À parte

O Menino comeu um pedaço de pão
e deixou cair algumas migalhas na toalha
quis saber o que tinha debaixo delas.
Perto das migalhas estava uma xícara
de café com um golinho só e a colherzinha.
Os cristais de açúcar pareciam queimados.

O Menino percebeu que a migalha mais perto
do seu braço era duas vezes maior que aquela
ao lado da xícara.
Achou interessante, fascinante até, o coração
cheio de uma coisa que não conhecia
mas sabia que era boa.

O Menino notou na mesa uma formiga
abrindo um caminho para o doce que ele
segurava na mão esquerda.
E no caminho da formiga ela precisava desviar
das migalhas que ele havia deixado cair
e a formiga nem tomava conhecimento
dos obstáculos daquele lugar imenso para ela.
Queria chegar ao doce como fosse, o Menino pensou.

Mas ninguém viu nada disso.
Ninguém viu o menino, o pão que ele comeu
as migalhas, a xícara, a colher, o açúcar
a formiga.
Ninguém quis saber o que tinha debaixo das migalhas.
Só o Menino.

***

A exemplo do que aconteceu com o conto, tinha escrito essa poesia em um concurso na Flip. Mas precisava ser inédita, então apaguei do blog. Enfim, aqui está ela de volta.

Postado por Mateus Campos

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3 comentários sobre “À parte

  1. Toda vez que leio esse poema só consigo pensar: é o meu favorito, dos seus. Mas há outros igualmente fascinantes, e no entanto quando leio este ele exige toda a minha atenção e admiração;
    O grandioso vem da simplicidade, sim, é isto o que penso quando leio e fico feliz de ter como amigo querido alguém tão sensível e delicado, delicadeza por dentro.
    Lindo, Gu.

  2. Achei muito bom esse conto. Ele reflete pura e simplesmente muito da vida cotidiana e também a sensibilidade do artista que assim como a criança para e repara na vida verdadeira, ausente de contas e frustraões modernas e “futeis”.
    Essa curiosidade poética da criança e o zelo com que ela olha e enxerga o mundo reparando toda a vida e os movimentos que acontecem, é algo mto incrível, transmite uma leveza e uma imagem vagarosa que vai se realiza nos mínimos detalhes e encantos, como o congelar do tempo naquele instante, enquanto que fora dele a rotina continua a mil com todo o peso da era da informção e as consequencias disso.
    É o contraste de duas visões de mundo, e infelizmente ainda são poucos os que veem o mundo como a criança se a ingenuidade da mesma.

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