Vazio ao redor

Mais um trecho retirado do livro Fim de Partida, de Samuel Beckett. Neste momento, o personagem Hamm, praticamente cego, está conversando com Clov, seu criado, e fala sobre a sua condição. Chega à conclusão de que, no final, estaremos sozinhos, e a solidão pode vir mesmo durante o processo. Dá para notar a inércia de uma pessoa que pouco faz quando não tem ninguém com quem compartilhar dores e alegrias, lembrando que habita um universo mutilado e desiludido com o final da Segunda Guerra Mundial.

Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será um pedregulho perdido na estepe. Sim, um dia você saberá como é, será como eu, só que não terá ninguém, porque você não terá se apiedado de ninguém e não haverá mais ninguém de quem ter pena.

Postado por Mateus Campos

O silêncio à palavra

Melhor do que as aulas que tive na faculdade sobre o dramaturgo, novelista e poeta irlandês Samuel Beckett é ler a sua obra. Infelizmente, até hoje só li uma de suas peças, Fim de Partida, um livro enxuto e permeado por pausas e silêncios – fico imagindando como seria assistir a um espetáculo assim em que predomina a ausência de sons.

Eram as aulas nas quais eu mais tinha atenção, já que o professor sempre escolhia bons livros e falava sobre aquilo de maneira apaixonada e cativante. Ainda tenho as anotações, e com certeza falarei mais de Beckett sempre que possível aqui no blog.

Ele retrata a sociedade pós-moderna horrorizada por duas guerras mundiais, mutilada e sem perspectivas para o futuro. Apesar disso, a destruição de um reino sempre traz em si uma semente para a construção de algo novo, por mais adversa que a situação possa se apresentar. Como explicar os diálogos rápidos, secos e, à primeira vista, sem significado? Beckett achava que a palavra não poderia exprimir a verdade, e destaco abaixo uma das intervenções que meu professor teve durante as aulas.

A verdade está no silêncio, além do mundo das palavras.

Postarei trechos maiores do livro num futuro próximo, mas por enquanto deixo apenas uma das falas que me marcaram em Fim de Partida.

A gente chora, chora por nada, para não rir, e aos poucos vai se sentindo triste de verdade.

Postado por Mateus Campos