Graveto verde

Um dos irmãos de Tolstói, Nikolai, dizia a ele quando eram pequenos que possuía um segredo que faria a humanidade viver uma nova era de ouro e que havia gravado tal segredo num graveto na floresta de Zakaz. Dois anos antes de morrer, Tolstói ditou o seguinte:

Embora seja um assunto desimportante, quero dizer algo que eu gostaria que fosse observado após a minha morte. Mesmo sendo a desimportância da desimportância: que nenhuma cerimônia seja realizada na hora em que meu corpo for enterrado. Um caixão de madeira, e quem quiser que o carregue, ou o remova, a Zakaz, em frente a uma ravina, no lugar do “graveto verde”. Ao menos, há uma razão para escolher aquele e não qualquer outro lugar.

Mestre sob qualquer aspecto

Gustavo,
ojalá este libro se quede en tu corazón y te susurre algo de vez en vez,
un abrazo,
Guillermo Arriaga

Devia ter postado isso há muito tempo, na verdade. Mas tudo bem. Foi no dia 15 de agosto de 2008, se não me engano, que vivi um dos momentos mais memoráveis da minha vida. Consegui conversar com o escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga, que vinha ao Brasil para promover o lançamento de seu livro “Esquadrão guilhotina”. Foi numa sexta-feira que ele esteve presente na Fnac paulista, um dia antes de participar de uma palestra na Bienal do Livro à qual também fui.

Depois de falar sobre a sua nova obra, Arriaga abriu espaço para algumas perguntas. Dias antes, eu tinha terminado de ler “O Búfalo da Noite” e de assistir ao filme homônimo. Indaguei Arriaga acerca do fato de livro e filme serem tão díspares, especialmente na porção final. Queria saber se aquilo tinha sido fruto de uma liberdade que ele concedeu ao diretor (já que Arriaga participou da adaptação) ou se ele optara deliberadamente por criar um final alternativo. Na sinceridade, Arriaga falou que, depois do que foi feito com o filme, acreditava que não permitiria mais que suas obras impressas migrassem para as telonas, mostrando-se bem decepcionado com o resultado.

No final, Arriaga pacientemente atendeu as pessoas que estavam lá. Eu, groupie que sou, fui até ele e lhe pedi que assinasse meu livro. Fique triplamente feliz quando ele elogiou meu espanhol, escreveu a dedicatória que abre esse post e ainda permitiu uma foto. É impressionante como a gente passa a admirar ainda mais uma pessoa não somente pelo talento que ela tem, mas quando nota que é alguém extremamente simpático e humilde. Queria muito encontrá-lo nem que fosse para agradecer a ela novamente. Guillermo Arriaga é mestre em todos os sentidos.

Agradecimentos eternos a Monique Prevedel, que me avisou sobre a ida de Arriaga à Fnac. Com certeza não teria conseguido conversar com ele se o visse apenas na Bienal. Na Fnac, havia no máximo 15 pessoas; na Bienal, centenas. E os dois eventos aconteceram em menos de 24 horas de diferença. Parece difícil de acreditar.

Postado por Mateus Campos

Grande

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com a tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– “Meu amor!…”

Um dos muitos trechos memoráveis de Grande Sertão: Veredas. Terminei de ler há uns dois dias, se não me engano. Não tenho capacidade nem direito de fazer comentários sobre a obra.

Postado por Mateus Campos

Os extremos de O Búfalo da Noite

Foi no ano passado que me interessei pelo trabalho de Guillermo Arriaga. Assisti a uma entrevista sua transmitida pela TV Cultura direto da Flip 2007, a festa literária de Parati. Gostei muita das coisas que ele disse e me chamou a atenção em especial um trecho sobre o livro “O Búfalo da Noite”.

Arriaga contou que, em uma prisão aqui no Brasil (não me lembro qual), o livro supracitado era o mais lido do local. Ele recebera uma carta de um dos internos, que pedia ao escritor alguns exemplares do romance, já que, ao passar por muitas mãos, teve o estado deteriorado. Arriaga lhes mandou 50. Fiquei curioso, e também queria conhecer a história que fascinara a tantas pessoas. Mais tarde, soube que ele é responsável pelos roteiros de três filmes que gosto muito: Amores Brutos, 21 gramas e Babel.

O Búfalo da Noite conta a história de Manuel, cujo melhor amigo, Gregorio, comete suicídio dias depois de regressar de mais uma internação no hospital psiquiátrico. Os dois eram muito próximos, a ponto até de formar um triângulo amoroso em que o vértice principal é Tania.

Gregorio, de aluno tímido a um rapaz que desenvolve surtos de loucura, sonha com o tal búfalo, que vem lhe respirar perto da nuca quando dorme. Além disso, ele jura que pequenas lacraias lhe penetram a pele e o transtornam mais ainda. O búfalo não aparece apenas nos devaneios – tanto ele quanto Manuel o tem tatuado no bíceps esquerdo.

Tudo leva a crer que Manuel também terá o mesmo fim do amigo. Ele começa a receber a visita do búfalo nos sonhos e ainda carrega consigo muitas das características de Gregorio. Ao mesmo tempo que tenta se livrar dele, pois se sente perseguido mesmo depois do suicídio, Manuel claramente manifesta opiniões que notamos não ser dele – a homofobia, por exemplo. A tatuagem do búfalo ainda está lá, embora Manuel tenha tentado retirá-la cortando a própria pele. Como se afastar do falecido se Manuel freqüentava sua casa constantemente em encontros com a irmã Margarita? O fato de Manuel namorar Tania também colabora para que a figura de Gregorio esteja sempre presente. Felizmente, a obviedade não se comprova.

A narrativa é altamente visual e envolvente, regada em alguns momentos com reflexões de Manuel, o narrador. Queremos saber o que vai lhe acontecer, e acreditamos que o caminho traçado por Manuel será o mesmo de Gregorio. Pelo menos eu cheguei a pensar que o narrador seria derrotado pela loucura. Não que ele a vença, porém o desenlace é menos lógico – e empolgante – do que imaginei.

Após terminar a leitura, assisti ao filme – e agora penso que poderia muito bem ter acabado o livro e parado por aí. A película é um resumo tosco e distorcido da obra escrita, mas o que me assusta não é isso. Guillermo Arriaga ajudou na adaptação, e fica difícil acreditar que ele tenha permitido o assassinato de uma bela composição. A partir do momento em que Manuel é preso até o final, não há nenhuma relação entre livro e filme, o que é lamentável e sem sentido. Sei que não há como fazer uma transcrição exata de uma mídia para outra – e talvez nem se deva tentar – porém acho que no caso de O Búfalo da Noite, houve um exagero.

Quem assistiu somente ao filme não terá a menor vontade de ler. Triste, por se trata de uma leitura interessante, incômoda no tocante a despertar sentimentos e inflexões por parte do leitor, já que se trata de uma crônica perfeitamente possível na Cidade do México ou qualquer outro lugar.

Abaixo, segue trecho da entrevista do Arriaga na Flip 2007. Não encontrei a íntegra da conversa, que deve ter tido quase duas horas, então saiba que o bate-papo está muito reduzido. Também não está no vídeo a parte em que ele conta a história sobre o presidiário brasileiro. (E agora parando para pensar, nem tenho certeza de que era uma carta de alguém daqui. Perdoe a minha memória.)

Postado por Mateus Campos

Todo carnaval tem seu fim

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente – se eu a reconhecia.

O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja…Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:

– Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida desesperação e angústia…

Manuel Bandeira na Epígrafe do livro “Carnaval”

Postado por Mateus Campos