Visita familiar

O interfone soa. É o gongo que anuncia a chegada nada triunfal de uma trupe composta por tios, primos, namorados, sobrinhos e o que mais couber. No carro e na sala.

A campainha tem a função de tornar conhecido o início da encenação que em breve vai começar. As cortinas, estas sim de forma gloriosa, indicam o começo de um longo ato que provavelmente irá tomar toda a tarde fria e triste daquele dia. A falsidade escondida no mais profundo, porém essencial, recôndito da alma abre caminho, sempre ligeira, como se despertada de súbito por um sino de emergência avisando a iminência do perigo. Seu cheiro é tão fétido que é impossível que não notem a sua presença. Disfarçam bem.

O primeiro contato geralmente se dá por meio de elogios rasgados e sorrisinhos cretinos. Logo se abundam no sofá enquanto a anfitriã prepara um bolo ou traz algum doce comprado na padaria. De barriga cheia é melhor, a ilusão de que está tudo bem e a felicidade advinda do alimento faz com que aquele cenário seja mais suportável.

As conversas são sempre sobre tudo e coisa nenhuma. É o marido que perdeu o emprego, a filha que começa a sair com rapazes e experimentar os prazeres da puberdade, o tempo horrível dos últimos dias, o acidente inimaginável que aconteceu logo ali, enfim. Estes, os adultos, claro, pois as crianças estão a correr pelos exíguos cômodos e o tímido corredor que lhes parece ideal para apostar uma corrida. Os gritos, braços e pernas atirados ao ar, a rede inesgotável de ruídos e inconveniências que cercam os mais novos não parece tirar a atenção dos mais velhos, mergulhados em assuntos de importância sem igual para o funcionamento da máquina a qual se denomina família.

Porém, sempre tem aquele tipo quieto, isolado e entretido em leituras ou algum pormenor que sente que vai implodir depois que a paz foi quebrada. Ele ainda não viu os demais, permaneceu no quarto tentando ignorar o infalível encontro com aquelas pessoas. Quando sai, encontra as crianças a fitá-lo com olhinhos virgens que, todavia, já têm destino definido, pelo menos em alguns aspectos. Elas também irão crescer para, inevitavelmente, receber intrusos e passar pelos mesmos momentos que, outrora, ignoravam por não entender o que se passava.

E daí o rapaz aparece, cumprimenta a patota e marcha pelo caminho que veio. Durante estes segundos, resignado e relutante, participa da encenação. Cumpre com o seu dever e encerra a participação. A um dado instante, depois que a retaguarda principia por tomar as formas do sofá, é hora de levantar. As mulheres se dirigem ao quarto porque a anfitriã comprou uma calça maravilhosa em promoção e precisa mostrar aos parentes que devem devorá-la com a inveja, e mais uma vez as palavras benevolentes infestam o ambiente. Por pior que seja o índice de gordura concentrada na região abdominal, ninguém irá se atrever a denunciá-la e dizer que o modelo cairia melhor em quem tem metade de sua idade. “Nossa, que coisa mais linda, se eu pudesse compraria para mim também”. Ficam nessa, eu finjo que gosto e você finge que acredita. Um transbordar de mentiras que jorra pela boca e que causaria náuseas a um observador mais atento.

Enquanto isso, a porção masculina repousa na sala na companhia da TV. Não prestam atenção, somente aguardam as suas senhoras e, vez ou outra, soltam um pitaco sobre política. Nada melhor do que romper o tédio e o silêncio com um comentário contra o governo atual, este sim “o mais corrupto da história”, como um deles defende com voracidade. Para não contrariá-lo ou então por concordar, o resto cala. Se tem futebol e cerveja para acompanhar, perfeito, o que mais se poderia querer da vida?

Daí ao final, é possível que aconteça outro lanchinho, mas mais nada que seja digno de nota. Despedem-se, nova troca de afagos e sorrisos. “Ainda é cedo, fiquem mais um pouco”. Seria mais conveniente se gravassem e frase e a tocassem em cada despedida a ter que repeti-la sempre. O convite é recusado, e sobram os agradecimentos. Vão embora tranquilos, porque sabem que não foi a primeira e não será a última ocasião em que a visita acontece. Como se tivessem esquecido o que passou, a próxima oportunidade seguirá à risca o famigerado roteiro, tal qual o grupo teatral que se apresenta de quinta a domingo. No dia seguinte, o sol certamente voltaria a nascer.

***

Esse texto já esteve no blog antes, mas foi apagado por motivo de força maior. Participei de um concurso da Off-Flip no qual se podiam mandar textos (contos e poesias) para tentar faturar uma grana e tê-los publicados em um livro. E os escritos deviam ser inéditos, por isso tirei daqui. Mas aqui está “Visita familiar” de volta. Depois posto novamente a poesia, que também não foi contemplada.

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2 comentários sobre “Visita familiar

  1. Os caras que julgam devem ser tudo uns cuzão. Só assim pra explicar o fato de eles não terem contemplado nenhum dos seus escritos. Já eu adoro, tanto este conto quanto o poema, e acho textos incríveis, Gu.
    Você é muito bom e nunca duvide disso.

  2. Pingback: À parte « O Fazer Escrito

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