A noite passada

Na noite passada alguma coisa aconteceu. Estava com dificuldade para respirar, não conseguia dormir por mais de alguns minutos porque acordava sem ar, arfando, puxando oxigênio desesperado. Olhei para porta e achei que a qualquer momento alguém pudesse entrar para me matar. Apesar de alguma coisa ter acontecido na noite passada, nada aconteceu.

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O homem que queria morrer

Talvez você seja a única pessoa que entenda, por isso escrevo para você. Às vezes dá vontade de morrer mesmo.

Estou cansado. Não do mundo e das pessoas porque isso seria clichê e acima de tudo, mentiroso. Estou cansado de mim. Da minha indiferença com tudo e de frustrar quem gosta de mim. Sim, porque apesar de tudo, alguns ainda gostam de mim.

Acidentes acontecem todos os dias de todas as formas, ainda mais numa cidade como a nossa. Mas comigo, não. E ainda se fosse possível trocar de lugar com um doente terminal. Eles querem viver. Eu quero morrer. Ah, como seria bom ser eles…

Cada dia a mais é um dia a menos. Por que não encurtar essa certeza, então? Não quero estender o sofrimento. Não o meu. Mas daqueles que amo. Sim, porque apesar de tudo, ainda amo alguns.

Não me importo comigo. Ora, mas isso é uma grande mentira. Eu também poderia comer um inseto qualquer e mudar toda essa percepção cretina, que para você não deve passar de um desabafo juvenil e irracional. Sim, é exatamente disso que se trata.

Nunca lhe contei, mas uma vez contratei um homem para me matar. Vou poupar detalhes da história, você não ia querer saber. Dei dinheiro para ele e pedi que fosse rápido e indolor. A gente se encontrou em um beco num bairro afastado, e combinamos que faríamos tudo soar como uma reação a um assalto. Ele deixaria a minha carteira ali perto, sem dinheiro e cartão, até que alguém me encontrasse. Quando eu o vi, ele estava muito mais nervoso do que eu, até porque eu mantinha uma calma que, pensando nela hoje, me parece assustadora. Enfim, ele disse “vamos acabar logo com isso”. Você já sentiu um cano de revólver contra a cabeça? É maravilhoso. A frieza do metal, o silêncio ao redor, a expectativa, a adrenalina disparada… Não fechei os olhos. Ele, sim. Em seguida, disse que não conseguia e falou para eu ir embora. Quis me dar o dinheiro. Não aceitei, dei-lhe as costas e não tivemos mais contato.

Eu mesmo poderia fazer isso. Mas não sei, de certa forma não seria muito honesto tirar a própria vida. Será? Não sei, você tem mais vivência do que eu nesses assuntos, o que você acha? Por favor, me oriente, me guie. Fico imaginando se ainda dá tempo de ir até você.

Já imaginou como seria poético? Levo para você uma carta ou um bilhete de suicídio, digo que me arrependi no meio da escrita e resolvi ir falar direto com você. No caminho, algo acontece. Um mal súbito, um assalto, um atropelamento, um acidente, o que seja. O resgate acharia dentro do meu casaco essa nota e com certeza riria da ironia. “Tanto quis que aí está no chão, morto. Teve o que buscou, mas quem sabe se era o que merecia. Podem levar”. Não, eles não pensariam isso.

Essas coisas não acontecem. Pelo menos não quando a gente quer. E sei que só vou morrer quando não quiser mais e vou ficar revoltado, “não, por que agora, por que não antes?” Afinal de contas, quem é que tem o direito de decidir até quando vivemos senão nós mesmos? Aposto que você também pensa assim.

Você provavelmente ri desses meus modos adolescentes, não é? Não te culpo. Tudo o que falei até aqui foi uma grande, uma imensa bobagem. Esqueça, esqueça tudo o que foi dito.

Vou fazer o que faço todas as noites. Vou abrir outra garrafa de vodca e vou escutar um blues na minha vitrola. Sim, essa é sempre uma boa ideia. Quem sabe o álcool não me mate? Ou então a música…

O passeio súbito

Franz Kakfa

Quando parece que você finalmente decidira ficar em casa à noite, quando colocou o seu casaco e se sentou depois do jantar com uma luz na mesa sobre o trecho da obra ou sobre o jogo que geralmente precede sua ida à cama, quando o tempo lá fora está desagradável e ficar em casa parece natural, e quando você já está sentado em silêncio à mesa por tanto tempo que a sua partida deve ocasionar surpresa a todos, quando, além disso, a escada está na escuridão e a porta da frente, trancada, e apesar de tudo isso você se ergueu em um ataque brusco de inquietude, trocou de casaco, vestiu-se abruptamente para ir à rua, explicou que tem que sair e com algumas palavras secas de despedida que chegaram a ser pronunciadas, batendo a porta mais ou menos apressadamente de acordo com o nível de desprazer o qual você acha que deixou para trás, e quando você se encontra mais uma vez na rua com membros balançando livremente em resposta à liberdade inesperada que procurou para eles, quando, como resultado dessa ação decisiva você sente concentradas dentro de si todas as potencialidades de ação decisiva, quando reconhece com significado mais do que comum que sua força é maior do que precisa para atingir sem esforço a mais ligeira das mudanças e lidar com ela, quando nessa disposição de ânimo você avança pelas ruas longas – então naquela noite você fugiu completamente da sua família, que se apaga no insubstancial, ao passo que você mesmo, uma figura negra firme e desenhada com ousadia, estapeando-se na coxa, alcança a sua estatura real.

