Um

Pelo menos agora o 16 de maio não será conhecido apenas como o dia do aniversário deste que escreve. Foi neste momento que surgiu o blog “O Fazer Escrito”, que hoje completa o primeiro ciclo do que se convencionou chamar “ano”. Em vez de um texto de minha autoria, passo a palavra hoje àquele que realmente entende do assunto. Vi este poema de manhã na aula do genial José Miguel Wisnik, que já compõe a relação de professores memoráveis da Universidade.

Consolo na praia – Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

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