seu eterno fornecedor – de alegrias, preferencialmente.

Postado por Mateus Campos & Mariana Rocha de Freitas

Instantes

Você me deixa sem palavras, sem ações…sem expressão
e você vai me guiar amanhã…
porque vai ser complicado…

Eu te guio
É só você fechar os olhos…e segurar bem forte a minha mão

Vou sim
só que não me solte
eu posso cair

Antes que você toque o chão, eu estarei lá.

29/03 – 3:36 p.m.

***

 

Por mais insólito que possa parecer, essa conversa se deu via msn. Naturalmente, sem forçar. As palavras vieram assim. É por isso que acreditamos que a poesia está em toda parte.

Postado por Mariana Rocha de Freitas & Mateus Campos

Despedida

Mais um para todos
O derradeiro para mim.
A banalidade abalada do cotidiano
subitamente interrompida:
um dia como outro qualquer
só que mais triste.

Detalhes que sempre estiveram ali
insignificantes
que por sua natureza não eram notados.
O ignorante não sabe que a beleza
repousa onde menos se espera.

Ato que corrói a alma
este, o de recolher o que se levou anos para erguer.
Em cada objeto, lembranças.
Deixo um para não ser esquecido.

Então antes fosse uma pedra
para não sentir.
Mas eu me importo.
O mundo não é de quem sente.
A caminhada final é curta, quase um piscar
então antes fosse longa
para que a hora jamais chegasse.

A cena se encerra com um abraço fugidio
Econômicas, solúveis palavras.
Tudo está dito sem o falar.
Os olhos comunicam e expressam
e, assim,
anos se resumem.
Ir e não voltar.

O coração falha
pois a cada um distribui-se uma parte.
A despedida é a forma mais lenta de morrer.

02/07/07 – 09:10 p.m.

Postado por Mateus Campos