Resposta

Pelo menos pra mim há claramente coisas em nós que nos distinguem e que passam longe da conclusão que os outros têm sobre nós (embora o Machado ache que isso é mentira, que nós mais pensamos que somos do que somos realmente – mas eu concordo com ele em absoluto, também!). Não quero apaziguar o desconforto que causa a leitura do Machado, mesmo porque você sabe que eu gosto muito de coisas incômodas, mas acho que o conto, como qualquer teoria (já que ele se subintitula teoria) não abrange o todo e a variedade, ainda mais da “alma humana”.

Um exemplo prático do que eu quero dizer é o fato de termos sorte o suficiente para conseguirmos escrever. A nossa produção é uma prova do que temos por dentro e que quase sempre (e por isso escrevemos) é um despejo, um grito que confronta o que é pensado ou dito por aí, ou mesmo que não se oponha frontalmente, contrasta de leve. E nesse sentido acho, sinceramente, que podemos sim ser “individualmente”, embora não só. Por isso é bom que pensemos sempre no conjunto, ainda que no momento estudando só o Machado. É bom lembrar dos outros escritores e o acúmulo de impressões diversas sobre o mundo que as leituras sugerem. Pois afinal é a graça da literatura, aquelas opiniões que nos convencem, mas que, se comparadas umas às outras, se sobrepõem, se desmentem, tornam-se contraditórias e se mostram insuficientes se isoladas, mas, mesmo depois de tudo isso, continuam com sua força inicial e nos convencendo como no início… Porque nós mesmos somos muito contraditórios e oscilantes, uma bagunça interior que convive junto o tempo todo.

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Como disse Juca Kfouri em um programa na TV dias atrás, há coisas que são ditas e escritas no particular que merecem ser postas no público para que os demais possam apreciá-las e aprender com elas. Não cito o nome da pessoa pois sequer lhe pedi autorização para isso, mas o trecho acima é parte editada de uma resposta que recebi de um e-mail sobre o desconforto causado após a leitura do conto “O espelho”, de Machado de Assis. O texto trata da opressão da alma interior pela alma exterior, ou seja, a absoluta potência da imagem que os demais têm de nós a partir do cargo e função social que exercemos contra a praticamente inexistente qualidade interior. Achei as palavras tão fortes, significativas e verdadeiras que decidi colocá-las aqui no blog. Se a pessoa estiver de acordo, revelo a identidade em breve. Basta saber que é de autoria de alguém que prezo como poucos.

Postado por Mateus Campos

Sintonia do descompasso

Ela estava sentada em um banco olhando o céu encoberto. Parecia querer que a força dos olhos dissipasse as nuvens que insistiam em se reunir ali. A expectativa não era de chuva. Vendo-a de longe, ele se aproximou sem pressa, a conversa ainda uma incógnita. Percebendo a sombra chegando, ela não deixou que sua contemplação fosse interrompida.

– Falou com ela?

Uma pausa. Ela não gostava de responder imediatamente. Não como forma de irritar o interlocutor, mas simplesmente porque fazia parte de sua natureza organizar o pensamento antes de se expressar.

– Já. Ficou tudo bem, respondeu sem voltar a cabeça.

– Ah, que bom. Fico feliz, você sabe disso.

Silêncio. A introdução se deu quando ele ainda estava de pé. Agora, ele se sentava ao lado dela curvado para frente e com os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos fitavam o chão. Um carro passou em alta velocidade produzindo um ruído que certamente chamaria a atenção dos dois. Não houve mudança de comportamento.

– E você…? Ela já foi?

– Ainda faltam alguns meses. O que eu vou fazer?

– É… acho que não tem o que fazer.

– Então é isso?

– É isso.

Pela primeira vez, ela saiu do céu e regressou para a terra, o olhar na direção dele, porém não exatamente nele. De sua parte, ele retribui o quase olhar. Penetrando-lhe enfim os olhos, ela recomeçou.

– É isso, sim. Mas a culpa é sua principalmente. Você não tem um foco definido. Sei que na semana que vem você vai vir com outra estória. E logo vai esquecer.

– Você tem razão. Talvez. Não sei.

Ele não tardava em responder. Era como uma reação espontânea a um estímulo, um instinto, uma provocação que contava pouco com a cabeça.

Silêncio.

– Por que… por que você é tão volúvel?

– Eu? E ela?

