Benjamin Button na literatura e no cinema

Nós perdemos as pessoas que amamos porque assim descobrimos que elas são importantes
– O curioso caso de Benjamin Button (filme)

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O filme “O curioso caso de Benjamin Button” não deveria se chamar assim. Inspirado livremente no conto homônimo do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, a produção dirigida por David Fincher (Zodíaco, Clube da Luta) praticamente não contém uma linha daquilo que foi escrito em 1921 pelo autor. Além disso, a película tem qualidade o suficiente para ser tão brilhante quanto o conto, porém de uma maneira bem diversa. Fica difícil entender por que a opção de usar o mesmo nome – acredito que seja quase impossível acreditar que a escolha tenha sido tomada por uma questão de marketing, ou seja, a fim de atrair o público, pois atualmente não creio que uma obra literária seja motivo para levar as pessoas ao cinema.

Minha relação com Benjamin Button começou na semana da premiação do Globo de Ouro. Até então, nunca tinha ouvido falar nele (filme ou conto) e quando me interei sobre o enredo, tive a certeza naquela hora de que não se tratava de uma estória original – tinha um viés literário, um homem que nasce velho e segue na direção contrária dos demais, rejuvenescendo com o passar dos anos. Uma busca rápida na internet me levou a F. Scott Fitzgerald, autor o qual nunca havia lido, apesar de uma tentativa frustrada anos atrás com “O grande Gatsby”. Naquele momento já me interessei pela obra, e consegui baixar o conto na rede. Dias depois, li a obra escrita e, antes mesmo de começar a leitura, já havia assistido a alguns trailers do filme. Logo notei que, aparentemente, as referências do cinema passariam longe da outra estória. Fui com dois pés atrás para ver o longa, e me surpreendi positivamente.

Desde as primeiras cenas já percebemos as discrepâncias. No filme, uma mulher à beira da morte pede para a filha ler um diário deixado por Benjamin Button a fim de distrair-se no crepúsculo da vida. Estamos em Nova Orleans, e a iminência do furacão Katrina deixa todos no hospital em estado de alerta. A filha lê e a ação passa para o passado, quando um homem constrói um relógio para a recém-inaugurada estação da cidade. É o final da Primeira Guerra Mundial, e muitas famílias perderam os filhos nos combates. Como uma tentativa simbólica de trazer seu garoto de volta à vida, o responsável pelo relógio faz com que sua criação ande para trás, almejando uma volta no tempo, o que, obviamente, não acontece. Depois, vemos outro homem correr para uma casa e encontrar a esposa agonizando logo depois de parir. O garoto nasceu velho, enrugado, e o pai foge com ele para abandoná-lo na entrada de um asilo. Nada disso acontece no conto.

Só para não me estender em cada cena de ambos e traçar as diferenças, relato agora o que acontece no início do conto. O senhor Roger Button corre para o hospital para assistir à chegada de seu primogênito. Estamos na cidade de Baltimore em 1860 e as pessoas costumavam nascer em casa – mas tudo tinha que ser distinto em se tratando de Benjamin, até seu nascimento. Nas escadas da entrada do hospital, Roger encontra o médico da família enfurecido e este lhe pede para que nunca mais volte a vê-lo. O pai corre para saber o que acontece e encontra o filho já envelhecido, um pouco maior que uma criança de colo, e falando com desenvoltura. A mãe não morre, e a família tampouco o abandona.

Como disse no começo, não acredito que essas diferenças importem – de novo, a única coisa que me incomodou de verdade é o uso do mesmo nome para o filme. Cada um se destaca de modo único – o filme com sua estória longa e algumas frases altamente poéticas; o conto conciso, pontual e não menos lírico, pelo menos nos excertos finais. Não há o relógio que anda para trás no conto; Benjamin conhece a sua amada ainda na infância no filme, ao passo que no conto isso acontece em uma festa à qual pai e filho vão juntos, e mais para frente o casal acaba por separar-se – aliás, a relação entre os dois se mantém bem próxima na obra de Fitzgerald, o que não ocorre no longa.

O Benjamin Button de Fincher parece abraçar mais a vida do que o do conto em grande parte de cada produção. O Button de Fitzgerald é alguém que já nasce com certa experiência, pois sabe o que falar desde que vem ao mundo e exige que seu pai lhe compre roupas. Ele se comporta da maneira que a sociedade espera de um menino de seis, sete anos. Passagem emblemática que comprova isso se dá quando o pequeno velho Benjamin acidentalmente quebra uma vidraça. Seu pai o repreende, mas o filho logo nota o sorriso dele, que finalmente parecia criar uma criança tida como normal. Ao notar isso, Benjamin faz questão de deliberadamente espatifar alguma coisa com frequência ao brincar, pois é exatamente esse tipo de coisa que um infante realiza. Mais para frente, quando está entediado com a vida, Benjamin se alista no exército para ter um pouco de emoção, já que a existência estava sendo sem graça. O Benjamin de Fincher também vai para a guerra, porém motivado muito mais por uma vontade de aprender e fazer tudo que lhe era proibido por uma criação religiosa e afetiva – até o momento em que sua mãe de criação engravida e passa a dar-lhe menos atenção. Ele cresce na companhia de velhos, achando que é um deles e que vai morrer a qualquer momento, sem ter liberdade para ver o que há na esquina. Essa falta de vivência, experiência, ou melhor, esse desconhecimento e ignorância sobre a vida fazem com que o Benjamin de Fincher seja mais apaixonado que o seu par literário.

