Tempestades

A água que caía do céu tão absoluta parecia ter se cansado. E já há alguns minutos aguardava a saída dele para que, como se estivessem participando de uma brincadeira, voltasse a despencar sobre aquele corpo desprotegido, magro e vertical. A falta de roupa adequada para a ocasião era justificada por uma tarde abafada de verão tropical. E mesmo assim, sair às ruas usando calças e tênis e até uma camiseta poderia ser pior, já que a água, quando feroz e infinita, abraça as pessoas desconfortavelmente, e lá permanece até que se livrem dos trajes.

O guarda-chuva não poderia ser mais infeliz e solitário – ninguém o tem em alta estima. Porém, naquele momento, ele dava motivos para que fosse odiado. Não conseguira manter a promessa de abrir a asa protetora e evitar o que se queria; em vez disso, deixou-se levar pela ventania que fazia companhia a uma chuva irritada. Não havia mais como seguir em frente, apesar de a farmácia estar a aproximados cem metros de onde se encontrava. O primeiro reflexo que teve foi o de se abrigar sob o toldo de uma pizzaria enquanto o guarda-chuva infeliz e solitário, e agora agonizante, se entregava e nem se esforçava por lutar.

– Apóia ele do lado contrário, força ele no chão, alguém disse de dentro da pizzaria.

Não havia mesas dispostas e talheres trabalhando ali, pois o espaço era muito pequeno para receber convidados que porventura quisessem jantar ao som da cachoeira natural. De qualquer modo, assim o fez ao conselho do senhor, e o guarda-chuva voltou a respirar. Não agradeceu, o dono do guarda-chuva hesitou em entrar lá e preferiu repousar embaixo do toldo verde, vermelho e branco, ele próprio tendo criado uma cascata com aquelas lágrimas derramadas sem o menor pudor. Não tinha sido convidado a entrar, mas tampouco o impediram de ficar ali, possivelmente solidários pela imagem de alguém injustamente castigado. A partir daí, a relação entre aqueles que estavam na pizzaria e o rapaz foram como são todas as relações entre as pessoas – indiferente, calada e tensa. “Já vai passar, já vai passar”, pensou.

– Olha que legal que tá caindo essa água, falava o senhor, não exatamente esperando uma resposta, pontuando suas intervenções retóricas com a mesma frase, como se marcasse os minutos. À esquerda do rapaz, um motoqueiro aguardava a hora de sair em mais uma jornada, que se não era longa, seria sem dúvida tortuosa. Perto dele, um cano denunciava a potência da chuva ao cuspir a água no chão já encharcado na entrada da pizzaria, com um tapete de cor escura completamente à mercê da força natural. De dentro daquele lugar, misto de ambiente receptivo e gelado, saiu um senhor de bigodes grisalhos preocupado com a casa do lado. É que uma vez a calha estava entupida e a água subiu e entrou aqui, ele disse, curiosamente olhando para o rapaz, que não sabia se devolvia o ato ou se fingia que não era com ele. Já vai passar.

O céu exibia um espetáculo de flashes. Incansável, autoritário, único. Olha que legal que tá caindo essa água. Sem se dar conta, o rapaz havia recuado um pouco mais em direção à pizzaria, como a área abaixo do toldo não era poupada pelo desconforto de início de noite. Experimentava sensações adversas, tendo as costas aquecidas pela chama do forno à lenha e tendo a frente agredida por sopros e esguichos. A sinfonia local era composta pela TV, algumas poucas vozes e o fenômeno. De resto, o silêncio, parecia que quem presenciava aquilo nunca falara antes e respondia tudo com os olhos.

Aparentemente haviam desligado o registro lá em cima. A trégua momentânea podia ser comprovada pelo cano, que não mais conduzia litros e mais litros até o ralo. Mas a um segundo, a chuva voltou da sua pausa, porém sem a mesma arrogância e má educação de outrora. Todos cansamos, e desta vez não teria razão de ser diferente. Dali a pouco seria a hora de abandonar o ócio e a contemplação e rumar enfim ao banal destino. O que se esqueceu, entretanto, é que a chuva não acaba quando termina.

O caminho pela rua que levava à avenida foi rápido e cheio de cautela. A rua parcialmente alagada exigia dele certa habilidade para traçar a melhor rota e evitar ainda mais estragos. Chegando à esquina, viu a correnteza que fora forjada a mãos porcas, que carrega consigo lixo e água podre frutos do descaso e egoísmo. Mas logo se iria constatar o seu próprio egoísmo, pois acima de tudo desejava ir à farmácia e regressar à casa com urgência. Então, contornou e enveredou pela direita para escapar à correnteza, que facilmente lançaria em sua direção uma onda ao simples passar dos carros. Já podia vislumbrar a farmácia à frente, bastaria cruzar o riacho para atingi-la.

Refletindo e analisando o caminho ideal, escutou de súbito um ruído seco. À esquerda, um carro devagar, e perto dele, um cobertor possivelmente abandonado no meio da via descia empurrado pela pressa da correnteza. Estranhamente, no entanto, quando o cobertor se aproximou do rapaz, o que tinha feições de uma manta passou a ter braços e pernas estirados, imóveis, boiando, sem qualquer pretensão de vencer um adversário que se sabia superior em quaisquer aspectos. O carro acelerou e logo estacou, atrás dele cinco ou seis desciam e corriam horrorizados. E o rapaz estático, paralisado, como se a chuva não mais tivesse a característica de molhar os homens, e sim de anestesiá-los e fixá-los onde estivessem.

Mas a farmácia estava tão perto. Olha que legal que tá caindo essa água, lembrou-se confuso. Atravessou, ainda olhou na direção do carro e dos homens quando chegou ao outro lado, mas já não se via mais nada. Os empregados lhe encobriam parcialmente a visão, e a verdade é que ele não empregava forças para se esgueirar e ver o que acontecia. Também não parecia que, dali a cinco minutos, a avenida estaria tão calma que ninguém poderia imaginar o que sucedera.

Na farmácia aconteceu o que deveria acontecer. A volta foi sem surpresas.

Postado por Mateus Campos

Só entende quem é

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.

Clarice Lispector no conto A imitação da rosa

Postado por Mateus Campos

Cinco minutos

Nunca cinco minutos estiveram tão
presentes na língua dos homens.
Na língua e nos corações.
Tão breves, tão serenos, tão ocos, tão pó.
A vontade é que o caminho tome
proporções épicas; que o banho
dure a eternidade que se sabe efêmera.
Que o porvir se estenda indefinidamente.
Mas números e ponteiros são
apressados como o que se atrasa.
E cinco minutos acabam sendo
cinco minutos.
Talvez um pouco menos.
Ou então muito mais.
É o tempo de um sonho
é o tempo de abrir e fechar
é nada, ainda que tudo
é o que se leva para falar sobre ele.

09/02/2008

Postado por Mateus Campos