Desfazendo

*Para Mary e seu aniversário

Todos os anos uma vela se acende
só para ser consumida em seguida
em um ritual sem senso.
Ela nos lembra que o tempo
é marcado e dominado pelo fogo
símbolo da despedida e da
pequena morte.
Pois a grande despedida já vem
e não será definitiva.

Hoje, dia em que as circustâncias te levam
mais um pouco de vida, fecha os olhos;
preenche com a fumaça da chama recém-extinta
o vazio do peito.
O ar carregado com acenos de mãos.

Vai, e volta se quiser.
Aqui vai ter sempre um lar.

Postado por Mateus Campos

Aproximação

Quando tudo é dito pelo silêncio, parece que alguma coisa não está acontecendo. As palavras, outrora símbolo da compreensão, não serviam para nada ali – pior: atrapalhavam.

Olhavam-se, entreolhavam através de vultos que passavam sem cessar. Era uma comunhão tácita, calada, portanto não-realizada e ainda a ser cumprida. Dois seres tateantes às escuras sem o toque em si.

“Você sabe que eu estava aqui pensando… O que falar para você agora, como te abordar sem ser ridículo? Se eu falasse, ‘Opa, tudo certo? Já escolheu o que vai fazer?’; ‘Ah, você não é amiga dela? Ela é muito legal’. Sei lá, podia tentar bolar mais alguma coisa, mas tudo seria meio forçado, você não acha? E já anda tudo tão artificial hoje em dia entre as pessoas. Você parece ser alguém bem largada no sentido bom da palavra, desencanada com isso, entende? Meio que sem censura, direta. E mais uma vez eu olhei para você e você olhou para mim. Você sabe que não foi a primeira e não vai ser a última. Não quero perder mais tempo. Então é isso: com um pouco de receio, mas sem medo de ser estranho, idiota ou ridículo, queria te falar apenas ‘oi’. Sim?”

Mas isso só se sonhava. Talvez o valor de tudo esteja contido na travessia em si, sem preocupações de onde se parte e onde se chega.

Continuou a não falar para ela as coisas mais sinceras. Não se sabe como terminou a estória, e o mais provável é que nem tenha começado.

Postado por Mateus Campos

Sinédoque

synecdoche-new-york-02-100Não sei por onde começar quando tudo parece resumir o que é a vida, ou então a morte. Pois passamos anos esperando que algo aconteça na fração de segundo em que estamos aqui. Não nos damos conta de que o tempo em que não existimos e depois de nossa morte é incalculavelmente maior do que o breve excerto quando nos encontramos nessa terra. E, no entanto… Nada.

Sempre acreditei que seria o primeiro a morrer. Vi quando ela foi embora com a minha filha, soube da morte dela e estive com a minha filha antes de ela partir. A peça só foi possível porque eu estava lá. Depois de anos tentando descobrir como terminar, percebi que o fim seria como é para tudo que vive. O fim é um piquenique, é um texto que se lê, uma peça que se escreve. E os personagens que vemos em toda a parte somos nós. Incorporamos as pequenas características de todo mundo e de ninguém.

Queria ter feito aquele piquenique com a minha filha. Mas eu a abandonei. Tudo sempre se resumiu a mim, e nem sequer notei que durante vinte anos alguém me seguia. Só que ele errou, já que eu não pulei. Ou será que pulei e não me lembro? Sim, porque pular ou não pular depende do ponto de vista, da perspectiva. Ela, a que pintava as pequenas coisas, já tinha visto o que viria lá na frente. Porque a ordem das coisas nem sempre é cronológica. É, é isso: está decidido antes mesmo de acontecer.

Como uma escolha afeta milhares de outras minúsculas coisas. Seria possível interpretar a nós próprios? A óbvia confusão gera improviso, engendra uma cena natural e ao mesmo tempo ensaiada, pois é feita a partir da observação de um comportamento anterior que o justifica. Agora você será eu, eu serei ela. No outono, às 7:45 daqui a vários anos, terei em minha mente a imagem do relógio. Pode ser que tudo se resuma à minha cabeça apoiada no ombro de uma estranha.

E onde estariam os leitores dessa carta? Quem vai assistir a mais recente peça que escrevi? Mas os protagonistas somos nós, o que acontece dentro daqueles apartamentos se sustenta em si. Uma casa em chamas, visitas a médicos, relacionamentos, isso não importa num lugar onde tudo e nada acontece. Então, será que devemos de fato esperar que as coisas simplesmente aconteçam? Pois esperar já é fazer algo. A história da estória vai sendo construída à medida que é pensada, e seremos o mais respeitável público que poderemos ter; os leitores mais adequados para decifrar as linhas tecidas ao longo dos anos de espera da morte.

A frase é uma frase em si e se basta. Você recebeu uma massagem. Você está com dor de barriga. Mas não tente agir como se quisesse representar a minha vida. Seja a sua estória, ande dali pra cá como se fosse você mesmo. É tudo a mais pura verdade forjada. Se tivesse que resumir, usaria as palavras que ouvi dela quando lhe perguntei se a tinha decepcionado de alguma forma: “Quando mais a gente conhece alguém a fundo, mais a gente se decepciona”.

Agora sei como vou terminar a carta. E se todos… morressem?