Raridade

Para Bruna

Aquilo que não se explica porque não há necessidade.
Em um mundo no qual as palavras por vezes não ajudam
prefiro tentar compreender com olhares.
No meio de quatrocentos nos achamos.

Quando me deparo com meu reflexo já não sei quem vejo.
Sinto que você mora no cenário dentro
do meu espelho, apesar de a distância física me desmentir.
Sentir é melhor do que ver;
maravilhar-se com prosa e poesia confusas
vale mais que demonstrar e provar pela matemática.

Os nossos pensares são um – entendemo-nos
e não conseguimos no entanto traduzir aos demais
o que acontece. Poucos falam nossa língua.
E um dia eu sei – você, o violão; eu, o piano.

Funcionamos porque há o desinteresse
a troca de favores não faz parte dessa
relação que quase não é humana.
O prazer que temos ao falar é o mesmo
que experimentamos ao ouvir.

Procuro algo para crer, mas é difícil.
Porém, por mais que me tente, a ideia
do acaso não pode ser o bastante nesse caso.
É a metafísica, o trascendental. Destino?
Não me agrada o termo, e sim o que ele denota.

Você é raridade.

***

A Bru é o tipo de pessoa que merece um texto desse por dia. Ela é dessas raras que nos mostram que a vida pode valer a pena. É minha irmã.

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2 comentários sobre “Raridade

  1. Muitas coisas vêm juntas e misturadas para comentar toda vez que leio esse poema. Vamos ver se uma tentativa de sistematização funciona (o que é uma violência, porque os efeitos do poema são lindos e reais e artísticos demais para se tornarem meramente explicáveis ou louváveis em poucas linhas.)
    1º Exijo que você retire o que disse do comentário no meu blog sobre o seu olhar. Esse poema toca em tantos pontos tão distantes sobre nós, e no entanto você os arrematou de uma maneira mágica (tão mágica quanto na vida real, separadamente, nas situações cotidianas-excepcionais que vivemos). Sinceramente não me sinto merecedora de uma dedicação desse tipo, tão bonita. Ao mesmo tempo, eu me sinto sim merecedora, mas só porque essa dedicação sincera vem de você, Gu Gu, e de toda a atmosfera da nossa amizade, ou melhor, como você bem disse, algo muito próximo (a proximidade que nossas conexões sentimentais, intelectuais e artísticas atingem) de irmãos.
    Olha lá, aconteceu de novo! Comecei com uma profusão de coisas para dizer, mas me perco na delícia de digerir o seu poema e a tudo o que ele me faz remontar mentalmente. Talvez por ter gostado muito, o distanciamento crítico se tornou impossível. Mas isso é bom – é muito bom.
    Você é precioso e raro, Gu, e o encontro que o acaso (?) nos presenteou vai das categorias mágico-sublime pra cima! Você conseguiu expressar muita coisa aí, e por isso me sinto grata e feliz por saber que mantemos uma certa equivalência na amizade, no pensamento e na arte. Eu não vou conseguir fazer o que você fez no poema, essa facilidade quase de brincadeira para expressar tudo. Eu expresso muito melhor a gratidão com as palavras que não tenho – as que estão por trás dos olhos; as minhas palavras sempre deixam escapar o todo.

    Um beijo pro poeta-irmão mais querido de todos.
    Bru

  2. Pingback: Ganhei um presente « Mas isso é o que eu vejo, isso é o que eu vejo.

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