Flores – Mario Bellatín

Leitura em espanhol do capítulo “Pensamientos”, do livro “Flores”, de Mario Bellatín.

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Oz

Existe um personagem que não tem coragem, coração e cérebro. Por inveja, por gostar daquilo que falta, ele se esforçou ao máximo para não ter o que não têm o leão, o homem de lata e o espantalho. Sò que, diferente deles, não está buscando nada do que não possui, ao contrário. Ele se afasta cada vez mais da coragem, do coração e do cérebro que não tem.

Porém, esse personagem se sabe personagem, ou seja, sabe que é dependente de um narrador que vai fazer as escolhas por ele. E por isso tem medo: e se um dia o narrador lhe der coragem, coração e cérebro? E então, como vai ser a sua vida de bravura, de bondade e de inteligência? Como ele vai ser o solitário que é?

(Mas pode ser que ele não tenha bravura, bondade ou inteligência. Quem sabe ele não seja tirânico, mau e controlador? Isso lhe agradaria mais… só que ele não consegue pensar nisso. A única coisa que pode sentir é o medo de que um dia deixe de ser como é.)

Esse personagem, apesar da consciência de sua condição, está vivo e não existe só no papel. Está por aí, andando, correndo, fazendo não sei o quê. Procurando o homem mais triste do mundo, outro personagem, assim como ele, o qual admira. Nunca falou com o homem mais triste do mundo porque não o encontra em nenhuma página, em nenhuma rua. Se o encontrasse, é provável que falaria, “eu gosto de você e do seu cão, e, com todo respeito, sou capaz de provar que o homem mais triste do mundo sou eu. O senhor pelo menos tem alguém aí do seu lado”.

E por aí vai esse personagem que nem nome tem. Seria preciso lhe dar um nome em algum momento… mas, na verdade, o que importa, de que lhe serviria se ninguém nunca vai chamá-lo pelo nome? Por que o chamariam? Se eu fosse o narrador dessa história, também não daria nenhum nome. Que ele siga sem coragem, coração, cérebro, sem nada.

Agora eu o estou vendo. Ele anda e corre à procura do homem mais triste do mundo ao mesmo tempo que tenta se esconder, morrendo de medo do narrador. Já disse que ele tem medo de se deparar com ele porque não quer que o seu destino seja alterado. Mas por que será que tem tanto medo de agir de um modo diferente, só para ver como é? É um coitado, não é mesmo? Se você o vir por aí, numa rua, num parque, num salão, parado em uma esquina, num beco, em busca do homem mais triste do mundo ou se escondendo do narrador, não se aproxime. Porque eu acho que ninguém pode ajudá-lo… puxa, mas e se na verdade ele quiser ser ajudado, como saber?

Temos que encontrar logo o narrador para que ele nos ajude.