O tempo – definição

Tempo: recorte de fragmentos imaginários ou reais no qual convergem presente, passado e futuro para formar aquilo que foi ou o que se gostaria que fosse; convenção criada na tentativa de organização e inserção da vida em determinado espaço que só consegue confundir ainda mais o que se tenta em vão explicar; substância que existe para sempre, paradoxalmente finita e breve; nuvem que nasceu branca e era cinza quando se desfez, e todo o processo que a cria e a consome; água que escorre pelo telhado, deita no solo e faz crescer a flor; um sorriso, um abraço, um beijo; mãos dadas.

– do Dicionário de Coisas Belas Indefiníveis

Por Mateus Campos

Visita familiar

O interfone soa. É o gongo que anuncia a chegada nada triunfal de uma trupe composta por tios, primos, namorados, sobrinhos e o que mais couber. No carro e na sala.

A campainha tem a função de tornar conhecido o início da encenação que em breve vai começar. As cortinas, estas sim de forma gloriosa, indicam o começo de um longo ato que provavelmente irá tomar toda a tarde fria e triste daquele dia. A falsidade escondida no mais profundo, porém essencial, recôndito da alma abre caminho, sempre ligeira, como se despertada de súbito por um sino de emergência avisando a iminência do perigo. Seu cheiro é tão fétido que é impossível que não notem a sua presença. Disfarçam bem.

O primeiro contato geralmente se dá por meio de elogios rasgados e sorrisinhos cretinos. Logo se abundam no sofá enquanto a anfitriã prepara um bolo ou traz algum doce comprado na padaria. De barriga cheia é melhor, a ilusão de que está tudo bem e a felicidade advinda do alimento faz com que aquele cenário seja mais suportável.

As conversas são sempre sobre tudo e coisa nenhuma. É o marido que perdeu o emprego, a filha que começa a sair com rapazes e experimentar os prazeres da puberdade, o tempo horrível dos últimos dias, o acidente inimaginável que aconteceu logo ali, enfim. Estes, os adultos, claro, pois as crianças estão a correr pelos exíguos cômodos e o tímido corredor que lhes parece ideal para apostar uma corrida. Os gritos, braços e pernas atirados ao ar, a rede inesgotável de ruídos e inconveniências que cercam os mais novos não parece tirar a atenção dos mais velhos, mergulhados em assuntos de importância sem igual para o funcionamento da máquina a qual se denomina família.

Porém, sempre tem aquele tipo quieto, isolado e entretido em leituras ou algum pormenor que sente que vai implodir depois que a paz foi quebrada. Ele ainda não viu os demais, permaneceu no quarto tentando ignorar o infalível encontro com aquelas pessoas. Quando sai, encontra as crianças a fitá-lo com olhinhos virgens que, todavia, já têm destino definido, pelo menos em alguns aspectos. Elas também irão crescer para, inevitavelmente, receber intrusos e passar pelos mesmos momentos que, outrora, ignoravam por não entender o que se passava.

E daí o rapaz aparece, cumprimenta a patota e marcha pelo caminho que veio. Durante estes segundos, resignado e relutante, participa da encenação. Cumpre com o seu dever e encerra a participação. A um dado instante, depois que a retaguarda principia por tomar as formas do sofá, é hora de levantar. As mulheres se dirigem ao quarto porque a anfitriã comprou uma calça maravilhosa em promoção e precisa mostrar aos parentes que devem devorá-la com a inveja, e mais uma vez as palavras benevolentes infestam o ambiente. Por pior que seja o índice de gordura concentrada na região abdominal, ninguém irá se atrever a denunciá-la e dizer que o modelo cairia melhor em quem tem metade de sua idade. “Nossa, que coisa mais linda, se eu pudesse compraria para mim também”. Ficam nessa, eu finjo que gosto e você finge que acredita. Um transbordar de mentiras que jorra pela boca e que causaria náuseas a um observador mais atento.

Enquanto isso, a porção masculina repousa na sala na companhia da TV. Não prestam atenção, somente aguardam as suas senhoras e, vez ou outra, soltam um pitaco sobre política. Nada melhor do que romper o tédio e o silêncio com um comentário contra o governo atual, este sim “o mais corrupto da história”, como um deles defende com voracidade. Para não contrariá-lo ou então por concordar, o resto cala. Se tem futebol e cerveja para acompanhar, perfeito, o que mais se poderia querer da vida?

Daí ao final, é possível que aconteça outro lanchinho, mas mais nada que seja digno de nota. Despedem-se, nova troca de afagos e sorrisos. “Ainda é cedo, fiquem mais um pouco”. Seria mais conveniente se gravassem e frase e a tocassem em cada despedida a ter que repeti-la sempre. O convite é recusado, e sobram os agradecimentos. Vão embora tranquilos, porque sabem que não foi a primeira e não será a última ocasião em que a visita acontece. Como se tivessem esquecido o que passou, a próxima oportunidade seguirá à risca o famigerado roteiro, tal qual o grupo teatral que se apresenta de quinta a domingo. No dia seguinte, o sol certamente voltaria a nascer.

