Sintonia do descompasso

Ela estava sentada em um banco olhando o céu encoberto. Parecia querer que a força dos olhos dissipasse as nuvens que insistiam em se reunir ali. A expectativa não era de chuva. Vendo-a de longe, ele se aproximou sem pressa, a conversa ainda uma incógnita. Percebendo a sombra chegando, ela não deixou que sua contemplação fosse interrompida.

– Falou com ela?

Uma pausa. Ela não gostava de responder imediatamente. Não como forma de irritar o interlocutor, mas simplesmente porque fazia parte de sua natureza organizar o pensamento antes de se expressar.

– Já. Ficou tudo bem, respondeu sem voltar a cabeça.

– Ah, que bom. Fico feliz, você sabe disso.

Silêncio. A introdução se deu quando ele ainda estava de pé. Agora, ele se sentava ao lado dela curvado para frente e com os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos fitavam o chão. Um carro passou em alta velocidade produzindo um ruído que certamente chamaria a atenção dos dois. Não houve mudança de comportamento.

– E você…? Ela já foi?

– Ainda faltam alguns meses. O que eu vou fazer?

– É… acho que não tem o que fazer.

– Então é isso?

– É isso.

Pela primeira vez, ela saiu do céu e regressou para a terra, o olhar na direção dele, porém não exatamente nele. De sua parte, ele retribui o quase olhar. Penetrando-lhe enfim os olhos, ela recomeçou.

– É isso, sim. Mas a culpa é sua principalmente. Você não tem um foco definido. Sei que na semana que vem você vai vir com outra estória. E logo vai esquecer.

– Você tem razão. Talvez. Não sei.

Ele não tardava em responder. Era como uma reação espontânea a um estímulo, um instinto, uma provocação que contava pouco com a cabeça.

Silêncio.

– Por que… por que você é tão volúvel?

– Eu? E ela?

– Ela não me interessa, eu estou perguntando de você. Não foi ela quem te disse que você exagerava os sentimentos e que, na verdade, não sentia tudo isso? Acho que é por aí mesmo.

– Não tente entender, desconversou ele.

Um barulho quase imperceptível veio tirar-lhes a sintonia. Um pássaro, que fizera um ninho em uma árvore próxima, cantava o anúncio do fim das nuvens, que se despediam de modo sorrateiro, escapando pela porta dos fundos. O azul foi se mostrando mais intenso, mais total. Era como um mundo de mentira, pois as coisas jamais seriam tão harmoniosas quanto aquele cenário desenhado à mão por um talentoso artista.

Ele se levantou e se recostou na árvore do passarinho. Ela voltou a contemplar o céu.

– Você sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, não?

Silêncio.

– Vai chegar o dia em que isso não será mais possível. Vai chegar o dia em que a gente não vai mais poder conversar como agora. Você estará em um lugar, eu em outro.

Ela suspirou. Não como um sinal de enfado, mas como se, naquele momento, se desse conta de uma fatalidade que era óbvia há muito tempo.

– Eu sei, rebateu em voz baixa enquanto olhava para ele. Quando estiver sozinha vou me lembrar das suas palavras. Vou me lembrar da época em que a gente vinha até aqui pra conversar. Vou olhar para o lado e você não estará lá.

– E aí você vai fazer o quê?

– Vou olhar para o céu.

– Mas ele não vai poder te falar nada e nele você não vai encontrar o que procura.

– E você, tem alguma ideia do que procura?

– Não.

– Então olhe mais para cima.

Em vez disso, ele baixou os olhos. A garganta estava seca, sentindo calafrios e repentinamente um mal-estar o invadiu. Ela continuou a fixá-lo com seus olhos sempre doces e puros que contrastavam com seu discurso. Ergueu-se e foi ao encontro dele, tomando-o pela mão e fazendo com que se sentasse vagarosamente no banco.

– Isso, agora fique aqui comigo. E não se preocupe. Ela vai embora, eu vou embora e você um dia também vai embora. Todos vão, ninguém nunca fica. Sabe o que vai sobrar?

Agora foi ele que respondeu sem palavras.

– Nem o céu vai sobrar. Lá em cima é só um reflexo daqui. No final, são olhos fechados, algumas vozes e uns poucos pensamentos.

Postado por Mateus Campos

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