Tudo isso ainda é elevado se, a tal hora da noite, você busca um amigo para ver como ele está.

***

Traduzi esse texto do Kafka do inglês para uma amiga. Não conhecia e achei muito, muito bonito.

Toques

Ele a beija sem pressa, acreditando que está seguindo o ritmo dela. Ela, por sua vez, acredita que está seguindo o comando dele. Ambos os lábios são fartos, o dele bem vermelho, o dela doce e maciamente grosso, daqueles que dão vontade de morder. Quando se tocam, as bocas isolam tudo ao redor – só aquilo, em todo o mundo, está acontecendo, até porque naquilo se resume o mundo, para eles. Enquanto as bocas se beijam, as línguas também se buscam e se apalpam de modo igualmente calmo, como se não houvesse mais o tempo, como se aquele ato pudesse durar por toda a eternidade. É como se estivessem à procura de algo, como se tivessem uma meta, e talvez não saibam que o fim em si é precisamente essa busca por nada. Enquanto isso, ouvem-se sons baixinhos, apaixonados e meio secretos. As mãos dele tocam o corpo altamente excitante e excitado dela, que está coberto por um vestido simples e que realça a formosura daquelas curvas. Os seios são fartos, justamente como ele gosta – um tipo de exagero maravilhoso, sutil. Os mamilos enrijecem e, com o polegar, ele traça delicados círculos naquela área. Em um instante breve de interrupção, a boca dele para e, num deslocamento vagaroso, procura o mamilo dela. Os beijos ali são igualmente apaixonados, um pouco mais sonoros. Com gemidos suaves como o som de harpas, ela goza o momento. Ele passa a língua desenhando círculos em seus mamilos, e então mais uma vez envolve uma parte do seio com toda a sua boca, ao mesmo tempo em que ela lambe os dedos dele. Em seguida, volta a procurar a boca que completa tão bem a sua, como se fosse uma extensão natural. Agora, o mamilo e parte do seio estão úmidos e ainda mais firmes, o que acaba por facilitar o deslocamento das mãos e dos dedos dele. A mão dele quer também a lisura das coxas roliças, cuja superfície é igualmente macia como todo aquele corpo. Ela dança pelo terreno aquecido até a hora em que encontra a sua calcinha, bem pequena, espécie de intruso em um território onde não deve haver nenhum obstáculo. As mãos acariciam a calcinha na parte de trás e também, mas muito de leve e brevemente, na frente, em um movimento do indicador e do médio para cima e para baixo. A ação, apesar de se concentrar nas bocas, acontece por toda a extensão de ambos os corpos. Os atos se repetem e formam um ciclo, mas o que acontece nem sempre segue essa ordem.

Não tem mais pipa no céu

– Você nunca entende o que eu quero dizer.
– Talvez a culpa seja sua por não saber explicar.
– Curioso. A culpa nunca é nossa, é sempre dos outros.
– Sim, disso você entende bem.
Conversavam em uma mesa do lado de fora do bar. Era um dia quente e abafado de verão. O ônibus devia chegar dali a dez minutos e enquanto isso tomavam uma cerveja. A estação era pequena, havia poucas pessoas naquele dia e somente as moscas não se importavam com a temperatura elevada.
– Vamos pedir mais uma?
– Sim, é uma boa ideia.
– Moça, por favor, traga outra garrafa.
De dentro do bar, que permanecia sempre com a porta aberta, ouviu-se uma voz esganiçada de mulher.
– O quê?
– Mais uma cerveja, por favor.
– Ah, sim. Só um minuto.
– A gente não tem feito muita coisa além de beber e viajar ultimamente, não é?
– Está reclamando? Antes você me enchia porque a gente nunca saía de casa.
– Não, não estou reclamando, calma. Foi só um comentário.
– Tudo bem.
– É que… não, não. Está certo assim.
– Diga.
– Lembra a nossa conversa de ontem?
– Ah, não… não comece, sério.
A moça trouxe a cerveja dentro de um pequeno balde de gelo e a serviu para os dois.
– Até parece que estamos tomando vinho.
– Como?
– Sim, por causa desse baldinho.
– Ah… mas só parece.
– Não tem mais nenhuma pipa no céu.
– Do que você está falando?
– Estou só dizendo que não tem mais nenhuma pipa no céu. Por acaso você não via um monte delas quando era criança?
– Sim, mas isso foi há muito tempo. E sinceramente não sei por que aquele assunto te afeta tanto.
– Não me afeta. Quer dizer, acho que um pouco. Se fosse com você, é claro que você também ficaria assim.
– Só vivendo a situação pra saber.
– Então não venha me julgar.
– Olha, eu já te disse que vou ficar do seu lado até tudo acabar. Então por que você tem medo?
– “Medo” é muito forte, não é bem isso. Se alguma coisa der errado… pode ser o fim, você não acha?
– De jeito nenhum. Não vai acontecer.
– E quem é você pra garantir?
– Eu sei. Apenas sei. Ora, você não confia em mim?
– Mas não depende de você.
– Para com isso. Você está se esquecendo do fundamental.
O ônibus parou a aproximadamente dez metros dos dois, que se levantaram, pegaram cada um a sua mala e subiram.