De todos os volumes que descansavam na estante

De todos os volumes que descansavam na estante, um lhe chamou a atenção. Era o. A tia dita doida havia deixado para ele há muito, a capa já transformada em pó – difícil olhar os dentes de um cavalo banguela. Talvez aquele objeto dissonante e cadavérico, rodeladeado por livros mais novos, era justamente o que lhe causava um fascinamento.

A compilação cheirava a armário fechado e era como se fosse folheada pela primeira vez – o possivelmente. O menino estava com os dois irmãos na sala quando se sentou na poltrona para ler. O fodor era tão intenso que ele logo restou sozinho. Os incomodados que tratem de se desincomodar, pensou, assim que abriu em uma página mais ou menos no meio do volume.

A leitura era para trabalho de parto. O labor da equação de sua pouca idade somada a letras apagadas mais palavras nunca dantes vislumbradas era igual a uma língua irreconhecível. O pai professor até podia ajudar, porém o menino sabia que em casa de ferreiro só tinha quebra pau. Lutou, bateu os braços, mas parecia que ia se afogar. Desgostava o dissabor da incompreensão. Atirou o livro longe, que quase se desfez completamente. Mirando, viu que o pássaro sem asas havia pousado em uma página de início de capítulo, conto que era.

Foi então que. O de repentemente. O título do texto lhe sussussurrou forte na alma um feitiço de magia branca. Conseguiu ler aquelas palavras ainda à distância. Aprochegou-se, recolheu o que restou do livro e, em pé, como que devorou as linhas seguintes. Sim, ali também achou palavras estranhas, e no entanto entendeu a composição do todo que tinha sido feita para ele, tal encomenda sob medida. O estranhamente familiar e significativo. O título. O texto. O fim. O entre aquele e este.

Passou o olhar cuidadoso sobre cada sílaba. O final sem um final – sequência, travessia. O continuado e o para toda a vida. Com carinho, fechou as páginas pútridas que nem o tempo lhe roubaria ao coração. Jamais se soube o que estava escrito.

Travessia

Pode ser um rio largo que corre
incansável ou um pequeno riacho
que desavança preguiçoso
porque sabe que a pressa e a calma
vão levá-lo ao mesmo lugar
uma estrada de asfalto ou cascalho
estreita e cheia de curvas
que dançam suave no seio da selva
um viver muito perigoso de caminhos
decerto incertos mas sempre
com escolhas que no fim se mostram
apenas escolhas
porque não importa de onde saímos
ou para onde vamos
travessia…

Grande

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com a tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– “Meu amor!…”

Um dos muitos trechos memoráveis de Grande Sertão: Veredas. Terminei de ler há uns dois dias, se não me engano. Não tenho capacidade nem direito de fazer comentários sobre a obra.

Postado por Mateus Campos

Moimeichego

Sim, atraio os melhores para mim.
Sempre – ou quase.
Que me adianta tanto, se no final, pouco?
À frente é só o umbigo.
Expressão que apodrece no espelho
enquanto me afogo na própria imagem.

***

O título do poema é o nome de um personagem de um conto de Guimarães Rosa, chamado “Cara-de-Bronze”. Na falta constante de minha criatividade, decidi usar esse nome.

Postado por Mateus Campos