O homem que queria morrer

Talvez você seja a única pessoa que entenda, por isso escrevo para você. Às vezes dá vontade de morrer mesmo.

Estou cansado. Não do mundo e das pessoas porque isso seria clichê e acima de tudo, mentiroso. Estou cansado de mim. Da minha indiferença com tudo e de frustrar quem gosta de mim. Sim, porque apesar de tudo, alguns ainda gostam de mim.

Acidentes acontecem todos os dias de todas as formas, ainda mais numa cidade como a nossa. Mas comigo, não. E ainda se fosse possível trocar de lugar com um doente terminal. Eles querem viver. Eu quero morrer. Ah, como seria bom ser eles…

Cada dia a mais é um dia a menos. Por que não encurtar essa certeza, então? Não quero estender o sofrimento. Não o meu. Mas daqueles que amo. Sim, porque apesar de tudo, ainda amo alguns.

Não me importo comigo. Ora, mas isso é uma grande mentira. Eu também poderia comer um inseto qualquer e mudar toda essa percepção cretina, que para você não deve passar de um desabafo juvenil e irracional. Sim, é exatamente disso que se trata.

Nunca lhe contei, mas uma vez contratei um homem para me matar. Vou poupar detalhes da história, você não ia querer saber. Dei dinheiro para ele e pedi que fosse rápido e indolor. A gente se encontrou em um beco num bairro afastado, e combinamos que faríamos tudo soar como uma reação a um assalto. Ele deixaria a minha carteira ali perto, sem dinheiro e cartão, até que alguém me encontrasse. Quando eu o vi, ele estava muito mais nervoso do que eu, até porque eu mantinha uma calma que, pensando nela hoje, me parece assustadora. Enfim, ele disse “vamos acabar logo com isso”. Você já sentiu um cano de revólver contra a cabeça? É maravilhoso. A frieza do metal, o silêncio ao redor, a expectativa, a adrenalina disparada… Não fechei os olhos. Ele, sim. Em seguida, disse que não conseguia e falou para eu ir embora. Quis me dar o dinheiro. Não aceitei, dei-lhe as costas e não tivemos mais contato.

Eu mesmo poderia fazer isso. Mas não sei, de certa forma não seria muito honesto tirar a própria vida. Será? Não sei, você tem mais vivência do que eu nesses assuntos, o que você acha? Por favor, me oriente, me guie. Fico imaginando se ainda dá tempo de ir até você.

Já imaginou como seria poético? Levo para você uma carta ou um bilhete de suicídio, digo que me arrependi no meio da escrita e resolvi ir falar direto com você. No caminho, algo acontece. Um mal súbito, um assalto, um atropelamento, um acidente, o que seja. O resgate acharia dentro do meu casaco essa nota e com certeza riria da ironia. “Tanto quis que aí está no chão, morto. Teve o que buscou, mas quem sabe se era o que merecia. Podem levar”. Não, eles não pensariam isso.

Essas coisas não acontecem. Pelo menos não quando a gente quer. E sei que só vou morrer quando não quiser mais e vou ficar revoltado, “não, por que agora, por que não antes?” Afinal de contas, quem é que tem o direito de decidir até quando vivemos senão nós mesmos? Aposto que você também pensa assim.

Você provavelmente ri desses meus modos adolescentes, não é? Não te culpo. Tudo o que falei até aqui foi uma grande, uma imensa bobagem. Esqueça, esqueça tudo o que foi dito.

Vou fazer o que faço todas as noites. Vou abrir outra garrafa de vodca e vou escutar um blues na minha vitrola. Sim, essa é sempre uma boa ideia. Quem sabe o álcool não me mate? Ou então a música…

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