Honeydripper: Do Blues ao Rock

honeydripperA música é a mais abstrata da arte. Como interpretar sons harmônicos que dentro de si não trazem um conteúdo explicável e prático? Ainda assim, é impressionante como somos atraídos por aquilo que não conseguimos compreender. E a música se torna algo cada vez mais apaixonante e contagiante.

Honeydripping: Do Blues ao Rock, tem esse poder. O de seduzir com uma estória simples permeada por canções no estado de Alabama, em 1950. O bar Honeydripping, à beira da falência por conta de dívidas com fornecedores, companhia elétrica e tantas outras, precisa de uma atração para não morrer. O dono Ty, interpretado pelo consagrado Danny Glover, não admite guitarristas no local, e assim sua casa perde espaço para a concorrência, que se encontra bem em frente. Um dia ele será salvo por Guitar Sam, uma lenda de Nova Orleans. Ou não exatamente.

Os jovens negros do estado, um dos mais racistas dos Estados Unidos até hoje, se dividem entre a colheita de algodão, o exército e a música par encontrar o que fazer. Há também a porção religiosa, com seus cultos banhados também por canções. Fato é que o ritmo está presente em qualquer que seja a atividade. Confesso que me arrepiei em praticamente todos os momentos em que alguma música começava, não apenas por gostar bastante de rocks antigos e um pouco de blues, mas principalmente pela interpretação das personagens.

Curioso acompanhar um momento no tempo em que as coisas mudam. Ty, perseguido por um incidente do passado, impede que algo parecido aconteça em seu bar. Sua esposa parece hesitar na tentativa de trocar de igreja. A guitarra elétrica, com amplificador, entra em cena e muda para sempre os sons produzidos. É um filme também sobre essa passagem de tempo, evolução, seguir em frente. A cena inicial e final dialogam e exibem duas crianças que brincam com música. Isso sim permanece.

O resultado inevitável é que estou baixando a trilha. Veria o longa sem cessar porque tenho certeza de que não ia me cansar. Agora que estou tendo aulas de piano, dá vontade de aprender tudo rápido para poder também tocar tudo que ouvi. E quem sabe um dia não consiga? E quem sabe um dia não tenha forças para continuar os estudos na guitarra, gaita, sax…

Deixe-me apenas registrar um diálogo interessante. Quando China Doll, a filha de Ty, está sendo seduzida por Sonny, o que vai se passar por Guitar Sam, ela diz para o rapaz algo mais ou menos assim:

– Tive uma doença quando era pequena e agora meu coração está meio estranho. [como quem diz que não é afetado por galanteios].

– É, o meu está meio esquisito também… Desde que te conheci.

Ouçam a música chamada “China Doll”. Ouçam todas. Façam música. Dancem, vivam, balancem.

Postado por Mateus Campos

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