Sweethearts

No sonho, éramos desconhecidos e namorados. Ela era baixa, tinha cabelos pretos e dentes muito brancos. Tinha um sorriso tímido e brilhante nos olhos e me olhava com alguma desconfiança, mas não com uma desconfiança hostil; era como se fosse uma criança que via alguém pela primeira vez e, como sempre acontece, trazia no olhar ao mesmo tempo uma curiosidade, um receio e um convite. Eu a amava como nunca pude amar ninguém que existiu.

Estávamos ora caminhando por um condomínio, ora em um apartamento. Tínhamos medo. Por causa desse medo, como em geral ocorre entre desconhecidos, estávamos muito unidos e tínhamos sobre o que falar. Não parávamos de andar.

O motivo do medo era uma cobra coral que nos perseguia. Era uma cobra coral com o corpo grosso, muito diferente de como elas são de fato. Eu sabia que assim que a matassem eu acordaria. Estava preso e queria estar, ao mesmo tempo em que uma angústia me apertava porque sempre que parecíamos a salvo, a cobra ressurgia.

Alguém matou a cobra com uma faca. Suspirei. Voltei-me para a menina e a beijei. Tenho quase certeza de que foi o nosso primeiro beijo. Foi certamente o último.

Charmante

Seu charme era universal porque não dependia de palavras – ele se concentrava nos olhos e no sorriso. Os olhos eram grandes e pareciam atrair toda a luz para eles, de modo que aqueles que o contemplavam, ainda que involuntariamente, sorriam. Não fossem tão doces, o tamanho deles assustaria. O sorriso, ao contrário, era encantador não por ser amplo, mas justamente porque era contido. Ao sorrir, ela nunca mostrava os dentes, e os lábios se limitavam a estender-se lateralmente, formando um arco e provocando algumas dobrinhas (que não chegavam a ser covinhas) nas bochechas.

Toda a sua figura pequena também se destacava quando dançava nas festas. Não porque fazia gestos majestosos ou usava roupas que chamavam a atenção, mas porque havia um detalhe encantador que poucos reparavam: as mãos. Quando ela girava, tinha o costume de levar uma das mãozinhas em direção ao rosto, como se fosse apoiar o queixo, porém nunca o fazia. A mãozinha apenas se aproximava do rosto, e nesse momento ela fitava os olhos daquele com quem dançava e abria o seu meio sorriso. Isso bastava para fazer com que os jovens perdessem o ritmo, caso tivessem a sensibilidade de notar esses detalhes. Ao final de cada música, invariavelmente ela agradecia com um “obrigada” sincero, dava as costas e saía. Muitos rapazes demoravam alguns segundos para perceber que a canção já tinha acabado e que ela não estava mais ali.

Graveto verde

Um dos irmãos de Tolstói, Nikolai, dizia a ele quando eram pequenos que possuía um segredo que faria a humanidade viver uma nova era de ouro e que havia gravado tal segredo num graveto na floresta de Zakaz. Dois anos antes de morrer, Tolstói ditou o seguinte:

Embora seja um assunto desimportante, quero dizer algo que eu gostaria que fosse observado após a minha morte. Mesmo sendo a desimportância da desimportância: que nenhuma cerimônia seja realizada na hora em que meu corpo for enterrado. Um caixão de madeira, e quem quiser que o carregue, ou o remova, a Zakaz, em frente a uma ravina, no lugar do “graveto verde”. Ao menos, há uma razão para escolher aquele e não qualquer outro lugar.