Pensava que o rejuvenescimento de Brad Pitt seria abrupto no filme, como se de repente ele passasse de um senhor a um homem de 30 e poucos, mas me enganei. O ritmo do longa é sensivelmente mais compassado que o conto, e o processo inverso que acontece com Pitt é gradual, demorado, lento. Em termos de maquiagem, não consigo imaginar algo com maior denodo do que acontece neste caso. É um trabalho memorável e digno de louvor.

Dois elementos em especial chamaram muito a minha atenção no longa. O primeiro é o já mencionado relógio. Há algo de muito bonito nele, algo que faz pensar não sei exatamente em quê. Um relógio que volta, uma pessoa que volta ao ponto inicial. Outra coisa que me chamou a atenção é o beija-flor. A estória é contada por um marinheiro que trabalha em um rebocador junto com Benjamin. Em um bar, ele diz a outros marujos que a asa de um beija-flor bate dezenas de vezes por segundo, e que se ele ficar dez segundos sem movimentá-la, morre. Além disso, ele conta que estudos mostraram o formato da extremidade da asa de um beija-flor quando está batendo. É o número oito deitado. “E o que significa isso na matemática?”, ele pergunta. “O infinito”, responde Benjamin para si mesmo. Uma asa que precisa bater para ter sentido, um relógio que não para nem mesmo em uma adversidade, como vemos no final do filme. E acaba sendo o que Benjamin fala nos momentos derradeiros. Algumas pessoas nasceram para dançar, outras para declamar Shakespeare, outras para serem atingidas por raios. Acho que tudo fica mais fácil quando descobrimos para que nascemos. O importante, e isso nos mostra com clareza “O curioso caso de Benjamin Button” (conto e filme), é que não terminemos como começamos, uma página em branco, um rascunho que ainda está por ser preenchido. Vamos escrever, desenhar e pintar nossa folha.

Leiam o conto, assistam ao filme.

P.S. – João Pereira Coutinho escreveu na Ilustrada da Folha em 27 de janeiro de 2009 um texto sobre Benjamin Button. Recomendo a leitura, apesar de não concordar com alguns argumentos, especialmente aquele em que o colunista diz que certos diálogos do conto são hilários. Na verdade, acho que adjetivos mais compatíveis seriam “bizarro”, “nonsense”, “esdrúxulo”. Mas é sempre bom tentar entrar em contato com opiniões distintas da nossa. Tanto que até hoje guardo o caderno dessa data.

P.S. 2 – Ele não ganhou o Oscar, mas a atuação de Brad Pitt está absolutamente sensacional no filme. Nunca o achei ridículo, mas estava longe de ser um dos melhores. Por esse filme, terá meu respeito eterno.

Postado por Mateus Campos

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2 comentários sobre “Benjamin Button na literatura e no cinema

  1. O Brad Pitt também ganhou meu respeito eterno.
    Não li o conto ainda… O filme me agradou artisticamente e me tocou. Comento brevemente: achei que a passagem do século é feita de um modo incrível (o cenário detalhadamente retrô do início, a trilha dos beatles mais adiante, etc) e extremamente verossímil, apesar da história do Button. E, mesmo, pensando assim, um relato de uma vida de fio a pavio, no século XX, só me parece possível para alguém como Benjamin, que já está “acostumado” com a morte desde pequeno. Fora isso, não consigo pensar em alguém que viveu experiências atrozes de guerra, como ele, relatá-las por mais de um minuto.
    O filme é lindo, e, posso falar? Uma de minhas cenas favoritas é aquela em que ambos (brad e cate) são ainda crianças de 6 anos (apesar a aparência de benjamin) e se encontram na cabaninha que fizeram, Pa luz de uma vela, de madrugada. Eles se olham por segundos, e logo a sequência acaba. Aquilo, pra mim, foi sublime! Preciso ver o filme mais e mais vezes.
    Ótimo post, Gu!
    Beijão

  2. A procura do relógio de Benjamin Button caí por duas vezes neste blog… coincidência???

    Duas coisas também me chamaram mais a atenção no filme… a história do relógio (que me pergunto se é verdadeira) e a frase íntegra do filme, postada abaixo do título de sua resenha.

    Ninguém termina como começa. Independente de como termina, e de como começa. O fato é que o tempo passa para todos.

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