Quero ser o outro

queroserjohnmalkovich_1999_posterQuerer ser um outro. Pelo menos uma vez alguém há de ter pensando na possibilidade. E isso por uma série de motivos: há os que têm vergonha daquilo que são, os que queriam ter uma vida supostamente melhor, aquela que o outro leva, os que queriam ter menos problemas. Mas, acima de tudo, acho que ser o que não se é daria conta da pergunta mais difícil com a qual se pode deparar: Quem é você? Sou o outro. Em não havendo a opção de ser o outro, a questão fica sem resposta.

Quero Ser John Malkovich. Engraçado, reflexivo, inteligente, diferente. Personagens que desesperadamente buscam uma alternativa para a vida que levam, nem que seja por 15 minutos. O titereiro, o que controla bonecos e que consegue dotar um ser humano com os mesmos fios que os brinquedos sobre as costas – fios que, aliás, todos temos invisíveis sobre nós, e também seguimos um roteiro (de filme, teatro, ou do nosso titereiro) definido por uma lógica que é tudo, menos lógica. O mais assustador é que, quanto mais os personagens são John Malkovich, mais entram em contato com aquilo que eles próprios são em essência, e isso é bem perigoso.

Querer fugir de si, oferecer sentido àquilo que não tem, entender o grande enigma. Queria eu também encontrar uma portinha no andar sete e meio, feito para os anjos tortos que não têm lugar. como cameron Diaz, que se afunda e afoga em casa com o seu zoológico particular, sua vontade de ser transexual, e descobrir que, de humano, seus bichos possuem mais do que o marido titereiro. O egoísmo do titereiro, o desdém da companheira de firma que o ajuda no aluguel de 200 dólares por 15 minutos dentro do cérebro de Malkovich. E o senhor que quer se perpetuar na vida. Todos personagens com algum tipo de bizarrice que, juntos na minoria estranha, formam a massa de todos. Então esse lugar não é para nós? Provavelmente. E aí, de que adiantaria ser o outro, se se trocariam apenas as extravagâncias?

Diante da parede (não da encruzilhada), o que fazer? Nada. Ir levando. Sem se acomodar ou querer ser quem não se é, mas se esforçar minimamente para ver os poucos lados positivos de existir. Também deve ser um certo exagero da minha parte, afinal a vida não é tão ruim assim. É que, se eu fosse outro, com certeza iria apreciar mais.

Postado por Mateus Campos