João

João.
Era apenas um escrevinhador
arauto da palavra e promotor da prosa
pai, filho, avô e irmão
querido aonde quer que fosse
amante do silêncio, mulheres e vitrolas
tão magro que parecia um barbante barbudo
e cabeludo, com um sorriso para dentro
porque era tímido, sempre muito tímido.

João não perguntava, só respondia
mas tinha dia que não respondia,  só perguntava
queria desvendar os mistérios do mundo
e depois dizia que não queria mais
gostava de vagar e vagabundear
olhando as bundas das moças
e às vezes parava de repente para escutar
“mas escutar o quê, João?”
que sussurrava, “nada”.

João…
aonde terá ido João?
João nunca foi embora, não
ele só está um pouco mais distante
tem gente que o vê de longe
com um terno surrado e o chapéu na mão
ele se senta no chão e fica olhando para o céu
a contemplar não se sabe o quê
até que uma vez alguém se aproximou
e conseguiu perguntar, “mas olhar o quê, João?”
que sussurrava de olhos fechados, “nada”
então a gente ficava feliz
porque sabia que era o João.

João…
que para a sorte de todos nunca foi nada além de João.