Still a storm

There are always clouds up
in the sky, even if we do not
see them clearly.
This is a last-forever storm.
I cannot understand why it
keeps coming down
and I honestly do not intend to.
Let it rain, let it pour.

Far away in the distant horizon
I hear the storm approaching.
It has always been there
and here as well – I can
see that now.

Light-purple lights from you.
How do I look?
you ask as the rain intensifies.
You look the same every time:
A sparkle warming me on a cold
winter evening.

Mateus Campos

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Mauro

Mauro, você me desculpa?

Eu sei que a gente brigou quando era pequeno, e eu não consigo me lembrar por quê. Mas eu preciso te pedir desculpas porque eu sei que, qualquer que tenha sido o motivo, a culpa foi minha, Mauro. Você era tão doce, tão legal, ninguém tinha razão para discutir com você.

E você me desculpa também, Mauro, por eu não me lembrar exatamente da situação? Sabe, eu não tenho a memória muito boa, eu só recordo o fato. Eu sei que as crianças podem ser muito más, e sei que uma vez falaram para você arrancar a sujeira do nariz e depois comer. E você fez isso, Mauro. Você era muito doce, eles não podiam ter feito isso com você. Agora eu entendo. Mas eu fiz como eles, eu ri com eles. Então a culpa não deixa de ser minha. Você entende, Mauro?

Eu não sei explicar direito. Eu tento falar que nem gente grande, de um jeito mais bonito, sabe, mas eu não posso. E talvez seja melhor porque dessa forma você me entende. Você me entende, Mauro? Você me perdoa?

Você se lembra de quando a gente estava jogando futebol na garagem do meu primo? Ah, não… Acho que você não estava. É que você era uma presença bem constante, sabe, então eu pensei que você estivesse lá. Eles te excluíam das brincadeiras, Mauro?

Você morava na rua, acho que era isso. Você tinha fome às vezes, ou muitas vezes?, mas você ficava com vergonha de pedir quando via alguém comendo. Mas os adultos percebiam isso, e de vez em quando te traziam alguma coisa de comer. Você passou muita fome? Eu não sei o que é isso e acho que nem tenho capacidade de imaginar, Mauro. Eu queria sentir o que você sentiu.

Sabe, Mauro, eu fico doente sempre que faz frio. Eu fico com tanta raiva disso, eu sou muito fraquinho. Mas eu nunca vou ficar doente que nem você. Depois me falaram que você nasceu assim, que a sua doença é para sempre. Você me perdoa por isso, Mauro? Eu devia ter te ajudado a nascer sem problema nenhum, mas eu não fiz nada. Acho que dava para ter feito alguma coisa, você não acha?

E o que aconteceu com você, Mauro? Onde você está? Ah, Mauro, eu tento, tento, tento, mas sempre que eu me lembrar de você eu sei que vou começar a chorar. Você já sentiu esse tipo de falta de ar? É um aperto insuportável, sabe? Você pode pedir para todas as pessoas iguais a você para me desculpar? Você me desculpa também a fraqueza? Você me desculpa a franqueza?

Mauro, a gente nunca foi melhor que você. A gente nunca vai ser. A gente não está sendo.

Me desculpa, Mauro.

Mateus Campos

Escrever

Tenho vergonha de escrever aquilo que ainda não escrevi – não acreditem jamais que me orgulho disso, embora seja justamente isso que eu transmita. O meu texto favorito, intocável, preciso dividir a atenção dele com outros menores, mas que me atraem de um modo estranho, quase que incontrolável. Não, não é isso. É exatamente isso. Talvez o ideal seria nunca dar à luz um texto: sim, que ele permanecesse somente no mundo das ideias, pois lá ele é perfeito, irretocável, sublime. Transportá-lo ao papel é matá-lo, exaurir as suas forças e corrompê-lo. Pois que se fosse apenas aquele poema, tudo bem. No entanto, logo penso em outros – ah, mas o pensar não me traz problema algum! E em seguida me vejo com o lápis sobre o papel, e então começo atabalhoado e trêmulo a despejar toda a minha vontade sobre uma folha branca, que paulatinamente vai se sujando, tornando-se preta, para nunca mais ser apagada. E então está feito, e tenho que carregar isso para todo o sempre. Mas e quanto àquele poema? Provavelmente ele nunca saberá da presença dos demais, e vai se achar o preferido. E ele é o preferido, eu não tenho dúvida! E nem por isso os outros escritos vão deixar de existir; não serão ignorados, talvez um pouco relegados a gavetas escuras. Isso, sim (será que um texto menor pode se rebelar contra o seu autor?). Porém, não vão deixar de existir.

Preciso parar de escrever.

Mateus Campos