Não tem mais pipa no céu

– Você nunca entende o que eu quero dizer.
– Talvez a culpa seja sua por não saber explicar.
– Curioso. A culpa nunca é nossa, é sempre dos outros.
– Sim, disso você entende bem.
Conversavam em uma mesa do lado de fora do bar. Era um dia quente e abafado de verão. O ônibus devia chegar dali a dez minutos e enquanto isso tomavam uma cerveja. A estação era pequena, havia poucas pessoas naquele dia e somente as moscas não se importavam com a temperatura elevada.
– Vamos pedir mais uma?
– Sim, é uma boa ideia.
– Moça, por favor, traga outra garrafa.
De dentro do bar, que permanecia sempre com a porta aberta, ouviu-se uma voz esganiçada de mulher.
– O quê?
– Mais uma cerveja, por favor.
– Ah, sim. Só um minuto.
– A gente não tem feito muita coisa além de beber e viajar ultimamente, não é?
– Está reclamando? Antes você me enchia porque a gente nunca saía de casa.
– Não, não estou reclamando, calma. Foi só um comentário.
– Tudo bem.
– É que… não, não. Está certo assim.
– Diga.
– Lembra a nossa conversa de ontem?
– Ah, não… não comece, sério.
A moça trouxe a cerveja dentro de um pequeno balde de gelo e a serviu para os dois.
– Até parece que estamos tomando vinho.
– Como?
– Sim, por causa desse baldinho.
– Ah… mas só parece.
– Não tem mais nenhuma pipa no céu.
– Do que você está falando?
– Estou só dizendo que não tem mais nenhuma pipa no céu. Por acaso você não via um monte delas quando era criança?
– Sim, mas isso foi há muito tempo. E sinceramente não sei por que aquele assunto te afeta tanto.
– Não me afeta. Quer dizer, acho que um pouco. Se fosse com você, é claro que você também ficaria assim.
– Só vivendo a situação pra saber.
– Então não venha me julgar.
– Olha, eu já te disse que vou ficar do seu lado até tudo acabar. Então por que você tem medo?
– “Medo” é muito forte, não é bem isso. Se alguma coisa der errado… pode ser o fim, você não acha?
– De jeito nenhum. Não vai acontecer.
– E quem é você pra garantir?
– Eu sei. Apenas sei. Ora, você não confia em mim?
– Mas não depende de você.
– Para com isso. Você está se esquecendo do fundamental.
O ônibus parou a aproximadamente dez metros dos dois, que se levantaram, pegaram cada um a sua mala e subiram.

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