A cegueira nossa de cada dia

Deixar de existir e, paradoxalmente, seguir com a vida. Enxergar nada mais do que uma tela branca, antes sinônimo de paz, tranqüilidade, e hoje pânico, desespero e trevas. Os cegos não existem para ninguém a não ser para eles mesmos, sendo obrigados a olhar para dentro de suas almas e tentar encontrar ainda algum resquício de humanidade quando o restante dela se calou. Uma coisa é a população composta por alguns representantes deste grupo, outra bem distinta é quando toda uma cidade foi afetada pela cegueira.

Mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

Saramago, no seu ritmo sem pressa e ao mesmo tempo fluido, conta uma história e apresenta uma sucessão de acontecimentos que parecem não deixar dúvida: se o conto tivesse mesmo veracidade (e o tem em vários aspectos), o leitor sente que a fala de determinado personagem seria exatamente aquela, a desgraça, a alegria e a tristeza experimentadas aconteceria daquela mesmíssima forma que o português ali relata.

Não há motivos para sorrir. E chorar, quase sempre, faz bem. É certo que por vezes é a melhor forma de transmitir uma idéia, um sentimento.

Cala-te, […] calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida.

Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos.

Uma única personagem, a mulher do médico, não foi acometida pelo mal branco. Vive todos os dias a angústia de ser a próxima afetada, uma sensação que se estende até a última página do livro. O escritor português invalida por completo o ditado que afirma que é rei aquele que tem olho em terra de cego. O porquê fica evidente e a própria personagem resume com maestria a explicação.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o.

Talvez o ser humano tenha de cegar para ver. Vemos mas não enxergamos. A cegueira torna as coisas mais claras e definidas, a extinção de um sentido apura os demais, e pode ser que desta forma conheçamos a real essência do homem. Também é verdade que ele deixa de ser o que foi para renascer em uma massa que vai sendo moldada do início, é como apagar o que havia na folha e torná-la branca novamente.

Branco é tudo o que se vê. E as linhas que Saramago vai desenhando e traçando são repletas de poesia, uma poesia que vem em texto corrido e que é retratada em falas, pensamentos e em um cão, cuja função primeira é enxugar as lágrimas da mulher do médico. Uma poesia fina tecida dentro de em um manicômio que fede a vômito e uma cidade às escuras, cuja escuridão, para os habitantes, não é preta. Cenários desolados que não inspiram quaisquer belezas, e nem por isso se vêem livres de passagens belas, tristes, humanas enfim.

Não enxergamos mais. Os lugares pelos quais passamos, as pessoas com quem temos contato, isso tudo apenas se vê. E a imagem refletida no espelho também não está livre da nossa indiferença de cada dia. Cegar é uma bênção. Uma bênção para que não percebamos o que nos tornamos, aonde chegamos e para onde vamos.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Postado por Mateus Campos

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