Desfazendo

*Para Mary e seu aniversário

Todos os anos uma vela se acende
só para ser consumida em seguida
em um ritual sem senso.
Ela nos lembra que o tempo
é marcado e dominado pelo fogo
símbolo da despedida e da
pequena morte.
Pois a grande despedida já vem
e não será definitiva.

Hoje, dia em que as circustâncias te levam
mais um pouco de vida, fecha os olhos;
preenche com a fumaça da chama recém-extinta
o vazio do peito.
O ar carregado com acenos de mãos.

Vai, e volta se quiser.
Aqui vai ter sempre um lar.

Postado por Mateus Campos

Palavras que eu não tenho

Para Gustavo e o seu aniversário.

no olhar
há um encontro delicado.
olhar por si é fazer
escrito
olhar para escrever
à mão
olhar para dansar

espelho dentro

olhar como encontro
como a música
olhar para dizer
o silêncio
olhar por si é dizer.
há uma descoberta imprevista
no olhar

Bruna

***

Esse foi com certeza um dos presentes de aniversário mais lindos que já ganhei. E a Bru não parou por aí e eu ainda recebi mais. Como eu falei pra ela, ela já me dá um presente por dia simplesmente ao ir para a faculdade e conversar comigo. Bru, você é eterna.

Um

Pelo menos agora o 16 de maio não será conhecido apenas como o dia do aniversário deste que escreve. Foi neste momento que surgiu o blog “O Fazer Escrito”, que hoje completa o primeiro ciclo do que se convencionou chamar “ano”. Em vez de um texto de minha autoria, passo a palavra hoje àquele que realmente entende do assunto. Vi este poema de manhã na aula do genial José Miguel Wisnik, que já compõe a relação de professores memoráveis da Universidade.

Consolo na praia – Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

O seu dia

Parabéns!?
Por quê?
Pergunta que gostaria de fazer.
Não há motivo
ou pelo menos não deveria.

Queria ver a expressão
se respondesse dessa forma.
Qual é a grande ocasião, afinal?
Aponte-me um ato de grandeza,
ilustre um excerto em que fui nobre
que me mostrei um ser humano diferenciado;
diga por que sou digno de
uma palavra que precisa ser abolida do
dicionário.

E ainda me vejo em situação incômoda.
Não bastassem os dizeres vazios como
a alma de quem os declama,
eles têm a ousadia de trazer agrados!
Logo a mim,
fraude ignóbil que
se esquece do detalhe mais importante.
Não considero especial porque não o é.

Sei que (às vezes) é de coração,
mas não me dê;
saiba que quando for o seu dia
estarei muito ocupado com coisa nenhuma
e vai passar.
Não vale nada, não vou notar.
É tão difícil entender?
Se me respeita, sai
se gosta de mim, não vem.

É isso:
daqui a algumas horas
vou vestir o amarelo.
Esforço vil para mostrar
que sim, que aproveito e me deleito.
A vontade real são as linhas que passaram.
Valeria a pena;
faltaria coragem.
Sou falso, eles também.

Um adulto;
esqueça a idade.
O espírito envelheceu
e não teve culpa.
Ninguém nunca tem.
Triste na essência, feliz na aparência.
Triste e solitário como ela falou.

16/05 – 12:33 a.m.

Postado por Mateus Campos