Testamento

Fico pensando o que poderia ensinar
para alguém em um poema.
(Como se a poesia tivesse que ter uma moral…)
Eu, que praticamente não vivi e não tenho conflitos
o que teria de lição para compartilhar?
Alguém que passa bem, sem preocupações
que me fazem cair o cabelo, tão vasto e despenteado
fico pensando nos conselhos que daria a amigos
caso viessem me pedir.
O pior é que eles o fazem, e falo uma meia dúzia
de veja bens nos quais nem eu acredito
mas, enfim, amigo é amigo.

Fico pensando se minha palavra provoca alguma diferença
naqueles que prezo de verdade, poucos, mas honestos
camaradas, amados.
Que direito tenho de opinar sobre algo que me é alheio?
Que capacidades pode ter apenas um que é mais um?
Que tenho a escrever que me supere na curta história
de uma vida e que sobressaia à minha forma física?
E o que pensariam os meus se morresse sem ter
deixado um legado à humanidade, tão necessitada?
Afinal, não ajudarei em nada?!
Um livro, uma frase, uma palavra, um suspiro?
Meu nome jamais será citado como tendo sido um dos grandes?
Passarei sendo passarão ou passarinho?
Isso realmente me incomoda.

Incomodava
porque agora resolvi fazer o que faço:
escrevo sobre coisa nenhuma.

Postado por Mateus Campos

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