Falar não é tão perigoso quanto escrever

Falar não é tão perigoso quanto escrever.

O som propagado no ar evapora rapidamente e não se tem mais vestígios de que um dia ele chegou a existir. Ao contrário, aquilo que está escrito, embora o papel pereça, tem um prazo de validade muito maior.

É por isso que falar não é tão perigoso quanto escrever.

Falar é de fato muito fácil. É de um imediatismo que não me agrada. Sempre fui muito mais do silêncio e da solidão. E poucas atividades são tão solitárias e silenciosas quanto o fazer escrito.

Os textos redigidos pelas minhas mãos se tornam eternos – pelo menos para mim, mas eu espero muito que os destinatários também mantenham a palavra escrita viva; que, ao olhar para aquelas linhas, evoquem a situação em que pela primeira vez elas foram lidas. Com um pouco de sorte, também as sensações daquele dia serão retomadas.

Escrever, portanto, é agir. Falar nem sempre o é.

Escrever seria tão perigoso quanto viver? perguntaria eu, sem, no entanto, receber uma resposta. E não tenho como objetivo encontrá-la. Quem sabe, “escrever” no fundo pode mesmo significar “viver”…

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Nada pode ser tão delicado quanto o contato com a pele feminina

Nada pode ser tão delicado quanto o contato com a pele feminina. Se paramos para pensar – o que certamente é algo que não deve ser feito em excesso – é como que um papel delicado, de uma alvura que comove. Deslizar a mão sobre o corpo de uma mulher é um ritual que não exige pressa, porém sensibilidade. Se puder ser feito com os olhos fechados, tanto melhor, pois privar-se de um sentido só faz aguçar um outro. E o toque pode ser realizado de várias maneiras: na forma de um abraço, um carinho em que acariciamos com a palma e as costas da mão, ou apenas com a ponta dos dedos, uma massagem suave sobre os braços nus… E igualmente prazeroso é ser tocado por uma mulher. As mãos pequenas, que ao menor contato fazem arrepiar; os dedos finos, que de tão leves soam como gotas de águas que descem pelo rosto, pelos braços… É um universo à parte que, se chega a existir, não dura mais que uns poucos segundos. Ainda assim – ou antes, justamente por isso – ele consegue ser mais intenso do que qualquer universo que possamos encontrar.

Mateus Campos

Muitas ações são feitas sem que se tenha consciência do quanto ferem

Muitas ações são feitas sem que se tenha consciência do quanto ferem. Nesse caso, de quem é a culpa? Da pessoa que realizou tal ação ou daquela que se sentiu atingida, ainda que em várias ocasiões determinado ato nem tenha sido praticado para machucá-la? Saber de quem é a culpa é o de menos, e talvez nunca se saiba. Talvez seja uma culpa compartilhada, talvez não haja culpa. Para evitar esse tipo de situação – ser agressor ou agredido – o mais indicado a fazer é buscar um isolamento. É não ir atrás de pessoas ou eventos em que alguém possa se deparar com a situação fatídica. E são muitos os que já entenderam como funciona essa lógica. É por isso que o mundo é um lugar cada vez mais esvaziado. São muitas as pessoas, poucas as relações.

Mateus Campos

Escrever

Tenho vergonha de escrever aquilo que ainda não escrevi – não acreditem jamais que me orgulho disso, embora seja justamente isso que eu transmita. O meu texto favorito, intocável, preciso dividir a atenção dele com outros menores, mas que me atraem de um modo estranho, quase que incontrolável. Não, não é isso. É exatamente isso. Talvez o ideal seria nunca dar à luz um texto: sim, que ele permanecesse somente no mundo das ideias, pois lá ele é perfeito, irretocável, sublime. Transportá-lo ao papel é matá-lo, exaurir as suas forças e corrompê-lo. Pois que se fosse apenas aquele poema, tudo bem. No entanto, logo penso em outros – ah, mas o pensar não me traz problema algum! E em seguida me vejo com o lápis sobre o papel, e então começo atabalhoado e trêmulo a despejar toda a minha vontade sobre uma folha branca, que paulatinamente vai se sujando, tornando-se preta, para nunca mais ser apagada. E então está feito, e tenho que carregar isso para todo o sempre. Mas e quanto àquele poema? Provavelmente ele nunca saberá da presença dos demais, e vai se achar o preferido. E ele é o preferido, eu não tenho dúvida! E nem por isso os outros escritos vão deixar de existir; não serão ignorados, talvez um pouco relegados a gavetas escuras. Isso, sim (será que um texto menor pode se rebelar contra o seu autor?). Porém, não vão deixar de existir.

Preciso parar de escrever.

Mateus Campos

O tempo – definição

Tempo: recorte de fragmentos imaginários ou reais no qual convergem presente, passado e futuro para formar aquilo que foi ou o que se gostaria que fosse; convenção criada na tentativa de organização e inserção da vida em determinado espaço que só consegue confundir ainda mais o que se tenta em vão explicar; substância que existe para sempre, paradoxalmente finita e breve; nuvem que nasceu branca e era cinza quando se desfez, e todo o processo que a cria e a consome; água que escorre pelo telhado, deita no solo e faz crescer a flor; um sorriso, um abraço, um beijo; mãos dadas.

– do Dicionário de Coisas Belas Indefiníveis

Por Mateus Campos

Um fragmento

Queria ser como esses que escrevem letras de músicas românticas. Não essas piegas, vazias, cheias de sentimentalismos. Mas aquelas escritas com a despretensão de serem românticas. Aquelas que começam com um outro objetivo e quase que instintivamente terminam falando de amor, pois tudo que importa é motivado por amor. Sim, eu gostaria muito de ser como eles. Pegaria o lápis todos os dias e despejaria ali a mais pura verdade das minhas sensações quando estou com você. Meu olhar, a minha presença deveriam bastar, mas ah! a força da palavra escrita! E ela não domino. E ela não compreendo. Não, não queria ser como eles. Queria, sim, ter a condição de fazer com que você entenda. Que você se entenda. Queria segurar a sua mão e transmitir com o calor da minha o meu desespero e a minha alegria. Queria que meus beijos sussurrassem o encantamento que experimento ao estar do seu lado. Queria que você não apenas abrisse os olhos, mas que enxergasse. Queria que meus braços tivessem a força para selar um pacto, ainda sabendo que ele teria um prazo de validade bem curto.

Na verdade, não. Não queria nada isso. Queria só que você estivesse aqui, pois todo o resto seriam as folhas de uma árvore no outono.

***

Extraído de nenhum livro e de todos.

Postado por Mateus Campos