***

Esse texto já esteve no blog antes, mas foi apagado por motivo de força maior. Participei de um concurso da Off-Flip no qual se podiam mandar textos (contos e poesias) para tentar faturar uma grana e tê-los publicados em um livro. E os escritos deviam ser inéditos, por isso tirei daqui. Mas aqui está “Visita familiar” de volta. Depois posto novamente a poesia, que também não foi contemplada.

Um fragmento

Queria ser como esses que escrevem letras de músicas românticas. Não essas piegas, vazias, cheias de sentimentalismos. Mas aquelas escritas com a despretensão de serem românticas. Aquelas que começam com um outro objetivo e quase que instintivamente terminam falando de amor, pois tudo que importa é motivado por amor. Sim, eu gostaria muito de ser como eles. Pegaria o lápis todos os dias e despejaria ali a mais pura verdade das minhas sensações quando estou com você. Meu olhar, a minha presença deveriam bastar, mas ah! a força da palavra escrita! E ela não domino. E ela não compreendo. Não, não queria ser como eles. Queria, sim, ter a condição de fazer com que você entenda. Que você se entenda. Queria segurar a sua mão e transmitir com o calor da minha o meu desespero e a minha alegria. Queria que meus beijos sussurrassem o encantamento que experimento ao estar do seu lado. Queria que você não apenas abrisse os olhos, mas que enxergasse. Queria que meus braços tivessem a força para selar um pacto, ainda sabendo que ele teria um prazo de validade bem curto.

Na verdade, não. Não queria nada isso. Queria só que você estivesse aqui, pois todo o resto seriam as folhas de uma árvore no outono.

***

Extraído de nenhum livro e de todos.

Postado por Mateus Campos

O azul, o amarelo e o vermelho

A noite que não terminou
a noite que jamais vai ter fim para nós dois
o caminho que certamente continua.
A embriaguez quer me dizer que nada foi
mas seu toque, gosto e cheiro são a prova
de que você é real. Aconteceu.
Aconteceu quando era para ser.
Não antes, ou depois.
No momento exato.

Pois a minha mão continua
repousada sobre a sua.
Toda a flor terá o seu aroma.
Todo o mar refletirá a sua imagem.
Tudo eternizado pelos beijos mais macios.

Se o caminho de volta levasse
à minha morte e me perguntassem
se conheci a felicidade, diria que
sim, e que ela atende por um nome.
O seu nome.

A espontaneidade pode ser o maior defeito
e, no entanto, nesse momento vejo como
a maior qualidade.

O olhar e o sorriso que vieram há tempos
me abraçaram na noite que não terminou.
Quero deitar sobre você, ver a chuva
e pensar que ela também é um presente
da noite que não terminou.
Porque a partir de agora será sempre noite.
A nossa noite.

***

Mateus Campos jamais poderia se esquecer. E muito menos Gustavo Hitzschky.

Postado por Mateus Campos

Flip, o resumo

De 1 a 5 de julho, aconteceu em Paraty a sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, ou simplesmente Flip. Pretendo fazer alguns posts com informaçãos mais detalhadas sobre algumas mesas que acompanhei. Abaixo segue apenas um resumão geral do evento, tudo aquilo que pude ver e registrar no meu twitter no período que estive lá.

Fiz apenas algumas pequenas correções com relação à grafia, pontuação, essas coisas que às vezes escapam pela pressa de digitar. Favor perdoar eventuais vocábulos chulos, era a empolgação.

30 de junho

– Nem consegui dar uma twitada antes de vir para Paraty. Mas agora cá estou aguardando o início da Flip amanhã.

– Live-tweeting dos debates assim como fiz quando estive em Los Angeles, na E3? Pode ser… Aguardem.

1 de julho

– A comissão organizadora da Flip deveria advertir: Paraty tem galos ativos às duas da matina. Pelo menos foi por pouco tempo.

– Tirei umas fotos, passei pelo centro e um pouco além. Por enquanto está sussa, muita criançada na rua e poucos com cara de turista.

– Voltei pela praia, fiquei um pouco na piscina… Caceta, há quantas décadas não fazia isso? Mesmo… Logo menos, a banda italiana chega.

– Chuveiro queimado e arrumado, la banda na área e um personagem tocando harpa na calçada. Saindo para a abertura da festa com o Arrigucci Jr.

– Ah, sim, o ir e vir até a pousada vai parecer cada vez mais longo com o passar dos dias. Devo emagrecer um bocado.

– Infelizmente o live-tweeting não vai rolar porque seria um castigo às minhas costas levar o note até lá. Mas se pans posto algumas frases.

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