Nosso momento num café

À esquerda e à direita
Duas belas separadas por gerações
E algumas cadeiras
Fitávamos diretamente
Sem tentar disfarçar
Eu torcendo o pescoço
Ela esticando o olhar.

Não tiramos os chapéus
Pois estávamos nus como carne exposta
Àquela pulsação de vida mais
Ou menos explicável
A vida
E a alma pouco libertas.

E justo quando falávamos sobre Bandeira
E como podia um dia acontecer…

Postado por Mateus Campos

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Honeydripper: Do Blues ao Rock

honeydripperA música é a mais abstrata da arte. Como interpretar sons harmônicos que dentro de si não trazem um conteúdo explicável e prático? Ainda assim, é impressionante como somos atraídos por aquilo que não conseguimos compreender. E a música se torna algo cada vez mais apaixonante e contagiante.

Honeydripping: Do Blues ao Rock, tem esse poder. O de seduzir com uma estória simples permeada por canções no estado de Alabama, em 1950. O bar Honeydripping, à beira da falência por conta de dívidas com fornecedores, companhia elétrica e tantas outras, precisa de uma atração para não morrer. O dono Ty, interpretado pelo consagrado Danny Glover, não admite guitarristas no local, e assim sua casa perde espaço para a concorrência, que se encontra bem em frente. Um dia ele será salvo por Guitar Sam, uma lenda de Nova Orleans. Ou não exatamente.

Os jovens negros do estado, um dos mais racistas dos Estados Unidos até hoje, se dividem entre a colheita de algodão, o exército e a música par encontrar o que fazer. Há também a porção religiosa, com seus cultos banhados também por canções. Fato é que o ritmo está presente em qualquer que seja a atividade. Confesso que me arrepiei em praticamente todos os momentos em que alguma música começava, não apenas por gostar bastante de rocks antigos e um pouco de blues, mas principalmente pela interpretação das personagens.

Curioso acompanhar um momento no tempo em que as coisas mudam. Ty, perseguido por um incidente do passado, impede que algo parecido aconteça em seu bar. Sua esposa parece hesitar na tentativa de trocar de igreja. A guitarra elétrica, com amplificador, entra em cena e muda para sempre os sons produzidos. É um filme também sobre essa passagem de tempo, evolução, seguir em frente. A cena inicial e final dialogam e exibem duas crianças que brincam com música. Isso sim permanece.

O resultado inevitável é que estou baixando a trilha. Veria o longa sem cessar porque tenho certeza de que não ia me cansar. Agora que estou tendo aulas de piano, dá vontade de aprender tudo rápido para poder também tocar tudo que ouvi. E quem sabe um dia não consiga? E quem sabe um dia não tenha forças para continuar os estudos na guitarra, gaita, sax…

Deixe-me apenas registrar um diálogo interessante. Quando China Doll, a filha de Ty, está sendo seduzida por Sonny, o que vai se passar por Guitar Sam, ela diz para o rapaz algo mais ou menos assim:

– Tive uma doença quando era pequena e agora meu coração está meio estranho. [como quem diz que não é afetado por galanteios].

– É, o meu está meio esquisito também… Desde que te conheci.

Ouçam a música chamada “China Doll”. Ouçam todas. Façam música. Dancem, vivam, balancem.

Postado por Mateus Campos

Pianoforte

Ainda não consigo entender a sua sinfonia.
Mas eu a sinto. Melodia e harmonia
se unem de um modo tão natural
que parece ser fácil.

Porém, quando a consciência tenta
coordenar movimentos encontra confusão.
A razão não pode entender nunca.

O tocar e o tocar-se são de olhos fechados
e mesmo que os abramos não se vê
o mais além.
Não é porque; é sempre apesar de.

Postado por Mateus Campos

Superficialidade na superfície

O mar é raso
talvez como sempre tenha sido
mas jamais mostrado.
A água era escura
e encobria a falta de profundidade.
Porém hoje ela é transparente; uso óculos.

O que vejo são meios abraços
daqueles tímidos, laterais
o verde do mato é fraco e desbotado.
A intensidade não existe.
Tudo é parcial, inacabado
sem vontade de conclusão ou intenção de.

Nem feliz com as alegrias
nem triste com as desilusões
fica aquela letargia pontuada
por um rosto sem expressão.
E os rostos são todos iguais.
E as histórias também.

Acaba que se é não sendo
pelo menos não totalmente
pois há sempre uma dúvida.
A imagem no espelho é o reflexo de quê?
Qual é a diferença entre a conversa de hoje
e a de ontem?

Vamos ficar no meio do caminho com a mão estendida.

Postado por Mateus Campos