– Ela não me interessa, eu estou perguntando de você. Não foi ela quem te disse que você exagerava os sentimentos e que, na verdade, não sentia tudo isso? Acho que é por aí mesmo.

– Não tente entender, desconversou ele.

Um barulho quase imperceptível veio tirar-lhes a sintonia. Um pássaro, que fizera um ninho em uma árvore próxima, cantava o anúncio do fim das nuvens, que se despediam de modo sorrateiro, escapando pela porta dos fundos. O azul foi se mostrando mais intenso, mais total. Era como um mundo de mentira, pois as coisas jamais seriam tão harmoniosas quanto aquele cenário desenhado à mão por um talentoso artista.

Ele se levantou e se recostou na árvore do passarinho. Ela voltou a contemplar o céu.

– Você sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, não?

Silêncio.

– Vai chegar o dia em que isso não será mais possível. Vai chegar o dia em que a gente não vai mais poder conversar como agora. Você estará em um lugar, eu em outro.

Ela suspirou. Não como um sinal de enfado, mas como se, naquele momento, se desse conta de uma fatalidade que era óbvia há muito tempo.

– Eu sei, rebateu em voz baixa enquanto olhava para ele. Quando estiver sozinha vou me lembrar das suas palavras. Vou me lembrar da época em que a gente vinha até aqui pra conversar. Vou olhar para o lado e você não estará lá.

– E aí você vai fazer o quê?

– Vou olhar para o céu.

– Mas ele não vai poder te falar nada e nele você não vai encontrar o que procura.

– E você, tem alguma ideia do que procura?

– Não.

– Então olhe mais para cima.

Em vez disso, ele baixou os olhos. A garganta estava seca, sentindo calafrios e repentinamente um mal-estar o invadiu. Ela continuou a fixá-lo com seus olhos sempre doces e puros que contrastavam com seu discurso. Ergueu-se e foi ao encontro dele, tomando-o pela mão e fazendo com que se sentasse vagarosamente no banco.

– Isso, agora fique aqui comigo. E não se preocupe. Ela vai embora, eu vou embora e você um dia também vai embora. Todos vão, ninguém nunca fica. Sabe o que vai sobrar?

Agora foi ele que respondeu sem palavras.

– Nem o céu vai sobrar. Lá em cima é só um reflexo daqui. No final, são olhos fechados, algumas vozes e uns poucos pensamentos.

Postado por Mateus Campos

Davi Arrigucci Jr. na Flip 2009

É uma pena que os vídeos mostrem somente uma parte ínfima do grandioso discurso do professor Davi Arrigucci Jr. sobre Manuel Bandeira. Para mim, foi a melhor mesa da Flip, mesmo contando apenas com uma pessoa e sem qualquer intermediador – na verdade, acho que esse último fato até contribuiu para a beleza e fluência da coisa. Subi esses vídeos ontem à noite no Vimeo e peço desculpas por dois motivos: a demora em publicá-los e as imagens um tanto tremidas. Isso aconteceu porque, ao mesmo tempo que registrava a conferência com a câmera do meu celular, anotava o que o professor falava. Aliás, dia desses posto também as anotações que fiz ao longo da mesa.

Postado por Mateus Campos

À parte

O Menino comeu um pedaço de pão
e deixou cair algumas migalhas na toalha
quis saber o que tinha debaixo delas.
Perto das migalhas estava uma xícara
de café com um golinho só e a colherzinha.
Os cristais de açúcar pareciam queimados.

O Menino percebeu que a migalha mais perto
do seu braço era duas vezes maior que aquela
ao lado da xícara.
Achou interessante, fascinante até, o coração
cheio de uma coisa que não conhecia
mas sabia que era boa.

O Menino notou na mesa uma formiga
abrindo um caminho para o doce que ele
segurava na mão esquerda.
E no caminho da formiga ela precisava desviar
das migalhas que ele havia deixado cair
e a formiga nem tomava conhecimento
dos obstáculos daquele lugar imenso para ela.
Queria chegar ao doce como fosse, o Menino pensou.

Mas ninguém viu nada disso.
Ninguém viu o menino, o pão que ele comeu
as migalhas, a xícara, a colher, o açúcar
a formiga.
Ninguém quis saber o que tinha debaixo das migalhas.
Só o Menino.

***

A exemplo do que aconteceu com o conto, tinha escrito essa poesia em um concurso na Flip. Mas precisava ser inédita, então apaguei do blog. Enfim, aqui está ela de volta.

Postado por Mateus Campos