Rúbia

A pretensão, Rúbia, daqueles que me precederam
terei jamais. Minha obra,
se tais rabiscos merecem qual denominação,
servir-te-ão para primavera perenizar.
Tu, que dos céus infortúnios e tormentas
recebeste tal dilúvio divino e desditoso,
já, em vida, tua parte sofreste.
Que o papel dure, assim, tanto quanto
os deuses ainda te dão no mundo;
que pereça, tão logo te despedes.

22/08 – 6:20 p.m.

***

Impossível não assistir a uma aula de Clássicos e não se inspirar com Catulo, Horácio e outros grandes nomes. Simples assim.

Postado por Mateus Campos

Céu de baunilha

The little things. There’s nothing bigger, is there?


Frase presente no filme Vanilla Sky. Num dia qualquer, quando alguém parar para refletir e pensar sobre o que valeu a pena pela passagem por aqui, o que terá ficado? Para mim, um abraço, um sorriso, uma tarde com quem se gosta, uma piada que só você entende, um beijo.

Respondo a uma pergunta do filme com a frase ali de cima. O que é felicidade para você?

Postado por Mateus Campos

Leve, suave e breve

Vamos viver, minha Lésbia, e amar,
e aos rumores dos velhos mais severos,
a todos, voz nem vez vamos dar. Sóis
podem morrer ou renascer, mas nós
quando breve morrer a nossa luz,
perpétua noite dormiremos, só.
Dá mil beijos, depois outros cem, dá
muitos mil, depois outros sem fim, dá
mais mil ainda e enfim mais cem – então
quando beijos beijarmos (aos milhares!)
vamos perder a conta, confundir,
p’ra que infeliz nenhum possa invejar,
se de tantos souber, tão longos beijos.

***

Poema escrito por Catulo, contemporâneo de Júlio César, traduzido brilhantemente por João Angelo Oliva Neto. O professor de estudos Clássicos tem lido vários textos do Catulo e está se tornando um dos meus poetas favoritos. Quando o Doutor Paulo Martins terminou a leitura dessa poesia, ele disse que se arrepiou. E eu também. Não é difícil imaginar por quê.

Postado por Mateus Campos

A cegueira nossa de cada dia

Deixar de existir e, paradoxalmente, seguir com a vida. Enxergar nada mais do que uma tela branca, antes sinônimo de paz, tranqüilidade, e hoje pânico, desespero e trevas. Os cegos não existem para ninguém a não ser para eles mesmos, sendo obrigados a olhar para dentro de suas almas e tentar encontrar ainda algum resquício de humanidade quando o restante dela se calou. Uma coisa é a população composta por alguns representantes deste grupo, outra bem distinta é quando toda uma cidade foi afetada pela cegueira.

Mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

Saramago, no seu ritmo sem pressa e ao mesmo tempo fluido, conta uma história e apresenta uma sucessão de acontecimentos que parecem não deixar dúvida: se o conto tivesse mesmo veracidade (e o tem em vários aspectos), o leitor sente que a fala de determinado personagem seria exatamente aquela, a desgraça, a alegria e a tristeza experimentadas aconteceria daquela mesmíssima forma que o português ali relata.

Não há motivos para sorrir. E chorar, quase sempre, faz bem. É certo que por vezes é a melhor forma de transmitir uma idéia, um sentimento.

Cala-te, […] calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida.

Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos.

Uma única personagem, a mulher do médico, não foi acometida pelo mal branco. Vive todos os dias a angústia de ser a próxima afetada, uma sensação que se estende até a última página do livro. O escritor português invalida por completo o ditado que afirma que é rei aquele que tem olho em terra de cego. O porquê fica evidente e a própria personagem resume com maestria a explicação.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o.

Talvez o ser humano tenha de cegar para ver. Vemos mas não enxergamos. A cegueira torna as coisas mais claras e definidas, a extinção de um sentido apura os demais, e pode ser que desta forma conheçamos a real essência do homem. Também é verdade que ele deixa de ser o que foi para renascer em uma massa que vai sendo moldada do início, é como apagar o que havia na folha e torná-la branca novamente.

Branco é tudo o que se vê. E as linhas que Saramago vai desenhando e traçando são repletas de poesia, uma poesia que vem em texto corrido e que é retratada em falas, pensamentos e em um cão, cuja função primeira é enxugar as lágrimas da mulher do médico. Uma poesia fina tecida dentro de em um manicômio que fede a vômito e uma cidade às escuras, cuja escuridão, para os habitantes, não é preta. Cenários desolados que não inspiram quaisquer belezas, e nem por isso se vêem livres de passagens belas, tristes, humanas enfim.

Não enxergamos mais. Os lugares pelos quais passamos, as pessoas com quem temos contato, isso tudo apenas se vê. E a imagem refletida no espelho também não está livre da nossa indiferença de cada dia. Cegar é uma bênção. Uma bênção para que não percebamos o que nos tornamos, aonde chegamos e para onde vamos.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Postado por Mateus Campos

Naturalmente humano

Catavento jogado aos quatro ventos
é o que sou.
O vento vem lento.
Atiro interrogações ao mar
mas ele não pára para
reparar no que acontece.
E o riacho?
Ele ri, acho.
Pelo menos o sol é solidário
e só, mas só.
Imita-me por inveja porque
durante algumas horas
queria não ter brilho algum.
A lua, no lugar dele,
não;
logo que ladeia a linha
do horizonte longe
traz consigo um exército.
Gosta de mostrar que tem amigos.

É então que percebo:
essa estranha, mas coerente explicação
se faz presente.
Olhar para natureza
é reconhecer-se num espelho.
Abandonada, confusa
Decidida, sorridente
Isolada, acolhida.
Ela é assim.
Sou cria sua
então eu também.

08/06/07 – 09:46 p.m.

Postado por Mateus Campos