Álbum de figurinhas

Já, já a Copa está aí, e para além dos problemas conhecidos e debatidos à exaustão – estádios incompletos, obras superfaturadas, desorganização, orgia com verba pública – existe um mal do qual só nos lembramos meses antes do evento, um mal muito pior do que todos esses somados: o álbum de figurinhas.

Basta que um amigo apareça com as figurinhas para contaminar todo o ambiente. “Eu também quero e preciso comprar”, pensam, entregues, submissos e vencidos, do menino ao avô. O feitiço é tão forte que suscita a reflexão: onde está a atração desse papel autocolante?

Abrir um pacote de figurinhas é um rito quase sexual, certamente sensual. É preciso boa dose de cuidado e carinho, como se estivéssemos a tirar o vestido da mulher amada. Cuidado e carinho são necessários para não rasgar as figurinhas dentro do pacote, nem mesmo uma pontinha que seja – o que automaticamente torna a figurinha inutilizável, cadáver decrépito de objeto descartável. Deve-se abri-lo com esmero, com amor, até, e é preciso amar as figurinhas sobre todas as coisas (mesmo as repetidas).

E como um processo tão saboroso assim pode ser prejudicial? Ora, eu lembro quando o pacotinho custava não mais que 25 centavos, mas agora temos que desembolsar quatro vezes mais para comprá-lo. Me disseram que um amigo comprou leite Jussara para a filha só para sobrar mais dinheiro para as figurinhas – ele não confirmou, mas pude atestar a veracidade do boato quando vi de relance uma das suas sacolas de supermercado.

(Outro dia vi uma figurinha e me lembrei de quando elas não eram autocolantes, e o álbum ficava cheio de lombadas por causa da cola Tenaz. Mal contive o choro.)

Se não me engano, desde a Copa passada existem os álbuns online. À época completei o meu, mas não é a mesma coisa. É um ritual pela metade, mutilado, sem graça. Dessa vez, tive que voltar às origens e eis o que aconteceu.

Fui acometido por uma mania muito feia: peço para todo mundo que conheço, sendo íntimo ou não da pessoa, que me compre figurinhas caso passe perto de uma banca com a promessa de restituir o dinheiro em breve (o que nem sempre cumpro). Do chefe ao vizinho, da empregada ao zelador. Hoje o jornaleiro da rua é o meu melhor amigo.

Ainda não cheguei a esse ponto, mas, como agora só faltam vinte para completar o álbum e nem adianta mais comprar, estou quase montando um mapa das escolas do bairro, levantando acampamento na porta delas e perguntando para os garotos, quase espumando: posso ver suas repetidas?