Apelo

Pois que se eu morresse agora, a imagem que ficaria de mim seria aquela que beiraria a perfeição. Por que, meu Deus, por que então não me conceder esse desejo e me levar para junto de ti, não num momento de desespero – ao contrário. Deixe que o vivido até aqui se traduza como os momentos de sublimação do ser imperfeito que, por não ter sido conhecido em sua totalidade, transmite uma ideia que jamais seria o real. O tempo se encarregaria da saudade, as poucas fotos alimentariam a alma até a hora em que o coração, a seu ritmo, começaria a esquecer. Ao que o Senhor poderia retrucar, “Mas não é você quem diz que a felicidade de alguns segundos compensa a desgraça que espreita cada passo?” Diria que sim, e me surpreenderia por Sua onisciência falsa de não ter entendido ainda que os conselhos que damos para alguém nunca servem para nós mesmos.

Para mim falta a capacidade de. Então, se tiver de condenar, que seja somente a mim. Eu, que jamais acreditei na Sua força superior; que nesse instante em que escrevo duvido da Sua existência; que estou por ter qualquer vestígio de um criador. Veja que a despeito de tudo apelo para o Senhor. Tamanho é o desespero – sim, é de fato desespero, já que me contradigo, minto e me engano descaradamente. Que seja indolor – para mim e aos demais – quase uma extensão do sono para o qual em breve me dirijo.

Ou então que me arranque da cabeça o pouco que sei. Ou acho que sei. Faça de mim um ignorante completo, não parcial. Tire de mim qualquer resquício de raciocínio porque não quero nem devo pensar – e é o pensar que me tem angustiado há anos. Não, faça o que foi solicitado primeiro: me leve para junto de ti e que de mim reste apenas a lembrança boa, pois mentirosa, daquilo que acreditam que fui. Mas como abrir mão de algo tão maravilhoso? A culpa é Sua de a lógica das coisas ser assim?

Pai, não perdoai-nos. Sempre sabemos o que fazemos.

– No envelope em que foi encontrada essa carta se lia: “Único documento autêntico que deixo”

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2 comentários sobre “Apelo

  1. que coisa maravilhosa.
    está tudo muito bem escrito, um cuidado imenso em todos os parágrafos, e, engraçado, tudo isso exprime muito intensamente a desordem de que fala… desordem de todos que nunca vi alguém expressar tão bem.

  2. Dois comentários breves: lembre-se do chará Campos, outra não-pessoa:
    “Feliz o homem marçano,
    Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada. […]
    A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
    Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
    Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.”

    E também, em Dogville, o filme, quando Grace, que tinha a piedade como virtude máxima, subitamente percebe que todos são culpados, sim, pelo que fazem; responsabilize-mo-nos, então. (Grace, cujo nome, “Graça”, está simbolicamente atrelado ao conceito de graça Divina, que Von Trier, ainda que como eu seja ateu, soube explorar tão bem.)

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